«Até aos 17 anos não devia haver campeonatos: a campeonite não é benéfica»

13 mai, 09:20
Benfica Campus

Rodrigo Magalhães, diretor técnico do Benfica, partilha com o Maisfutebol algumas preocupações sobre o modelo de formação em Portugal e diz ser importante promover uma reflexão geral. Na opinião dele, é importante perceber até que ponto a competição faz mal aos miúdos e é urgente levar a rua para dentro dos clubes, de forma a promover um crescimento mais harmonioso e saudável das crianças.

Rodrigo Magalhães é um dos dois diretores técnicos do futebol de formação do Benfica. É ele que, juntamente com Pedro Marques, um elemento contratado ao Manchester City, pensa o modelo de criação de talentos no Seixal: um trabalho que já exerce desde 2005, e naturalmente conhece bem.

Na sequência de uma visita para perceber como é um dia no Benfica Campus, o Maisfutebol falou com Rodrigo Magalhães e sentiu que há no clube dúvidas sobre os modelos atuais.

Antes de mais, o diretor técnico diz que há uma pressão exagerada sobre os miúdos e que é urgente «entender que aos 9, 10 ou 11 anos não são jogadores profissionais em miniatura».

«Têm de ter tempo para ser crianças, para ser adolescentes, para tentar e falhar, para rir e chorar de forma saudável, sem uma pressão extrínseca sobre a sua performance.»

Para o conseguir, Rodrigo Magalhães defende o fim dos campeonatos nacionais.

«Eu acho que até aos 16 ou17 anos não deveria haver campeonatos formais nem competição. Acho que há um modelo de campeonite instituída, transversal aos jogadores, aos encarregados de educação e a toda a sociedade, que na minha opinião não é benéfica. Obviamente que tem de existir competitividade, é intrínseco ao ser humano, temos de promover essa competitividade, mas a importância e o mediatismo que damos aos campeonatos não é benéfico. Basta olhar para o Torneio da Pontinha, em que a final passa na televisão. Percebe-se a tensão que há nos miúdos e nos pais naquele momento. Isso é anormal face à idade daqueles adolescentes. Os próprios clubes, sobretudo aqueles que não têm muito bem delineado o que querem, optam por jogadores com um grau de prontidão que ajude a ter sucesso no momento. Mas depois, passados cinco ou seis anos, percebemos que aqueles jogadores que venceram o torneio acabaram por não corresponder ou não evoluir. Por isso acho que temos de colocar na balança até que ponto isto é importante.»

Rodrigo Magalhães refere, pelo caminho, que esta ideia de não ter campeonatos formais para as idades mais baixas funciona noutros países, e funciona bem. Na Bélgica e Croácia, explica, os campeonatos sub-15 têm uma importância muito relativa.

«Há um árbitro apenas, que comete montes de erros, falha foras de jogo e não ouvi uma crítica. É uma forma saudável de viver o futebol e de tirar prazer de um jogo mais anárquico, com um contexto tático-estratégico muito baixo. Mas a verdade é que não deixamos de encontrar jogadores fantásticos, sem medo de arriscar e com uma técnica ofensiva e defensiva que que já não conseguimos ver por cá.»

Em Inglaterra só competiam a partir dos 17 anos. Até lá os clubes juntavam-se ao fim de semana, os miúdos jogavam e os pais conviviam. Só havia um elemento da Federação para verificar as condições de segurança. De resto, era bola para a frente e siga o jogo.

«Quando defrontávamos estas equipas tínhamos obviamente um sucesso muito superior se a métrica do sucesso for o resultado. Mais tarde, porém, percebíamos que este jogador estrangeiro chegava à seleção nacional sub-17, sub-18 ou sub-19 e tinha um nível qualitativo que não era inferior ao do jogador português. Portanto, eu pergunto que necessidade é esta de termos desde os 8 ou 9 anos uma competição formal, com árbitros, com campeonatos distritais e nacionais?», pergunta.

