Vikings civilizados, organizados e com fome de vitórias

13 jun 2016, 10:39
Islândia (LUSA)

Análise à Islândia, primeiro adversário de Portugal no Campeonato da Europa.

*Enviado especial ao Euro 2016

A Islândia é o primeiro adversário de Portugal no Campeonato da Europa. Em estreia numa fase final, os nórdicos colhem finalmente os frutos de um investimento profundo que começou há cerca de 20 anos e depois de terem ficado à porta do apuramento para o último Campeonato do Mundo, perdendo no play-off frente à Croácia.

Há quatro anos, a seleção islandesa era apenas 131ª no ranking FIFA. Desde então, já foi 28ª em 2015, mas os resultados recentes nos jogos particulares fizeram com que tombasse alguns degraus, tendo ficado fora do top-30 à entrada para o Euro-2016 (na tabela de junho é 34ª).

A evolução não chegará para lutar tão cedo pela glória em França, mas promete dar muito trabalho aos adversários, Portugal incluído.

Lars Lagerback, que levou a Suécia a cinco fases finais consecutivas, assentou a seleção viking num 4x4x2 de linhas bem simétricas, com a defensiva a saber variar a profundidade consoante a estratégia, a fim de reduzir o espaço de construção do adversário. No meio-campo, não há quem não seja solidário, incluindo o talentoso Gylfi Sigurdsson, com os dois homens da frente a deixar-se ficar para trás para criarem referências para contra-ataques.

Sigthórsson marcou três golos na fase de qualificação.

Futebol direto sim, por estratégia

A Islândia não tem qualquer problema em ter a bola, mas privilegia um jogo mais direto, colocando-a inúmeras vezes por alto para a frente, onde os avançados – sobretudo Sigthórsson – lutam por ela, causando desequilíbrios direta ou indiretamente aos rivais. As transições rápidas também são arma importante.

Cantos, livres e até lançamentos laterais do meio do meio-campo são todas boas oportunidades para chegar perto da baliza adversária. As bolas paradas têm obviamente grande peso nos golos: nove contra oito de bola corrida, e um na sequência de um lançamento lateral de Gunnarsson, especialista em colocar longo com as mãos.

O lateral-esquerdo Skúlason tem tantas assistências quantas Sigurdsson (2), graças a um pé esquerdo que consegue bombear comprido para os avançados. Foi ele quem criou o 3-0 frente à Turquia num passe fantástico para Sigthórsson e o 1-1 na República Checa ao colocar na área para a finalização de cabeça do capitão Gunnarsson.

Tem sido fundamental para o sucesso a confiança que a equipa vive, e a dupla cerebral do meio-campo formada por Gunnarsson e Sigurdsson, este último o mais criativo entre os vikings.

Uma defesa experiente e que não complica, dois alas-invertidos – um médio direito canhoto a fazer de atirador-furtivo (Gudmundsson), um destro na esquerda com força para carregar a bola muitos metros (Birkir Bjarnason) – e uma dupla atacante que se complementa, com Bödvarsson mais móvel e técnico e mais eficaz a levar a bola em contra-ataque, e Sigthórsson mais fixo e disponível fisicamente são as outras características a sublinhar na equipa de Lagerback.

No banco, nomes como o lateral mais ofensivo Elmar Bjarnason (em comparação com o central-adaptado Saevardsson, que ganhou o lugar após os primeiros jogos), o talentoso e experiente Hallfredsson, também perigoso na marcação de livres, e o ponta de lança fiável Finnbogason estão disponíveis a entrar no onze ou no jogo a qualquer altura. A verdade é que depois não há muitas mais opções, e isso poderá ser problemático numa fase final. Mesmo Gudjohnsen, com 37 anos, já para pouco contou na qualificação (134 minutos, apenas um jogo a titular).

