Confissões de uma “hospedeira de bordo” dos anos 80

CNN , Jacopo Prisco
19 jun, 13:31
Assistentes de bordo

Um trabalho que começou por ser sexista, com limites de peso que podiam levar ao despedimento, sexo a bordo entre passageiros, fumo insuportável de tabaco, acontecimentos insólitos, e que mudou depois para sempre com a democratização dos voos.

"Atingi a maioridade quando a era do avião a jato atingiu a maioridade", diz Ann Hood, uma romancista americana e autora best-seller do New York Times, cujo último livro "Fly Girl" é uma memória dos seus anos aventureiros como assistente de bordo da TWA, mesmo no final da Era Dourada das viagens aéreas.

Quando criança, crescendo na Virgínia, assistiu ao primeiro voo do Boeing 707 -- que deu início à era das viagens de avião de passageiros -- e assistiu à construção do aeroporto de Dulles.

Aos 11 anos, depois de ter voltado para Rhode Island com a sua família, leu um livro de 1964 intitulado "How to become an airline stewardess" [tradução livre: “Como transformar-se numa hospedeira de bordo”] e decidiu-se.

"Embora o livro fosse sexista como o raio, atraiu-me porque falava em ter um emprego que permitisse ver o mundo, e eu pensei, bem, que poderia funcionar".

Quando se formou na faculdade, em 1978, Hood começou a enviar candidaturas de emprego para companhias aéreas. "Penso que 1978 foi um ano realmente interessante, porque muitas das mulheres com quem andei na faculdade tinham um pé em ideias antigas e estereótipos, e outras um pé no futuro. Foi uma época um pouco confusa para as jovens".

"Assistente de bordo" era um termo recentemente cunhado, uma melhoria neutra em termos de género face a "hospedeiras", e a desregulamentação da indústria aérea estava ao virar da esquina, pronta para abanar as coisas.

Mas, na maioria dos aspetos, voar ainda era glamoroso e sofisticado, e as assistentes de bordo ainda eram "ornamentos bonitos e sexy", como diz Hood, embora já estivessem a lutar pelos direitos das mulheres e contra a discriminação.

O estereótipo das hospedeiras de minissaias que namoriscavam com os passageiros do sexo masculino ainda persistia, popularizado por livros como “Coffee, Tea or Me? The Uninhibited Memoirs of Two Airline Atewardess” [tradução livre: "Café, chá, ou eu? As Memórias Desinibidas de Duas Transportadoras Aéreas"] -- publicado em 1967 como sendo factual, mas mais tarde revelado como tendo sido escrito por Donald Bain, um gestor de relações públicas da American Airlines.

Limites de peso

Anne Sweeney foi assistente de bordo da Pan Am de 1964 a 1975, e depois passou a relações públicas, representando a o Fundação do Museu Pan Am.

Alguns dos piores requisitos para ser contratada como assistente de bordo - tais como restrições de idade e perda do emprego em caso de casamento ou parto - já tinham sido levantados, mas outros permaneceram. O mais chocante, talvez, foi o facto de as mulheres terem de manter o peso que tinham no momento da contratação.

"Todas as companhias aéreas enviaram uma tabela com a sua candidatura, olhavam para a sua altura e o peso máximo e, se não se enquadrasse nisso, nem sequer a entrevistariam", diz Hood. "Mas uma vez contratada, pelo menos na TWA, não podia chegar a esse peso máximo. Tinhas de ficar com o teu peso contratado, que no meu caso era cerca de sete quilos menos do que o meu limite máximo”.

"A minha colega de quarto foi despedida por causa disto. O que é realmente terrível, além do que fez às mulheres, é que esta restrição não foi removida até aos anos 90".

A bordo do Douglas CD-7, apresentado em 1953.

Hood foi uma das 560 assistentes de bordo, entre 14 mil candidatos, contratada em 1978 pela TWA, então uma grande transportadora, que seria adquirida pela American Airlines em 2001.

O trabalho começou com alguns dias de intensa formação em Kansas City, onde as assistentes de bordo cadetes aprenderiam tudo, desde nomes de partes de aeronaves a procedimentos médicos de emergência, bem como os protocolos de segurança de sete aeronaves diferentes. A lista incluía a “Rainha dos Céus”, o Boeing 747.

"Era aterrador, porque era tão grande - e as escadas, as escadas em espiral que levavam à primeira classe que se tinha de subir e descer não raramente", diz Hood. "Eu continuaria a pensar: ‘não tropeces’. Acabei por me habituar a isso".

Bifes chateaubriand

O Lockheed L-1011 TriStar

O avião favorito de Hood para trabalhar era o Lockheed L-1011 TriStar. "Em voos domésticos [nos EUA], apenas a Eastern Airlines e a TWA voavam com ele. Era um avião muito acessível e funcional, com uma bela disposição de dois lugares em cada lado e depois quatro lugares no meio, para que todos pudessem sair facilmente. Ninguém ficava infeliz naquele avião".

Voar naquela altura ainda era glamoroso, diz.

