Artistas Unidos estreiam "Europa", sobre um continente "que adormeceu na convicção de que era um sítio justo, em paz e seguro" e acordou com populismos e o crescimento da extrema-direita

Agência Lusa , MJC
16 out, 19:46
Peça "Europa", de David Greig, pelos Artistas Unidos (Foto: DR/Jorge Gonçalves)

Peça de David Greig, com encenação de Pedro Carraca, estará em cena no Teatro São Luiz, em Lisboa

A peça “Europa”, do escocês David Greig, que os Artistas Unidos estreiam na quarta-feira no Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa, tem por cenário uma estação ferroviária abandonada, numa cidade fronteiriça sem nome, onde já não passam comboios. Escrita em 1994, motivada de imediato pela Guerra dos Balcãs, "Europa" foi desde então representada em diferentes palcos e contextos de atualidade, em diferentes lugares da Europa e do mundo, ganhando diferentes perspetivas conforme o tempo. Mas a eclosão da guerra na Ucrânia, com a invasão russa de fevereiro de 2022, as vagas de refugiados e a emergência da extrema-direita repõem a dimensão original da obra e confirmam a sua intemporalidade.

"Europa" retrata afinal "uma Europa cada vez mais atual”, disse o encenador Pedro Carraca à agência Lusa. A peça mostra personagens em movimento, tanto ao nível físico quer emocional, e enquanto uns se agarram a certezas do passado, outros buscam novas experiências e novos futuros.

Este texto do dramaturgo e encenador escocês nascido em 1969 há muito que estava na calha para ser feito pela companhia com sede no Teatro da Politécnica, desde que a leram – e gostaram muito. Na altura, na viragem para os anos 2000, ainda estavam sediados no espaço A Capital, no Bairro Alto. O elenco necessário “era bastante grande”, e os Artistas Unidos acabaram por não pôr a obra em cena, até porque acabou por ficar “um bocado datada”: "A Europa adormeceu numa paz, felizmente”, disse Pedro Carraca.

Peça "Europa", de David Greig, pelos Artistas Unidos (Foto: DR/Jorge Gonçalves)

Com a guerra na Ucrânia, porém, a peça “voltou a fazer sentido”, sublinhou. Com ação centrada numa estação de comboios onde os comboios não passam e num posto que serviu de fronteira, mas que deixou de ter qualquer uso, a cidade em volta acaba também por perder as suas funcionalidades, com o fecho de unidades de produção, relocalizados para lá de outras fronteiras, e com o consequente desemprego para a população local.

Trata-se de uma cidade e uma estação “onde o tempo parou”, disse Pedro Carraca à Lusa, sublinhando que ali “não há nada para fazer”. “Há desemprego, há a promessa de um futuro brilhante que não é alimentado” e há uma estação “onde também chegam refugiados”, descreveu.

Com as frustrações inerentes ao desemprego, os habitantes acabam por arranjar “desculpas e sítios” para descarregarem a frustração, ou seja, “culpados”. Por isso, a localidade acaba também por se tornar “terreno fértil” para a extrema-direita, o abuso de álcool e outros problemas com que as personagens vão incendiando aquela “mini-Europa” ao longo das várias cenas.

Que valores são os nossos, que Europa temos e que Europa queremos? Seguimos os sonhos de ficar onde temos raízes ou aqueles que nos mandam partir em busca da liberdade? As questões com que as personagens se vão confrontando multiplicam-se ao longo da peça e à medida que esta vai retratando as suas vidas.

Peça "Europa", de David Greig, pelos Artistas Unidos (Foto: DR/Jorge Gonçalves)

"Europa", de David Greig, escrita por causa de um conflito determinado, num momento da história, retrata afinal "uma Europa cada vez mais atual”, observou Pedro Carraca. Uma Europa “que adormeceu na convicção de que era um sítio justo, em paz e seguro”, e que de repente se apercebe da existência de situações que não consegue resolver, como “por exemplo o problema dos refugiados que nos vão chegando da Ucrânia ou do Mediterrâneo”, frisou o encenador.

A isto acresce o facto de ser tratar de uma Europa “que achou que era democrática e que, de repente, vê o ressurgimento da extrema-direita” na Hungria, na Polónia ou em Itália, "sem perceber como chegou aí”, sublinhou. Uma Europa “que não está a conseguir dar resposta às pessoas que a compõem”, fazendo com que estas "acabem por procurar respostas noutros sítios, regra geral nos populismos não democráticos, e esse é o grande problema”, concluiu. Fazer este texto no S. Luiz acabou também por ganhar pertinência, por se tratar de uma peça “que merece um palco com maior visibilidade” do que o do Teatro da Politécnica, observou o encenador.

Com tradução de Pedro Marques, “Europa” tem interpretação de Américo Silva, Gonçalo Carvalho, Inês Pereira, Nuno Gonçalo Rodrigues, Paulo Pinto, Pedro Caeiro, Rita Rocha Silva e Simon Frankel. A cenografia e os figurinos são de Rita Lopes Alves, a luz de Pedro Domingos, o som de André Pires e o vídeo de Jorge Cruz.

“Europa” estará em cena na sala Luis Miguel Cintra, do S. Luiz, até 29 de outubro, com sessões de quarta-feira a sábado, às 20:00, e, ao domingo, às 17:30.

No dia 20 e 22, esta produção conjunta dos Artistas Unidos e do S. Luiz terá audiodescrição e, no dia 22, será traduzida em Língua Gestual Portuguesa.

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