EQUIPA-TIPO: Hannes Halldórsson (31 anos, Bodo Glimt/NOR); Birkir Saevarsson (31 anos, Hammarby/SUE), Kári Árnason (33 anos, Malmö/SUE), Ragnar Sigurdsson (29 anos, FK Krasnodar/RUS) e Ari Skúlason (28 anos, Odense/DIN); Johann Gudmundsson (25 anos, Charlton, ING), Gylfi Sigurdsson (26 anos, Swansea/ING), Aron Gunnarsson (26 anos, Cardiff, ING) e Birkir Bjarnason (27 anos, Basileia/SUI); Jon Dadi Bövardsson (23 anos, Kaiserslautern/ALE) e Kolbeinn Sigthórsson (26 anos, Nantes/FRA)

GOLOS (17-6 na fase de apuramento):

Golos marcados: 17
Gylfi Sigurdsson, 6 (2 de penálti); Sigthórsson, 3; Birkir Bjarnason e Gunnarsson, 2; Bödvarsson, Gíslason, Ragnar Sigurdsson e Gudjohnsen

Nove golos de bola parada (4 cantos, 2 livres indiretos, 2 penáltis e 1 lançamento lateral) e oito de bola corrida

Golos sofridos: 6
Guarda-redes: Halldórsson, -5; Kristinsson, -1

-2 bola parada (1 livre direto e 1 livre indireto), -4 de bola corrida (1 autogolo, 1 remate de fora da área, 2 remates na grande área)

ASSISTÊNCIAS: Gylfi Sigurdsson e Ari Skúlason, 2; Gunnarsson, Hallfredsson, Birkir Bjarnason, Gudmundsson e Finnbogason, 1

A Holanda foi uma das vítimas dos islandeses no apuramento para o Euro 2016.

EM PORMENOR: 

A DEFENDER:

PRESSING - A Islândia não é uma equipa de pressão alta, e a sua linha defensiva controla bem a profundidade, diminuindo por vezes o espaço à sua frente. Os avançados acompanham a transição ofensiva de forma posicional sem grande desgaste e, quando ultrapassados e enquanto a equipa estiver equilibrada, deixam-se ficar para trás. Assim, não só garantem que não existe um sufoco por parte do rival, fixando os defesas contrários, mas também tornam-se referências para contra-ataques rápidos. Pivots, se necessário.

Um 4x4x2 bem definido, aqui com a defesa alta e uma pressão baixa a moderada.

Sigthórsson recua por vezes, sorrateiramente, alguns metros quando um adversário com bola se aproxima da sua zona (e existem companheiros a pressionar perto) para fazer valer a superioridade numérica e surpreender o rival, roubando-lhe a bola pelas costas.

Posicionamento de Sigthórsson, que, recuando, tenta encurralar o portador da bola. 

A Islândia permite o aparecimento de jogadores entre linhas, mas assim que isso acontece cai em cima da bola, tentando a contenção ou mesmo forçar o erro, e baixando ainda praticamente todos os elementos do meio-campo.

Controlo da largura dado pelos médios-ala Hallfredsson à direita (jogador de azul mais acima na imagem) e Bjarnason (o mais abaixo). Quando a bola entrar aqui à direita, os islandeses vão movimentar as oito unidades, mais o guarda-redes, para tapar os caminhos para o golo.
Mais um posicionamento com as oito unidades em missão defensiva, e os dois avançados fora do plano, a deixarem-se ficar para servirem de referência nas transições e impedirem o sufoco por parte do adversário, usando também os seus defesas em situação mais alta.

Nos contra-ataques, a reação à perda costuma ser rápida, focando-se na bola, a fim de torná-los mais lentos.

A tendência para baixar linhas muito rápido, cria espaços na zona frontal à entrada da área (golo da República Checa em Reikjavik), ou mesmo na zona de penálti (explorado pela Letónia, no empate a dois golos).

BOLAS PARADAS – Marcação à zona, Sigthórsson recua para a área para ajudar, isolando Bovardsson, com melhor capacidade para a condução da mesma, na frente.

Nos particulares pós-qualificação notou-se alguma fragilidade nas bolas paradas defensivas, mas poderá estar relacionado com as experiências feitas.

A ATACAR:

CONSTRUÇÃO - Quando pressionada, a Islândia sai longo pelos centrais, sobretudo Arnason, ou pelos laterais (por ambos desde que joga Saevarsson na direita), tentando colocar a bola nos avançados para que estes possam discutir a bola pelo ar.

Com dois médios com bom passe como Gunnarsson e Sigurdsson, estes por vezes recuam para pegar no jogo a partir da linha defensiva.

