opinião
Colunista e comentador

O jantarinho envenenado (à boleia de Schmidt) não vale o guardanapo

26 mai, 22:51
Roger Schmidt no Benfica Campus (Benfica)

Rui Santos escreve sobre o convite feito pelo Benfica a comentadores e jornalistas, com o pretexto-Schmidt: não há ingenuidade em nenhum dos lados

Uma vez fui convidado para uma reunião de quadros do Grupo Benfica e recusei.

Uma outra vez fui convidado para um congresso do Sporting e também recusei, como aliás o fiz num convite dirigido por BRUNO DE CARVALHO, quando o caldo estava a ferver em Alvalade.

Pertenço a uma geração em que havia mínimas bases de confiança e de relação entre jornalistas (a televisão ainda não tinha o peso que tem hoje e a institucionalização da cartilharia não era sequer alguma coisa considerada) e agentes desportivos.

Houve um tempo em que jornalistas ficavam nos hotéis das comitivas e a primeira vez que a FPF tentou bloquear o acesso à informação sobre os alojamentos onde iria ficar uma das Seleções Nacionais, num país distante, apresentei-me lá - perante a estupefacção de todos -- de armas e bagagens.

O serviço foi feito, com toda a naturalidade, e o sinal ficou dado.

Hoje era impossível.

Nessas digressões há coisas que -- manda o bom-senso -- devem ficar reservadas, sobretudo quando são do foro pessoal, e quando estava no terreno sempre entendi as fronteiras assim, e tentei passar isso aos mais novos, quando estes estão dispostos e interessados a ouvir, o que vai sendo cada vez mais raro.

Sinal dos tempos, e não vale a plena fazer um drama com isso.

Há coisas que se vão perdendo no tempo e, quando os homens e os profissionais não percebem o logro em que se encontram, depois é tarde de mais.

Aprendi que é muito difícil manter uma base de respeito e de diálogo sério, sobretudo a partir do momento em que os clubes criaram gabinetes de comunicação e neles também se anicharam ex-jornalistas que, não estando em causa o que passaram a ganhar para melhorar a qualidade de vida, se submetem a todo o tipo de automutilações, nalguns casos com adquirido prazer.

É triste, pode dizer-se que é a vida, mas não deixa de ser triste.

Isto a propósito do facto de o Benfica ter convidado um conjunto de jornalistas e comentadores para um jantarinho de apresentação, com ROGER SCHMIDT.

O convite não foi público e partiu de um critério definido pelo Benfica. Houve quem tivesse aceitado, como já é público, e houve, presumo eu, quem não tivesse aceitado.

Num país normal e num futebol normal, este tipo de convites até poderiam ser enquadrados numa perspectiva positiva, porque "boa informação" - sem negociatas ou compadrios pelo meio -- poderiam ajudar a enquadrar os factos e também a produzir "boa opinião”.

Por que razão a iniciativa não foi tornada pública? Qual o motivo por que não se fez tudo com a máxima transparência? A escolha dos convivas teve a ver com o seu próprio perfil? Quais os critérios que estiveram na base dos convites? Simpatia, competência, benfiquismo, graus de permissividade?

Por que razão se mostraram quadros de direcção com gente avulsa? Quais os objectivos? Ter em cada órgão de comunicação quem passe, através do que viu, sensações positivas?…

Os pressupostos estão, todavia, todos errados e estamos também todos cansados de saber que não há sinceridade nem inocência nestes convites e encontros.

Acredito, aliás, que alguns dos comensais presentes tenham entrado nesta “operação de charme” sem pensar muito bem no tema, ou não verem nenhuma questão negativa associada a uma presença deste tipo, mas outros foram porque sim, entre meros comentadores (não jornalistas), jornalistas e, entre estes, até membros de direcções de jornais.

Perder agora a memória do processo que colocou CARLOS JANELA no olho do furacão, institucionalizando o regime das cartilhas para um conjunto de comentadores ou jornalistas, o que na altura comprometeu a imagem de uns quantos profissionais da imprensa, parece-me altamente perigoso.

Estávamos em 2017 e lembro-me de ter sido muito crítico em relação ao tema, o que deixou muita gente incomodada, inclusive profissionais que voltaram a marcar presença neste jantar.

Os clubes de futebol fazem os possíveis para exercer o seu controlo sobre quem decide ou apenas sobre quem tem opinião.

É um engodo.

É uma armadilha.

É uma tentativa de captura.

Mas é também estranho que, conhecendo o histórico destas situações, haja quem embarque nestes comboios.

Há muito que se convencionou que, neste mundo, não há almoços nem jantares grátis e meia-hora de protagonismo não vale o guardanapo, sobretudo quando todos sabem que houve promessas, na Luz, de uma mudança radical no sector da comunicação.

Quem é amigo de quem para levar com o guardanapo?

Há um outro lado da questão que tem a ver com o aproveitamento feito da sessão.

O tema já está a ser comentado nas diversas estações de televisão e promete mais desenvolvimentos, porque é quente e já envolveu a comunicação do FC Porto, que colocou alguma informação (sem os rigores que exige aos outros) sobre o encontro na praça pública, através de FRANCISCO J. MARQUES, que já fez pior comunicacionalmente  pela imagem do FC Porto, com custos de reputação difíceis de reparar, do que alguns dos mais radicais críticos do Benfica e do Sporting em relação a questões políticas, chamemos-lhe assim, relacionadas com o clube do Dragão.

Não se aprende com os erros.

Muito preocupante mesmo.

A próxima época vai ser de gritos.

Onde é que isto vai parar?

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