Procura por babysitters está a aumentar muito, mas ainda é difícil viver apenas disso: "Os pais veem-nos como uma ‘faz-tudo’"

11 set, 10:00
Babysitters

O número de famílias à procura de serviços de babysitting online disparou 176% nos primeiros sete meses deste ano

Há três anos que Francisca acorda pela manhã e se debruça sobre o computador para consultar a página do OLX. Um anúncio salta imediatamente à vista: “Francisca de Castro, 27 anos. Babysitter. Sob orçamento”. Entre algumas fotografias alusivas à atividade surge o seu rosto: uma franja um tanto ou quanto ameninada e um sorriso convidativo. Apresenta-se como alguém capaz de “manter as crianças entretidas”, e que adora ensinar.

“Sendo filha de uma educadora de infância e educação especial, tenho todo o à vontade no mundo com os mais pequeninos”, uma qualidade que já lhe valeu um part-time, uma proposta para se mudar para a Irlanda e contactos aos quais já não consegue dar vazão. Cuida de crianças, não só porque necessita de rendimentos, mas porque gosta genuinamente de o fazer, ou de outra forma não teria estofo para gerir os encargos emocionais que este ramo lhe traz. “Chego a passar mais tempo com elas do que os próprios pais, e o afeto cresce dia para dia”, admite. Mesmo nas atividades mais básicas como dar banho, dar de comer ou uma simples brincadeira.

Certo é que nem tudo é um mar de rosas. Até que a primeira proposta surgisse, esperou pacientemente meio ano e arredou-se de várias solicitações indesejadas. Ainda hoje assume a instabilidade inerente a este trabalho: “Os pais veem-nos como uma ‘faz-tudo’ e depois abusam”, critica. “Eu não vou para lá limpar a casa toda. Não sou uma governanta, sou uma cuidadora”.

Francisca doma ainda o facto de ser “muito mal paga”, muitas vezes “por baixo da mesa” ou mediante recibos verdes. Talvez por isso, e de acordo com uma análise da Fixando, a oferta de babysitting no país seja escassa. Só em julho, cerca de 89% dos pedidos registados pela plataforma de serviços não receberam resposta neste setor. “Há sempre pessoas que não querem pagar o valor indicado, por isso temos que ser firmes”, explica Francisca.

Exemplo disso foi a sua primeira vez: “Propuseram-me trabalhar nove horas por dia, cinco dias por semana. Pedi cinco euros por hora e quiseram baixar”. Se na altura não podia recusar, hoje em dia não aceita menos do que isso. Pode até, em alguns casos, chegar aos 9 euros. Atualmente, com crianças de duas famílias ao seu encargo diariamente, entre os oito meses e os 6 anos, retira entre 550 e 600 euros mensais.

Oferta é pouca, mas procura disparou

Paralelamente à pouca oferta de babysitters no país, a procura pelo serviço online aumentou 176% nos primeiros sete meses do ano, segundo a mesma análise da Fixando. Entre 2020 e 2021 já tinha sido registado um crescimento de 54%. Alice Nunes, Diretora de Novos Negócios da Fixando, explica que com o pós-pandemia muitos pais procuram o babysitting de forma esporádica, “de forma a poder valorizar o tempo a dois, principalmente nas grandes cidades”.  

A responsável esclarece ainda que, para alguns pais com crianças mais velhas, cujo serviço assenta frequentemente em ir buscar a criança à escola e ajudar nos trabalhos de casa, “um jovem a frequentar o ensino secundário e com experiência com crianças será suficiente”. Contudo, no caso de crianças mais pequenas, é necessário que, “para além de muita experiência, o babysitter tenha formação na área”.

Já Francisca, apesar de concordar, sugere outra possível razão para o efeito: as creches. “Está tudo cheio nas creches, sobretudo para bebés até aos dois anos”, levando muitas famílias a recorrer cada vez mais a estes serviços. “Já chegaram a pedir-me para ficar com bebés de cinco meses”, diz, soltando uma gargalhada nervosa.

Recorde-se que arrancou na passada quinta-feira o programa de gratuitidade "Creche Feliz" nas instituições do setor social e solidário, para crianças que nasceram depois de 1 de setembro de 2021. As que não conseguiram beneficiar da medida, terão de esperar pelas vagas gratuitas do privado, cuja disponibilidade está agendada apenas para janeiro de 2023. Até à data, resta-lhes apenas pagar a mensalidade.

"Mesmo as creches privadas estão completamente cheias"

Daniela Alves Ribeiro teve a segunda filha este ano. Não imaginava, porém, os desafios que a reservavam nos tempos seguintes. "Inscrevi-a na IPSS estando grávida, mas não fui chamada", lamenta. Procurou perto de casa, do trabalho, e até nos arredores. "Não há creches. Mesmo as privadas estão completamente cheias, e estamos a falar em mensalidades desde os 360 euros até aos 600".

Com uma bébe nas mãos, a mãe de 28 anos estava desempregada e sem possibilidade de voltar a trabalhar. A única opção seria arranjar uma babysitter com os poucos 560 euros que recebia de subsídio de desemprego, e assim foi. Acordou pagar 250 euros por mês, por serviços diários das 9 às 18 horas. É de facto "uma pechincha", assume, mas era "uma pessoa querida" e valeu-lhe o regresso ao trabalho. 

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