A cidade italiana que brilha à noite

CNN , Julia Buckley
26 fev 2022, 08:00

Dando uma volta por Ascoli Piceno esta parece, de certa forma, ser apenas mais uma cidade italiana. Há duas grandes praças onde os locais veem os dias passar, sentam-se em cafés para ver as pessoas passar e fazem o seu passeggiata noturno. Há igrejas seculares e até ruínas antigas que datam do período romano.

Tal como em muitas cidades italianas, o centro foi construído no período medieval. E, tal como nas outras, foi lindamente preservado.

Mas dê uma volta, sobretudo à noite, e irá reparar numa grande diferença: Ascoli parece brilhar.

De dia, os edifícios e até as pedras dos passeios parecem brilhar com a luz do sol. E à noite, elas brilham sob a luz da lua, as torres, os pórticos e os candeeiros de rua refletem na perfeição no chão, fazendo com que o centro da cidade pareça uma miragem.

Isto deve-se ao facto de a pedra local de Ascoli, com a qual todo o centro histórico foi construído, ser o travertino: uma pedra preciosa, parecida ao mármore, que reluz uma cor bege à luz do meio-dia, tons de rosa ao pôr do sol e brilha sob as luzes da rua à noite.

Hoje, o travertino – e o travertino italiano em particular – é caro. É comum serem usados em casas de banho e em pavimentos, em vez de usado em toda a casa.

Mas o travertino dos edifícios e das pedras dos passeios de Ascoli foi posto muito antes de se tornar um material extremamente precioso. Muitos dos grandes edifícios que se vê hoje em dia datam do período romano.

Uma Roma antiga em miniatura

Ou, em vez disso, foram reciclados de edifícios romanos, e é por isso que se encontram igrejas equilibradas em visíveis ruínas de templos romanos e pedaços de arcos e capitólios misturados com palácios medievais e renascentistas.

Os romanos não foram os primeiros a instalar-se aqui, diz Lella Palumbi, uma guia turística em Ascoli. A cidade pertenceu inicialmente aos Piceni, uma tribo cujo território se estendia sob grande parte da moderna região de Marche, desde Pesaro, no norte, até Chieti, na moderna Abruzos. Eles fundaram a cidade um século antes de Roma ter nascido.

Os Piceni eram grandes guerreiros, diz Palumbi, e os romanos, cada vez mais poderosos, rapidamente procuraram tornar-se aliados. Mas o pedido dos Piceni para a cidadania romana desencadeou uma guerra que durou um ano, culminando na captura de Ascoli. Uma vez lá dentro, os romanos demoliram a cidade e decidiram reconstruir do zero.

“Foi aí que nasceu o travertino de Ascoli”, diz Palumbi.

Uma forma sedimentar de calcário, o travertino é formado quando as fontes termais depositam minerais de carbonato de cálcio. É notoriamente poroso, quase elástico, graças a organismos externos, como algas, musgo, bactérias, e muitas vezes, fósseis.

Os romanos já o usavam para a maior parte dos seus edifícios e monumentos importantes em Roma, usando pedreiras em Tivoli, perto da cidade, eles até apelidavam a pedra de “lapis tiburtinus”, ou “pedra de Tivoli”, que foi mais tarde transformado em “travertino”.

Tendo conquistado Ascoli, os romanos repararam que havia pedreiras parecidas a alguns quilómetros de distância, nos arredores da antiga Via Salaria. Usaram essa pedra para construir uma nova cidade brilhante, para demonstrar o seu poder sobre até os inimigos mais desgastados pela guerra.

Foi, diz Palumbi, uma “Roma em miniatura”. Tinha templos, um tribunal, instalações de spa e um capitólio. Uma praça, a Piazza San Tommaso, continua a ser um pouco arredondada hoje em dia porque está localizada no anfiteatro antigo; nos arredores do centro da cidade estão as ruínas do teatro romano, um dos poucos edifícios que sobreviveu à “renovação” medieval da cidade.

Dois mil anos de renovação

O teatro romano foi um dos poucos edifícios antigos que não foi reciclado.
AGF Srl/Alamy Stock Photo

A Ascoli romana durou mais tempo do que o império, mas no período medieval os cidadãos decidiram reconstruir. Em vez de usarem pedras novas, como pode acontecer hoje em dia, renovaram os edifícios romanos usando travertino cortado mil anos antes para construir a cidade moderna. Hoje, as igrejas de San Venanzio e San Gregorio Magno estão localizadas em templos romanos, incorporando as suas pedras no edifício. Esta última até renovou as fundações pagãs na sua parede detrás, e até construiu a sua fachada à volta de duas colunas coríntias originais.

