Belém "nunca", Europa "talvez": entrevista com o secretário-geral do PS, António Costa, que afirma "ter pena" de tudo o que está relacionado com o caso Sócrates

Beatriz Jalón , com João Guerreiro Rodrigues
18 abr 2023, 22:30

O Partido Socialista faz 50 anos e a CNN conversou com António Costa. O secretário-geral do PS recordou o percurso no PS, onde é militante há 47 anos. Não ignorou os maus momentos do passado mas afasta velhos fantasmas.

Costa diz que nunca será candidato a Belém, mas não fechas as portas à Europa. Mas só depois do fim do mandato.

A detenção de Paulo Pedroso no processo Casa Pia, a polémica com José Sócrates e o futuro político são alguns dos assuntos em destaque nesta conversa.

Costa sobre caso Sócrates: “Tenho pena. É horrível nunca mais chegar a um apuramento da verdade”

António Costa: Eu percebo que ele não compreenda que o PS e eu próprio tínhamos tido de fazer uma separação entre aquilo que era a solidariedade pessoal e o que era a questão política. E eu respeito essa decisão.

Beatriz Jalón: Tem pena?

AC: Tenho pena de tudo. Porque toda a história é horrível. É horrível nunca mais chegar a um apuramento final da verdade através de um julgamento a que toda a gente tem direito e que deve ser realizado.

Seja qual seja a decisão, deve ser respeitada. Também tenho pena que ele não tenha compreendido a necessidade de haver uma separação clara entre o que era a atividade política e a questão pessoal dele. Mas isso há que respeitar.

Paulo Pedroso, as escutas e a dúvida no sistema de justiça

Esse foi um acidente de percurso ou mudou a sua forma de ver a separação de poderes judicial e político?

Eu diria que talvez deve ser um momento muito semelhante àqueles que os católicos vivem quando de repente têm dúvidas. Acho que superei bem essas minhas dúvidas com uma grande firmeza nos princípios quanto ao sistema de justiça. É que nunca houve uma tentativa de condicionamento da justiça.

A única coisa que o PS tentou fazer por meu intermédio, foi garantir que o doutor Paulo Pedroso se apresentaria a ele próprio e por sua própria iniciativa para submeter a interrogatório como arguido sem haver toda aquela encenação de uma notificação na Assembleia da República acompanhada em direto pela televisão, etc. Foi isso que se procurou garantir.

Belém e Europa: um “nunca” e um “talvez”

Eu digo mesmo nunca. Quando digo nunca, em regra, é nunca.

Nunca Belém?

Nunca, nunca.

Nunca à Europa?

Não, quer dizer. Uma coisa que já disse é que obviamente até ao final desta legislatura não tenho disponibilidade para qualquer função europeia.

Até ao fim da legislatura é para cumprir com aquilo que disse aos portugueses e ao Presidente da República, a sua promessa, ou também porque poderá haver um cargo para a Europa de um adversário de peso como Pedro Sanchez?

Não, há uma outra razão fundamental, que é para cumprir comigo próprio.  Os calendários políticos foram como foram e, portanto, eu assumi um compromisso com o país até outubro de 2026.

Sobre André Ventura: “Não é líder da oposição quem quer”

Qual é a característica que mais o incomoda num político?

A mim irrita muito a agressividade.  Não acho que ajude à vida política.  Irrita muito o “papagaísmo”, aquela repetição.

Há uma coisa que me enerva muito na política que é as pessoas não perceberem que a função essencial dos políticos é resolver problemas e não repetirem que há problemas. E há pessoas que vivem a vida toda só a dizer que há problemas. 

Quem se intitula líder da oposição é André Ventura. Qual é…

Não é líder da oposição quem quer. Não se é líder da oposição só porque se consegue mais soundbites na televisão.  Às vezes até acham que eu sou tolerante com André Ventura.  Não é uma questão de ser tolerante com o André Ventura.  Eu acho que é preciso ser muito clara a demarcação com André Ventura.

E começar a querer imitar o estilo ou deixar-nos condicionar com o estilo ou pensar sobre a política criminal ou sobre a política de imigração em função do que é que pensa o André Ventura é uma tragédia.

E Cavaco Silva… “o mais profissional de todos os políticos”

Como cidadão nunca deixarei de ser ativo.  O que vou fazer não faço ideia.  Não vou seguramente andar a perturbar e opinar o que é que os outros devem fazer porque acho que isso cada um tem o seu tempo. 

Por exemplo, como o professor Cavaco Silva.

Não quero comparar-me, tem um percurso completamente diferente do meu, que eu nunca terei.  Foi dez anos primeiro-ministro, dez anos Presidente da República. Ele não gosta de dizer que é político, mas é mesmo o mais profissional de todos os políticos.

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