Como a covid-19 afeta a sexualidade: três casos e um problema de libido

8 fev, 21:18
Laila Nunez:  "Tinha muita vontade de o ver, mas não dava e a libido foi a baixo", conta a jovem de 25 anos à CNN Portugal

Nem a sexualidade escapou aos efeitos da pandemia, que levaram várias pessoas a questionar os seus limites e os do próprio corpo. Como resistir à perda do desejo? Três jovens e uma especialista explicaram à CNN Portugal.

João Malafaia estava apaixonado quando a pandemia trancou o mundo em casa. A covid-19 bateu-lhe duas vezes à sua porta, mas da primeira, em janeiro de 2021, "atacou mesmo a sério", o que trouxe alguns problemas à sua vida íntima.

"Queríamos experimentar alguns lubrificantes e nem conseguia sentir o sabor", confessa o jovem de 26 anos. Durante quatro meses, João Malafaia manifestou dificuldade em respirar, comer, tomar banho e até na atividade sexual "tinha de parar em certas posições porque exigiam mais força na zona abdominal e no tórax".

"Tive os sintomas todos: dores musculares, dores de cabeça, febre", a reboque veio o cansaço e os problemas no trato respiratório, efeitos que, para alguém que tinha iniciado uma relação amorosa, trouxe alguns problemas à intimidade do casal. "Fiquei cerca de três meses sem paladar nem olfato", descreve à CNN Portugal.

João Malafaia acredita que estes fatores acabaram por influenciar a sua performance sexual, até porque "não conseguia usufruir dos sentidos que a outra pessoa tinha". "Não havia nada a fazer. O médico dizia que era normal, então deixei a coisa andar", explica, admitindo ainda que testou técnicas caseiras como colocar um limão na boca ou inalar aromas azedos para ver se despertava o paladar e o olfato. Sabia que aquela seria a sua realidade até regressar ao normal. Já durante o ato sexual pedia para parar se tivesse de o fazer. "Tivemos de nos adaptar e, em vez de andarmos em quinta, andávamos em segunda ou terceira", graceja, numa comparação com as mudanças de um automóvel. 

João Malafaia, 26 anos, relata que a covid-19 afetou a sua vida sexual. Foto: DR

 

Os que vivem juntos, os que moram em casas separadas e os outros

"É natural que inicialmente se possa sentir cansaço e falta de ar quando uma atividade implica esforço físico, nomeadamente o sexo", começa por esclarecer Maria do Céu Santo, ginecologista e obstetra. "Podem sempre começar com beijinhos e carícias” – os chamados preliminares -, recomenda. “Depois vão adaptando."

A especialista em sexologia clínica diz que "existem alguns cenários diferentes” e que estes fazem toda a diferença. E enumera: "Os casais que coabitam, com ou sem filhos; os casais que vivem separados; e aqueles que não se encontram numa relação". Sobre o primeiro, analisa que, na maior parte dos casos, a libido aumentou no início da pandemia. "Estavam em casa e nunca tinham estado tanto tempo juntos", o que, entretanto, acabou por ter um efeito inverso com o passar do tempo em confinamento. "Começaram a surgir os conflitos e os defeitos que anteriormente não se conheciam por falta de tempo", somando outro grande fator: "o stress". E quando uma das partes fica infetada? A resposta é clara: "Sexo não pode acontecer". Por outro lado, diz que o desejo aumenta durante o período de distância e quando este acaba "ficam imparáveis". 

De acordo com a médica, pessoas que viviam sozinhas também decidiram partilhar o mesmo tecto com um novo parceiro ou parceira. "Sentiam-se isoladas, socializavam pouco, voltaram a namorar e agora têm relações fantásticas", conta, explicando que tal se deve a uma maior tolerância e menor exigência. Serve-se ainda do exemplo das "amizades coloridas" que fortaleceram a relação através do teletrabalho em conjunto. 

Uma questão de libido

Ela brasileira, ele sueco, Laila Nunez e o namorado planeavam encontrar-se em Lisboa em abril mas a pandemia separou o casal durante meio ano. "Tinha muita vontade de o ver mas não dava e a libido foi abaixo", conta a jovem de 25 anos à CNN Portugal. O momento do reencontro foi "a busca pelo tempo perdido" mas não deixou de ser um choque. "Passámos de uma completa ausência para estarmos juntos todos os dias", descreve. Com o passar do tempo, Laila percebeu que, apesar de o toque "envolver um certo mistério", também "prescinde de uma certa distância" e, quando a convivência é constante, "não há como escapar, é como uma lei". A atividade sexual, que acontecia três a quatro vezes por semana, reduziu-se consideravelmente. 

Certo é que a relação resistiu ao confinamento. Como? Primeiro "com muita conversa e menos cobrança". "Percebi que também precisava de um carinho, de ser mimada, e falei abertamente sobre isso.". Segundo: mudaram-se de um apartamento pequeno para um duplex, onde cada um tem direito a usufruir do seu espaço. "Antes, se quisesse fugir, tinha de me trancar na casa de banho."

Em Coimbra, Beatriz - cujo apelido prefere manter em anonimato - conta a sua história, que parece não ter fim à vista. A pandemia forçou um afastamento do namorado com quem vivia para regressar a casa dos pais, a única opção face às despesas que não paravam de chegar. "Afetou a nossa conjugalidade", lamenta. Com efeito, a ansiedade emergiu e a libido desapareceu. Durante um ano e meio distanciados, nem o sexting ajudou, a vontade escasseava. "Não era normal porque não havia qualquer problema na relação." Achando que a situação não iria piorar, eis que descobriu as dores da penetração. "Foi dramático. Usava um copo menstrual e até isso deixei de usar." Mesmo depois de consultar um médico, o problema prevalece, ainda que menos acentuado. "Aprendi a gerir a minha ansiedade e a perceber que não há pressão nenhuma", explica. "Claro que quero estar com ele. Tenho de pensar que o sexo acontece, mas não é obrigatório."

"Fazer amor não deve ser a última opção ao fim do dia, quando já não há energia", defende Maria do Céu Santo. "As pessoas estão mais tempo em casa de pijama e a excitação diminui numa altura em que o orgasmo até devia ser melhor porque há mais disponibilidade."

Maria do Céu Santo: "Podem sempre começar com beijinhos e carícias” – os chamados preliminares -, recomenda. “Depois vão adaptando" Foto: António Pedro Santos/ CNN Portugal

 

A ginecologista reforça a necessidade do espaço entre casais que vivem juntos. "Cada um deve sair, andar a pé, isolar-se, mas também investir em tempo de qualidade a dois." O exercício, uma massagem ou um jantar são algumas opções da médica, que lembra ainda a importância das "carícias e festinhas" e de atividades que promovam "adrenalina", como andar de bicicleta ou até fazer um passeio de balão. Enfim, "criatividade". 

Contudo, Maria do Céu Santo conclui que "ninguém é obrigado a ter relações sexuais e uma pessoa pode sentir-se bem dessa forma". "Se, e quando, quiserem podem fazer um casting alargado, o sexo é gratuito", graceja.

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