"As pessoas vestiam-se para voar e lembravam-se da comida de uma forma positiva. É realmente diferente de hoje. Só posso comparar com estar num bom hotel, ou talvez num navio de cruzeiro. Nada era de plástico e o corredor era super agradável", diz Hood, que se lembra de vestir o seu uniforme da Ralph Lauren e retalhar bifes chateaubriand cozinhados a gosto para os passageiros de primeira classe, que também tinham uma escolha de caviar russo e lagosta para acompanhar o seu Dom Perignon.

Nem tudo eram rosas. Era generalizado fumar a bordo, o que para as assistentes de bordo era um pesadelo.

"Se fosse fazer uma viagem de cinco dias, o que não era invulgar, teria de embalar um uniforme inteiro separado, apenas porque cheiraria muito a fumo", diz Hood. "Fiquei contente quando isso acabou. As filas da frente de cada secção foram consideradas de não fumadores, mas o avião inteiro estava cheio de fumo porque não se conseguia evitar que ele passasse para trás, era ridículo".

E quanto ao “Mile High Club”? [“Mile High Club”, ou “Clube das Altas Milhas”, era a gíria para encontros sexuais a bordo de um avião.] "Não era invulgar em voos internacionais ver um homem entrar na casa de banho e um minuto depois a sua companheira de lugar juntar-se a ele, ou outra versão disso", diz Hood. "Não acontecia em todos os voos, mas via-se”.

"Os voos internacionais normalmente não estavam tão cheios como agora, por isso naquelas secções médias de cinco lugares num 747 podia-se ver um casal colocar os apoios de braço para cima, pegar num cobertor e desaparecer debaixo dele. Não posso dizer o que eles estavam a fazer, mas parecia suspeito".

Quanto aos passageiros que namoriscavam ou convidavam as assistentes de bordo para saírem com eles, também era comum. "Eu saí com passageiros, mas na maioria dos casos foi desastroso. Nunca foi o que eu tinha imaginado. Mas, em 1982, conheci um tipo num voo de São Francisco para Nova Iorque. Ele estava sentado no 47F - e namorei com ele durante cinco anos".

Um trabalho de empoderamento

Hood tem visto a sua quota-parte de coisas bizarras a bordo. "O mais estranho seria definitivamente a mulher de primeira classe que parecia estar a amamentar o seu gato. Quer dizer, não posso dizer que estivesse realmente a acontecer, mas ela tinha o gato ao peito”.

"E depois o tipo que voou todo o caminho vestido de ceroulas e camisa e gravata, porque não queria amarrotar as calças para uma entrevista de emprego. Ou o tipo de um 747 em Frankfurt que andava de bicicleta pelo corredor", revela.

Dito isto, a rotina às vezes impunha-se, e nem todos os voos eram um concentrado maravilhoso de aventura e glamour.

"Diria que o trabalho era 80% divertido e 20% aborrecido. Em alguns voos, especialmente aqueles que não estavam muito cheios, havia muito tempo para preencher. Só se pode servir tanta comida e tantas bebidas, e passar tantos filmes. Tornei o trabalho divertido. Adorava falar com pessoas. Adorava a sensação. Ainda hoje adoro voar", diz Hood.

Hood diz que era de facto possível visitar e experienciar as cidades para onde viajou. "Por vezes a escala era muito curta ou eu estava cansada, mas na maior parte das vezes, a cidade estava mesmo à porta. Tirei muito partido disso em voos internacionais".

Hood deixou o trabalho para se concentrar na sua carreira de escritora em 1986, e nessa altura as coisas já tinham mudado. A desregulamentação, que retirou o controlo federal sobre tudo, desde as tarifas até às rotas, tinha entrado plenamente em vigor, mudando os voos para sempre.

Os aviões passaram a estar cheios com mais lugares e o corredor deixou de ser tão agradável, mas voar também foi democratizado e disponibilizado a uma parte muito maior da sociedade.

Hood diz estar orgulhosa da sua carreira nos céus.

"Os assistentes de bordo são uma força. São altamente sindicalizados. São independentes. Na cabine, eles tomam todas as decisões. Têm de resolver os problemas. Estão lá para os assuntos de emergência. Aterram em cidades de que não conhecem nada nem ninguém e encontram o seu caminho”.

"É um trabalho tão empoderador e no entanto é um trabalho sexista. Em si mesmo, é tão contraditório hoje como na época em que o comecei", diz.

Ainda assim, Hood recomenda-o como opção de carreira.

"Eu tinha 21 anos quando fui contratada, e isso deu-me confiança, deu-me equilíbrio, e a capacidade de pensar pela minha própria cabeça", acrescenta. "Assumir o comando daquele avião e, depois de sair, entrar numa cidade e sentir-me completamente em casa - ou pelo menos descobrir como me sentir em casa nela”.

"Não sei se deve ser o trabalho da vida de alguém - se quiserem que seja assim, ótimo. Mas penso que alguns anos a trabalhar como assistente de bordo pode mudar a sua vida".

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