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"A árvore e a floresta são confundidas". Américo Aguiar defende "esmagadora maioria dos padres" mas critica quem se esconde atrás de um "biombo" perante os abusos sexuais na Igreja

3 jun 2023, 14:30

Bispo auxiliar de Lisboa admite "perplexidade e sofrimento" com a atuação de alguns responsáveis da Igreja. Declarações numa entrevista exclusiva em que também falou da Jornada Mundial da Juventude, desde a polémica à dimensão e importância do evento

"Qualquer  pessoa que tem conhecimento de uma situação destas [abusos sexuais sobre menores] e encobre deve sofrer as consequências do seu ato, não tenho dúvidas". Quem o diz é o bispo auxiliar de Lisboa, Américo Aguiar, que pede à sociedade que não veja a árvore, mas sim a floresta. Em entrevista à CNN Portugal (do mesmo grupo da TVI) o clérigo garante não ter dúvidas da idoneidade daqueles que estão à frente do Episcopado, deixando mesmo uma comparação com a política.

"A árvore e a floresta são rapidamente confundidas, como noutras áreas", afirma o antigo autarca de Matosinhos, lembrando que na política também se generalizam comportamentos. Por isso mesmo, o bispo auxiliar de Lisboa não tem dúvidas: "Pelos meus irmãos no Episcopado, até hoje, em relação a nenhum tenho qualquer informação ou dúvida que, por ventura, tenham sido ativamente encobridores de qualquer situação de abuso de menores".

Américo Aguiar diz mesmo que "a esmagadora maioria dos padres do país merece o nosso respeito e homenagem". Apesar disso, e questionado sobre a atuação e a reação da Igreja Católica após a divulgação do relatório da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica, que validou 512 testemunhos relativos a uma estimativa de 4.815 vítimas de abuso sexual de menores, o bispo auxiliar reconhece que "alguns momentos não correram bem, alguns foram infelizes".

"No fim vai acabar tudo bem, o caminho que é feito às vezes tem alguns trambolhões", acrescenta, dizendo que "a dor não prescreve, e qualquer homem ou mulher, adolescente ou criança, que viveu um acontecimento destes, a dor não prescreve".

Américo Aguiar aproveita ainda para voltar a criticar a postura de algumas figuras da Igreja e admitir "perplexidade e sofrimento" quando "alguém se quer por atrás de um biombo que diz Código de Direito Canónico, legislação, prescrição ou pareceres legais e jurídicos".

"Cada vítima merece da nossa parte que esse biombo seja retirado e que o problema, a dor e a vivência tenham prioridade", reitera, defendendo um critério "evangélico" sobre os casos.

Em cima da mesa está a criação de um memorial às vítimas de abuso sexual no seio da Igreja Católica. Américo Aguiar admite que vai "sabendo" de algumas informações, não revelando se esse memorial vai mesmo existir, ou tão pouco se ele vai ser inaugurado na Jornada Mundial da Juventude, quando o Papa Francisco vier a Portugal. "O assunto vai ser partilhado pelo presidente da Conferência Episcopal no seu tempo devido", esclarece.

JMJ: entre os custos e o medo

E a Jornada Mundial da Juventude é o grande evento do ano para a Igreja Católica. Um evento que Américo Aguiar, presidente da fundação responsável pela organização, diz que vai colocar Lisboa e Portugal "nas bocas do mundo", o que também vai permitir que todo o dinheiro investido acabe em retorno. Foi isso que se viu nas jornadas mundiais realizadas anteriormente, garante o bispo auxiliar.

Mesmo perante as várias polémicas com os custos, que poderão chegar aos 80 milhões de euros, o clérigo defende que esse valor só será alcançado por causa da dimensão do evento. Diz Américo Aguiar que toda a estrutura não custaria mais do que 20 milhões de euros, mas que, quanto mais pessoas forem, maior a necessidade de investimento para alojamento, alimentação, transportes e outras necessidades.

Para o evento fizeram a inscrição inicial mais de 600 mil jovens de 180 países. Desses houve perto de 450 mil que passaram a uma segunda fase, começando a partilhar dados, sendo mais provável que venham. Desses, mais de 200 mil finalizaram a inscrição. "Vamos trabalhando, vamos afinando a máquina", explica Américo Aguiar, admitindo preocupação com a realização do evento, alertando que serão necessárias mais famílias de acolhimento. "O número [de famílias de acolhimento] anima-me, mas são precisos mais".

"Temos números altos e não sabemos qual vai ser o comportamento dos jovens", admite, referindo que estão a ser feitos vários acordos para garantir refeições para todos os inscritos. Para já estão contratualizadas duas milhões refeições, mas teme-se que apareçam mais peregrinos do que os inscritos. Isto tudo porque, segundo Américo Aguiar, as pessoas têm medo, o que acaba por fazer com que ainda não esteja completa a lista dos 30 mil voluntários necessários para o evento.

"Temos de ultrapassar a barreira do medo", conclui, dizendo que também as semanas antes e depois do evento vão ser "extraordinárias".

Ainda sobre a Jornada Mundial da Juventude uma outra garantia: o Papa Francisco vem, mesmo numa altura em que se teme um agravamento do seu estado de saúde. "Não há plano B, o plano é F, de Francisco".

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