«Há uma tendência do ser humano em valorizar cada vez mais os pequenos feitos e as pequenas conquistas, através da opinião de terceiros. Portanto, desenvolvemos jovens com dificuldades em ouvir um não, com total ausência de momentos de resiliência e com uma carga emocional exacerbada perante qualquer momento que não é positivo. Mais tarde acabamos por ter como reflexo miúdos que aos 16 ou 17 anos estão cansados de jogar futebol, porque simplesmente não lhes dá prazer. Processos de profissionalização precoce leva-os a esse desfecho.»

Perante isto, Rodrigo Magalhães reitera a necessidade de se fazer uma reflexão sobre o sucesso dos modelos competitivos atuais no futebol de formação.

«O modelo competitivo deveria ser ajustado, não consigo precisar quando deveria começar a competição formal, talvez aos 14 ou 15 anos. Eu lancei os 17 porque acho que o pulo pubertário em alguns jogadores tem uma maturação tardia. No Bernardo Silva, por exemplo, aconteceu aos 17 ou 18 anos. Começando o modelo competitivo aos 17 anos, a maior parte dos jogadores está em pé de igualdade no seu desenvolvimento físico. Aos 17 anos há mais hipóteses de não se ignorar o talento de um jogador cuja idade biológica não acompanha a idade cronológica.»

Por isso mesmo, refere, o Benfica não inscreveu as equipas de benjamins e infantis no campeonato. Os jogadores estão inscritos, mas não competem por opção do clube.

«É uma idade em que a riqueza advém da multiplicidade das atividades que lhes conseguimos proporcionar, ao invés de esgotarmos uma manhã numa viagem, numa convocatória uma hora antes do jogo, mais uma hora e pouco de jogo, o banho e o regresso. Gastávamos uma manhã para disputar um jogo de futebol, quando assim conseguimos proporcionar-lhe dois jogos amigáveis, uma atividade de futsal e uma atividade de dança, por exemplo, gastando o mesmo tempo. Volto a sublinhar que, para evoluir, um miúdo tem que ser competitivo, tem que se comparar, tem que procurar a superação. Mas na dose certa e na idade certa.»

Ora para Rodrigo Magalhães esta conversa leva-nos a outra, que passa pela necessidade de deixar as crianças desenvolver a criatividade. Uma coisa que é difícil num futebol cada vez mais mais mecanizado.

«Nós temos um programa de motricidade infantil para todas as equipas abaixo dos 12 anos, com dois professores que desenvolvem essa atividade. Temos dois professores de dança, temos atividades de futsal, temos atividades nas aulas, temos um conjunto de práticas que desenvolvem o jovem jogador de futebol numa perspetiva holística, global, que não tem só a ver com a especialidade de futebol. Estamos a desenvolver o ser humano no seu todo.»

O responsável encarnado acrescenta até que para desenvolver o ser humano no seu todo, o Benfica instituiu uma série de princípios no trabalho normal das equipas mais jovens, os quais pretendem formar miúdos mais felizes... e criativos.

Até porque o futebol tem vindo, ao longo do tempo, a penalizar a imaginação dos jovens.

«Nós podemos começar por aquilo que foi a transformação e evolução dos sistemas táticos em Portugal. Quando entrei no Benfica em 2005 o sistema preferido no futebol de sete era 1x2x3x1, era um sistema muito mais ofensivo, tinha extremos, alas, dribladores e miúdos criativos. As equipas hoje em dia acabam por optar por 1x3x2x1, ou seja, é um sistema mais equilibrado, mais defensivo, com a projeção dos defesas laterais para equilibrar o setor do meio-campo e muitas vezes procurar a superioridade no ataque. Se formos para o futebol de nove, porque sempre participámos em torneios internacionais de futebol de nove, o sistema preferencial era 1x3x2x3. Atualmente o sistema preferencial é o 1x4x3x1, em que um médio já é defensivo. Aliás, no futebol de onze a base transversal a praticamente todas as equipas era o 4x3x3 e atualmente na alta competição vemos muitas vezes um sistema de 3x4x3, que no momento de transição defensiva se transforma em cinco defesas», conta.