“É tudo reciclado, desmontámos os monumentos romanos para construir a cidade medieval”, diz Palumbi, que também é proprietária de um bar, Ozio, localizado num edifício medieval usando pedra romana que foi renovada no Renascimento.

“Eles estavam a tentar poupar tempo e energia, por isso, em vez de irem às montanhas extrair travertino, usaram o que já estava cá, a cidade foi uma pedreira, basicamente.” Observe com atenção as várias torres que fizeram esta Manhattan medieval (Ascoli é, às vezes, apelidada de “a cidade das 100 torres”), e verá muitas lajes romanas talhadas.

A cidade viu mais renovação no período do Renascimento, continuando a usar exclusivamente travertino. Fazendo de Ascoli Piceno uma sopa de um legado arquitetónico que nunca mudou.

“Ascoli é a única cidade no mundo feita inteiramente com travertino”, diz Stefano Papetti, diretor dos cinco museus da cidade na sua função de consultor científico das coleções da cidade.

“É diferente das outras cidades artísticas italianas que são construídas, na maioria, em tijolo e depois revestidas com travertino ou mármore. Mas aqui, quer seja dos períodos romano, medieval, renascentistas, ou outros, todos os edifícios são feitos com blocos sólidos de travertino, extraídos das montanhas ao redor de Ascoli.”

Uma metamorfose ao estilo Wes Anderson

Hoje, Ascoli Piceno abriga a maior concentração de igrejas romanas num centro de cidade italiano. Diz-se que o seu batistério do século VI é um dos melhores exemplos deste género no país.

A galeria de arte Pinacoteca Civica de Ascoli tem obras de Titian, Guido Reni e Carlo Crivelli, um pintor veneziano do século XV que trabalhou na região de Marche e morreu na cidade.

E o seu bar mais famoso, Caffe Melett, saído diretamente de um filme de Wes Anderson com a sua fachada cor-de-rosa, mesas verde menta e um interior luxuoso de Art Nouveau. Todos, desde Ernest Hemingway a Simone de Beauvoir, provaram o seu licor de anis.

A cidade é até famosa pela sua comida. “Olive ascolane”, azeitonas de grande dimensão e suculentas recheadas com carne e fritas, são comidas por toda a Itália.

A galeria de arte local tem três obras do mestre renascentista, Carlo Crivelli.
Archivio Iconografico Comune di Ascoli Piceno

No entanto, poucas coisas conseguem competir com os edifícios em travertino de Ascoli Piceno.

Piazza Arringo, a praça da catedral, está rodeada de edifícios renascentistas imponentes, incluindo a câmara municipal do século XII, onde se situa a galeria de arte. Idosos sentam-se nos bancos em travertino no exterior, observando a água jorrar das bocas de dois cavalos-marinhos em bronze na fonte no lado oposto. A fonte, claro, também é feita em travertino.

Para se chegar à cidade, atravessa-se uma ponte romana, construída em travertino.

Entretanto, Piazza del Popolo, a outra praça principal, está rodeada de edifícios renascentistas. A zona foi demolida no início do século XVI.

Os pórticos em travertino escondem lojas medievais que não eram consideradas harmoniosas o suficiente para o Renascimento. Um lado da praça é ocupado por completo pela igreja de San Francesco, que se diz ser um dos edifícios góticos mais bonitos de Itália. No outro lado está o Palazzo dei Capitani, completo com uma torre, um edifício estilo castelo, agora usado pelas autoridades locais, que recebe exibições regularmente e permite o acesso ao mercado romano na cave.

Pavimentada apenas com travertino, esta é uma praça que brilha à noite, quando os candeeiros da rua, engenhosamente colocados, fazem com que os pórticos pareçam estar a derreter no chão, os palácios a pairar e todo o espaço parece ser uma miragem resplandecente.

“É deslumbrante à noite com a iluminação”, diz Papetti, que acrescenta que, de facto, Ascoli transforma-se todos os dias.

“O travertino tem esta qualidade de mudar de cor dependendo do sol e do tempo”, diz Papetti. “Pode estar muito calmo, por exemplo, e ficar rosa ao sol. Com o mau tempo fica cinzento.”