Sem pressão, a versátil Islândia pode sair curto, tentando que a bola chegue a Gylfi Sigurdsson em zonas centrais, onde tenta o passe de rotura ou o remate; aos pontas de lança que combinam entre si ou seguram para o aparecimento de um dos quatro médios; ou aos médios exteriores, que podem cruzar largo ou fletir para o meio e tentar o remate (sobretudo os esquerdinos Gudmundsson e Hallfredsson, com este último a perder espaço durante a campanha para França).

Mesmo com espaço, os passes longos e a disponibilidade dos avançados são encarados como arma e não como recurso (ver origem do penálti criado na Holanda).

O penálti conquistado na Holanda. Momento 1: pontapé longo de Saevarsson.
Sigthórsson recebe a bola longa na área, e serve Bjarnason, que faz a diagonal da esquerda para o meio.
Bjarnason é derrubado por Van der Wiel. Gylfi Sigurdsson converte o penálti que garante triunfo por 1-0.

Nas bolas paradas, a Islândia é perigosa sobretudo pelos estragos que faz na luta pela posse de bola, já que disputam todas. Muitas vezes, esta sobra para zonas frontais, onde aparece Sigurdsson ou um companheiro a rematar para a baliza (exemplo: o 2-0 à Holanda, em Reykjavik).

Gunnarsson e também Saevarsson fazem lançamentos laterais longos de qualquer posição, até do meio de meio-campo, para a área, tentando aproveitar a disponibilidade física dos avançados para lutar pela bola no ar.

As transições rápidas são feitas muitas vezes em bloco. Como os dois avançados ficam para trás a certo momento do processo defensivo, isso permite ter rapidamente quatro, cinco unidades em situações de contra-ataque. Geralmente, surgem também os dois alas e um dos médios-centro.

Transição rápida pela esquerda.
Saída em velocidade pela direita.

PONTOS FORTES:

Coesão, concentração, solidariedade e capacidade de luta e sofrimento.

É paciente sem bola.

Bjarnason e Gudmundsson cooperam nas missões defensivas, tornando a linha defensiva ainda mais coesa quando a bola está num dos flancos.

Frieza da defesa e do meio-campo mesmo em ambientes adversos.

Equipa adulta.

PONTOS FRACOS:

Grupo curto. Apenas 16 jogadores foram titulares em toda a fase de qualificação e destes três apenas por uma vez, incluindo o guarda-redes Kristinsson, o veterano Eidur Gudjohsen e Finnbogason, o maior competidor por um lugar com Sigthórsson e Bodvarsson. Tudo somado, 13 jogadores apenas com consistência de início entre 19 utilizados. Mesmo assim, Lagerback decidiu levar apenas 16 desses 19, ou seja seguiram sete para França sem terem sido efectivos na qualificação.

Torna-se instável com muitas mudanças, como aconteceu nos jogos particulares, em que cometeu demasiados erros e alguns infantis, que originaram desaires: 2-4 frente à Polónia (golos: remate traiçoeiro ao primeiro poste; duas jogadas em que a defesa não conseguiu tirar da frente da baliza; e um remate cruzado na passada), 1-3 frente à Eslováquia (golos: erro de Kristinsson, que chega tarde a uma dividida; e dois remates de fora da área), 2-3 frente aos Estados Unidos (dois dos três golos sofridos pelo ar) e 1-2 frente à Dinamarca (dois golos consentidos em contra-ataque).

Pouca capacidade de desequilíbrio nos flancos – Birkir Bjarnason tem dificuldades no drible –, que parecem ser mais locais de partida para outros posicionamentos, mais interiores. O cruzamento é usado mais ao largo do que a partir da linha final, em bola corrida.

Hallfredsson, talvez o mais virtuoso dos alas, perdeu espaço no onze. É o suplente natural quando não está Gunnarsson ou Sigurdsson, no miolo.

Como baixa muito as linhas e pressiona muito a bola, a Islândia descura espaços frontais à sua baliza.

Os islandeses têm tendência para baixar demasiado as linhas, descurando espaços frontais à sua baliza, sobretudo quando o adversário aborda as jogadas pelos flancos. 
Outro exemplo da mesma situação, agora no encontro frente à Turquia. 

O guarda-redes Halldórsson parece não ser muito seguro, revelando dificuldades em controlar remates de longe.

 

 

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