«Houve também a valorização social de outros aspetos. Antigamente quando a bola chegava ao último terço do terreno, e principalmente à posição dos avançados, extremos ou médios ofensivos, o feedback que se ouvia por parte dos treinadores e até dos encarregados de educação era sempre ‘vai para cima’, ou ‘vai até ao fim’ ou ‘faz golo, acredita’. Hoje em dia esse tipo de feedback foi substituído por ‘mantém a posse’, ‘valoriza a posse’ ou ‘tens cobertura’ ou ‘estás em inferioridade numérica’, portanto tentamos sempre minimizar o risco, privilegiando a manutenção da posse.»

Por isso Rodrigo Magalhães diz que há uma valorização excessiva da posse de bola, que viola até princípios básicos do futebol juvenil como por exemplo o princípio da progressão.

O que o leva a apelar a uma reflexão global, que envolva clubes, associações de futebol e a própria federação, sobre aquilo que é um modelo de desenvolvimento dos jovens jogadores.

«Basta olhar para um Cancelo ou um Ruben Dias para perceber que até os jovens jogadores da nossa linha defensiva antigamente tinham capacidade, eles próprios, para progredir em início de construção: um lateral que procurava a verticalidade do corredor, que procurava espaços interiores em condução de bola, um central que progredia, ia atrair, ia fazer saltar alguém da linha média do adversário e procurava o jogador livre no corredor central», diz.

«Atualmente para provocarmos o mesmo efeito na estrutura defensiva adversária privilegiamos um infindável número de toques entre os laterais, os centrais e o próprio guarda-redes. Muitas vezes os jogadores com mais toques na bola são o guarda-redes, os centrais e às vezes os laterais e médios defensivos. Isto acaba por afetar a tipologia do jogador.»

Perante isto, e para não formar jovens jogadores cada vez mais mecanizados, que sejam exímios apenas a receber e a passar a bola, o Benfica criou uma série de momentos em que procura devolver as crianças à rua. Ou antes: trazer a rua para dentro do clube.

Porque há coisas que só se desenvolvem na rua.

«Tentamos provocar alguns momentos em que os miúdos têm liberdade total. Por exemplo, temos um período que antecede a unidade de treino em que os jogadores chegam, têm o material disponível, têm as bolas, as boias, os marcos, e eles próprios podem jogar a um bota atrás ou fazer um meinho, podem jogar de forma livre, em que eles decidem como querem distrair-se. Temos uma liga interna, que é a Benfica League, em que os jogadores são misturados em diferentes faixas etárias, mas próximas. As equipas são batizadas com o nome de jogadores de referência do futebol de formação, damos a oportunidade aos adjuntos de gerir a Benfica League, com uma particularidade: há momentos em que os treinadores recolhem ao banco de suplentes e não dão qualquer tipo de indicação, para os jogadores serem autónomos, como se estivessem a jogar na rua. Nas atividades de futsal utilizamos diferentes tipos de bola, jogamos muitas vezes de descalços, para promover a adaptação a texturas diferentes e a diferentes sensibilidades», diz.

«O objetivo, claro, é olharmos para o Bernardo Silva como expoente máximo e percebermos que a bola é a continuidade do corpo. A dança e a motricidade infantil, em que eles fazem saltos nos trampolins, cambalhotas, roletas, pontapés de bicicleta são um momento lúdico com uma riqueza inigualável. O Benfica tem a preocupação de formar jovens, crianças e adolescentes felizes, com um desenvolvimento eclético e um conhecimento do próprio corpo que os deixa mais preparados quando entram num campo de futebol.»

O mundo está a mudar e o Benfica sente que a formação dos jovens jogadores tem de mudar também. Mas essa mudança não se consegue fazer de forma isolada.

«A importância da motricidade infantil é uma das nossas preocupações, que tentamos transmitir em colóquios, simpósios e encontros. Hoje em dia há uma grande iliteracia motora e cabe-nos a nós encontrar formas de trazer a rua para dentro do clube.»

 

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