A pedra que salvou a cidade

O travertino tem outra qualidade particular que dá a Ascoli a sua beleza. Quando extraído inicialmente é relativamente suave, permitindo que seja esculpido – uma das razões por que os edifícios de Ascoli têm portas e fachadas com ornamentos talhados – muitas casas renascentistas têm até lemas talhados nas portas.

Depois, através do processo químico da oxidação, solidifica em pedra tão resistente que os edifícios de Ascoli aguentaram vários terramotos ao longo dos séculos.

Não foi destruída por um enorme terramoto em 1703 nem gravemente atingida pelo terramoto de 2016 que destruiu Amatrice, a uma hora de distância.

Claro que Amatrice estava mais próxima do epicentro de ambas as vezes – também foi destruída em 1703. Mas o terreno também é diferente – Ascoli é mais estável do que outras zonas próximas. Mas, diz Papetti, “a pedra ajuda a tornar os edifícios mais estáveis”.

Palumbi concorda: “Os romanos tinham noção dos terramotos e construíram Ascoli para ser resistente. Eles tinham melhores engenheiros do que hoje em dia.

“Podíamos viver alegremente em casas romanas se não as tivéssemos deitado abaixo.”

Embora o terramoto de 2016 tenha causado danos – várias igrejas foram fechadas para restauros estruturais e investigações pós-terramoto revelaram que outros edifícios precisavam de trabalho antissísmico – nada foi destruído, como aconteceu noutras cidades da região.

O “tudo” de Ascoli

Durante séculos, as pedreiras de travertino de Ascoli – encontradas em três zonas da cidade – foram uma parte crucial da economia da cidade.

Construtores dos perídos medievais e renascentistas usaram as pedreiras romanas na Via Salaria. Mas, no século XX, abriram pedreiras nas colinas à volta da cidade – particularmente em Colle San Marco, surgindo atrás da cidade na fronteira com Abruzzo. Surgiram cerca de 15 pedreiras no período do pós-guerra.

O pai de Giuliano Giuliani abriu uma em 1952. A sua família estava tão envolvido na sua pedreira que ele gosta de dizer que nasceu nela.

“Eu brincava com pedras quando era pequeno”, diz Giuliani. “Vivo numa casa em travertino e caminho sobre travertino todos os dias.”

A pedreira fechou no fim dos anos 80, juntamente com outras na zona – devido, em parte, à crise económica, em parte às leis ambientais. Mas Giuliani manteve-a.

Hoje, ele é escultor. E, claro, usa travertino nas esculturas – a maior parte dos blocos são da pedreira do seu pai que foram cortados antes de a pedreira fechar. Às vezes, ele compra a pedra das pedreiras que ainda existem em Acquasanta, a oeste de Ascoli. E ele descreve trabalhar com travertino como “uma experiência espiritual”.

“Para mim, é a pedra mais bonita de todas por causa da sua estratificação, da sua história própria, um quadro de ardósia do tempo, das fontes que depositaram a pedra a animais que passaram e deixaram fósseis. É um palco que conta a história de milhares de anos.

“Tal como uma árvore que tem círculos que marcam os anos, no travertino conseguimos contar os séculos, os padrões do tempo e enxurradas.”

Pappetti, que é um fã, diz que Giuliani consegue tornar a pedra “tão suave quanto uma folha de papel”. Isso deve-se à “elasticidade” da pedra, diz o artista. “Quando decidi que tinha de ser artista, escolhi a pedra com que cresci – em parte porque me inspirou, as também por razões técnicas, porque me permite fazer esculturas muito leves”, diz Giuliani.

As suas peças – finas e translúcidas, com a quase impossível qualidade de papel que Papetti menciona – foram exibidas na Bienal de Veneza, A Semana de Design de Milão e a Expo de Itália de 2015. Os seus clientes vão desde Roger Waters, dos Pink Floyd, até ao Vaticano, e, no entanto, os heróis despretensiosos de Giuliani são, diz ele, os homens “incríveis” que extraiam os blocos enormes de pedra na montanha.

A pedreira, ladeada por castanheiras e carvalhos a mais de 700 metros acima da cidade, é o seu estúdio. Ele tem até planos para abrir uma “escola de travertino” onde as pessoas de todos os cantos do mundo podem aprender a trabalhar a pedra.

O que seria Ascoli Piceno sem o seu travertino? “Nada”, diz Giuliani. “O travertino é tudo.”

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