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Lobo Xavier diz adeus e lamenta o que Passos fez. Pacheco Pereira acha que o Governo "quer cair". Alexandra Leitão considera que "a coisa é um bocadinho grave" (a "coisa": o caso do IRS)

15 abr, 11:18

António Lobo Xavier participou pela última vez no programa "O Princípio da Incerteza" (já há substituto). A descida de IRS anunciada por Montenegro que afinal é uma descida que vem quase toda do PS e o livro apresentado por Passos Coelho foram dois dos temas em cima da mesa

Alexandra Leitão defende que houve uma ambiguidade propositada na polémica redução do IRS proposta pela AD. No programa Princípio da Incerteza da CNN Portugal, a comentadora considera que o IRS "foi a medida de campanha" anunciada como "o maior choque da campanha", mas agora "já não é bem assim".

"Ouvimos dizer que o IRS era o maior choque na campanha. E isso parece relativamente pouco compatível, para não dizer até incompatível, com aquilo que agora nós temos em cima da mesa, que basicamente é isto, da redução fiscal em sede de IRS que vai haver em 2024, cerca de 90% é uma redução que vem do orçamento do Governo PS e que entrou em vigor a 1 de janeiro. E cerca de 10%, os tais 200 milhões de euros, correspondem a uma medida adotada agora, ou que vai ser apresentada ao Parlamento por estes dias. E isso é dificilmente compatível com a tal grande diferença."

Alexandra Leitão diz que nunca usou o termo "mentira". "Mas falo em grande aproveitamento de uma ambiguidade que a meu ver foi propositada", acrescentou, dizendo ainda que é neste ponto que "a coisa é um bocadinho mais grave porque há uma ambiguidade propositada". A comentadora diz ainda que as declarações do ministro da Presidência, António Leitão Amaro, deixam claras "quais são as prioridades da AD quando comparamos a redução de IRC com a de IRS.

Falsidade = descrédito

Também Pacheco Pereira fala numa sugestão de falsidade que contribui para o descrédito da vida política, lembrando, no entanto, que "a sugestão de falsidade não é apenas da AD", umas vez que "os outros partidos também, praticamente todos, usaram esse mecanismo".

"Mas isso faz com que haja um cada vez maior descrédito da vida política. (...) A uma dada altura, não sei se essa decisão já está tomada, a uma dada altura esse governo vai seguir uma política de 'eu quero fazer isto, eu fui eleito para fazer isto, independentemente de qualquer negociação, é isto que eu vou fazer'. Isso significa que cai a relativo curto prazo e significa que também quer cair, portanto, estas duas coisas. Ou vai estar num permanente ciclo de negociações, o que significa que a ingovernabilidade vai ser grande", afirma, acrescentando não ter "muita esperança de que um Governo com esta enorme fragilidade não tenha nenhuma saída numa sistemática negociação com a oposição", até porque "o único parceiro estável para este Governo é o Chega".

Já António Lobo Xavier, que participou pela última vez no programa (é substituído por Miguel Macedo a partir do próximo domingo), considera que a forma como foi comunicada a proposta revela precipitação, falta de preparação e rigor. Garantindo ter percebido as contas "desde o princípio" e que a "grande baixa dos impostos" foi falada várias vezes e por vários partidos, como o PSD, a Iniciativa Liberal e até o PS. 

"Os sinais dados durante a campanha foram sempre os sinais de que era ele próprio [PSD] que entregava ao eleitorado português e aos portugueses uma redução de 1500 milhões de euros. O Carlos repare - eu digo-lhe assim, ó Carlos, asseguro-lhe que este mês é uma promessa solene, este mês o Carlos vai ter 1000 euros, sou eu que lhe asseguro. Chegada a altura, o Carlos vê que tem 800 do seu salário e 200 meus. Obviamente o Carlos fica espantado. Não é forma de comunicar em política. Não é forma de fazer uma proclamação política, uma afirmação política, supostamente, com muito significado. Dizer 'eu vou assegurar uma redução de 1500 milhões, sendo que 1300 foi aquilo que já foi assegurado pelos outros, by the way, aqueles que eu derrotei nas eleições'. Não é forma de comunicar. Eu não chamo isto mentira por uma razão que eu lhe passo a explicar - mas claro que é uma sugestão falsa, ambígua", afirmou, acrescentando que, neste caso, "não se percebe o móbil".

Dizendo ainda que "a mentira ou a ambiguidade estava destinada a durar segundos, horas, dias no máximo", o comentador diz que não entende "qual é a vantagem política que se retira de uma ambiguidade ou de uma sugestão errada que rapidamente pode ser desmentida, mostrada e denunciada. "Atribuo esta forma de comunicar ambígua - equívoca, se quiser - a falta de preparação, descuido, precipitação, falta de rigor. Não me parece que seja uma mentira. De qualquer maneira é negativo, é um começo negativo. Quando o Governo até esteve, em geral, bem na discussão do Programa de Governo. Esta atrapalhada é uma coisa evitável e não tinha vantagem nenhuma duradoura."

Passos Coelho - que "deslealdade"

A apresentação feita por Passos Coelho do livro "Identidade e Família" - no qual "se revê em muitas das perspetivas apresentadas" - também foi tema do programa. Questionado sobre o que acha que pretende Passos Coelho, Lobo Xavier considera que a posição do ex-primeiro-ministro foi "uma deslealdade".

"Quer dizer, os partidos, dentro dos partidos, mesmo os antigos presidentes, não têm todos de estar sempre de acordo uns com os outros, nem com a linha contemporânea do partido. Agora, estando o seu colega de partido, que o serviu, no sentido político, durante os tempos da troika, a discutir o programa do Governo na Assembleia da República, a espetar-lhe uma bandeira, tão curta e tão cruel, destruindo ou agravando a base geral política do PSD e de Luís Montenegro, foi uma grande surpresa. Foi uma coisa lamentável, um gesto do ponto de vista da lealdade política mínima em Portugal, que os presidentes do PSD têm em geral. E os presidentes até do PS também têm. E, em geral, dos partidos democráticos. Uma coisa lamentável. Goste-se ou não se goste da ideia, goste-se ou não se goste do chefe, é uma deslealdade como eu tenho visto pouco em Portugal, felizmente."

Por sua vez, Pacheco Pereira diz que que Passos Coelho, que "tem feito várias declarações em relação ao Chega, que têm todas o mesmo sentido", optou por usar a apresentação do livro para repetir as mesmas declarações "naquele contexto e naquela circunstância".

"Há esse aspeto de deslealdade, mas também há outro aspeto que é o Chega querer que ele seja candidato a Presidente da República. E há pessoas no PSD, certamente, que o desejam como candidato. Quer dizer, a ideia de que o D. Sebastião, da ala mais radical da direita portuguesa, é Pedro Passos Coelho, só tem uma vantagem política - se ele concorrer às eleições, perde e perde muito significativamente, seja qual for o candidato do outro lado", nota.

Já Alexandra Leitão considera, tal como Pacheco Pereira, que o livro em questão é "reacionário" e "antiprogressista" e que é uma "tentativa de construção dogmática ou científica, de uma base a partir da qual depois faz aparecer várias implicações ao nível de projetos de lei como este, dona de casa, que não faz sentido nenhum, mas a projetos de lei ao nível do recuo, do retrocesso na interrupção voluntária da gravidez".

 

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