Os bombeiros não sabem usar o SIRESP, os bombeiros estão a usar equipamento ilegais? Uma grande polémica que está em vias de ser inspecionada

1 ago, 19:04
Bombeiros combatem um fogo florestal em Leiria. EPA/Paulo Cunha

O Governo acusa os bombeiros de não saberem usar a rede de emergência. Os bombeiros acusam o Governo de não reconhecer que o SIRESP falha e que é preciso resolver o assunto em nome da segurança. A Inspeção-Geral da Administração Interna está disponível para intervir

A Liga dos Bombeiros Portugueses está a averiguar as queixas feitas por vários comandantes de corporações no distrito de Leiria sobre falhas na capacidade de resposta do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) durante o combate às chamas e admite solicitar um relatório à Inspeção-Geral da Administração Interna. “Os comandantes queixaram-se da situação, não há nada como averiguar e a entidade que nos parece certa para averiguar é a IGAI.”

A CNN Portugal apurou que a IGAI estaria “à partida” recetiva a analisar possíveis falhas na resposta do SIRESP, sendo que este tipo de avaliação estaria dentro das suas competências. Mas antes de fazer o pedido à inspeção, o presidente da Liga, António Nunes, garante que é “necessário ter informação concreta” sobre as falhas reconhecidas pelos bombeiros e desmentidas pelo Ministério da Administração Interna e pela secretária de Estado da Proteção Civil. "Não vale a pena continuarmos com essa polémica, por isso eu vou falar com os comandantes e depois admitimos recorrer ao IGAI”, afirma António Nunes à CNN Portugal.

A polémica em torno do SIRESP está lançada desde que o comandante de bombeiros de Alvaiázere e o autarca de Leiria garantiram que o sistema falhou aos bombeiros durante o combate aos incêndios. No terreno, os operacionais reportaram que foram mesmo obrigados a recorrer aos telemóveis pessoais e a outros meios alternativos de comunicação para solicitar ajuda. Por outro lado, o Governo nega que o SIRESP esteja a a falhar.

Primeiro foi a secretária de Estado da Proteção Civil que negou que a rede SIRESP tenha falhado, apontando para “deficientes utilizações dos equipamentos de rádio em determinado momentos". Depois das declarações de Patrícia Gaspar, foi a vez de o ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro, negar novamente falhas na rede. Disse que “houve picos de congestionamento” que chegaram a “um minuto” e adiantou, na mesma linha da secretária de Estado, que “por vezes nem sempre o uso [SIRESP] é feito nos termos em que deve ser” e que “deve ainda continuar a ser feita formação aos diferentes utilizadores” do sistema.

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Mas o problema, como conta à CNN Portugal o presidente da APROSOC-Associação de Proteção Civil, João Paulo Saraiva, é que a formação dada aos operacionais é insuficiente para que não aconteça congestionamentos, já que, muitas vezes, os operacionais não têm presente os limites do próprio SIRESP. “No teatro de operações, quem está no posto de comando não está preocupado em informar, como foi feito em Leiria, toda a rede que quem não está no teatro não deve estar a monitorizar o canal porque está a ocupar canais. E porque é que isto não é feito? Porque não se explica como funciona esta rede - em termos técnicos e é necessário compreender como esta estrutura funciona e quais são as suas limitações reais”.

Por outro lado, António Nunes, da Liga Portuguesa dos Bombeiros garante que o reforço da formação indicado pelo ministro José Luís Carneiro deve ter mais em conta o aspeto emocional de quem está no terreno sob alta pressão e perigo das chamas. “Podemos sempre melhorar mais relativamente à formação sobre os equipamentos, mas a questão passa por perceber a capacidade emocional dos operacionais para, diante de uma frente de fogo, conseguirem transmitir as suas necessidades de forma breve, concisa e clara.”

Já sobre se existiu um erro do SIRESP durante o combate aos incêndio, António Nunes diz que isso vai depender se os meios de planeamento do Estado podiam ter previsto o congestionamento das comunicações. “Não nos custa nada admitir que tenha havido um período de tempo em que o número de pedidos tenha sido superior à capacidade de resposta. Agora, se podíamos ter previsto esta situação então temos um erro”, garante, adiantando que estes problemas podiam ser diluídos se os bombeiros tivessem um comando operacional próprio - “como acontece em todos os exércitos do mundo”.

É que, havendo um comando operacional próprio, é possível o “transporte imediato de comandantes com um conjunto de células de logística e de comunicações, sem que para tal estejam dependentes de terceiros”, como a Proteção Civil - “Imagine o que aconteceria se as esquadras da PSP fossem obrigadas a reportar diretamente à Proteção Civil". "É o que acontece com os bombeiros - precisamos de uma melhor capacidade de resposta."

João Paulo Saraiva admite que o "sistema, tal como ele é, não tenha falhado". De certo modo, acrescenta, o Governo, ao negar falhas no SIRESP, "em parte tem alguma razão" mas a verdade é que "o SIRESP não serve os bombeiros e é uma falha permanente”.

A CNN Portugal questionou o Ministério da Administração Interna sobre se vai avançar com mudanças relativamente à formação dos operacionais quando lidam com o SIRESP, mas até ao momento não recebeu uma resposta.

Tanto António Nunes como João Paulo Saraiva insistem que desde 2003, ano em que foi colocado em marcha aquilo que viria a ser o SIRESP, que têm alertado para os vários problemas da rede e essa conjuntura levou a que “grande parte dos bombeiros que utilizam a rede operacional” estejam a usar equipamentos “ilegais e sem certificação CE”,  que atesta que os equipamentos cumprem uma série de requisitos para serem utilizados em teatros operacionais, explica Saraiva, garantindo que há casos em que são os próprios bombeiros ou as suas corporações a comprar este tipo de equipamentos ilegais “porque são mais baratos e a estrutura governamental não os disponibiliza”.

Já António Nunes aponta para o investimento anunciado pelo Governo para o SIRESP de 150 milhões de euros nos próximos cinco anos (75 milhões dos quais correspondem ao valor do concurso público internacional) como “prova” de que “o problema é estrutural”. “Se o Governo investe estes milhões é porque a coisa não está bem.”

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