"A Ucrânia é um matadouro". Amal Clooney entrou em ação e poderá ter um papel decisivo para levar os autores de crimes de guerra a tribunal

Andreia Miranda , com agências
2 mai, 22:00

Advogada de direitos humanos já ajudou nos conflitos do Iraque e da Síria, tendo mesmo estado presente, em 2017, na votação do Conselho de Segurança para a criação de uma equipa da ONU para recolher, preservar e armazenar provas de possíveis crimes internacionais. Equipa que diz que não funciona, mas devia, para que quem cometeu os crimes seja julgado

A advogada de direitos humanos Amal Clooney não poupou nas palavras quando, na passada quarta-feira, disse, em pleno Conselho de Segurança da ONU, que a Ucrânia se tinha tornado "num matadouro".

"A Ucrânia é, hoje, um matadouro. Mesmo no coração da Europa. A guerra agressiva de Putin é tão ultrajante que, mesmo após advertências dos EUA e da longa ficha criminal da Rússia, os ucranianos não conseguiam acreditar que isso pudesse acontecer", afirmou Clooney, na reunião que foi organizada pela Albânia e por França, citada pela Reuters.

A advogada chegou mesmo a comparar o massacre de civis em Bucha com o massacre em Houla, na Síria, em maio de 2012, lembrando ao Conselho que a sessão de emergência para condenar as mortes não foi o ponto de viragem que as pessoas pensavam que ia ser.

"Ao ver a cobertura do massacre de Bucha, lembrei-me do massacre de Houla, na Síria. Este Conselho reuniu-se numa sessão de emergência para condenar as mortes e as pessoas pensaram que seria um ponto de viragem para a responsabilização. Não foi. E agora o mesmo general russo conhecido como 'O Carniceiro' que organizou o ataque brutal contra civis em Aleppo está a massacrar famílias inocentes em Mariupol", lembrou.

A advogada apelou assim aos países da ONU que se concentrem na justiça internacional para crimes de guerra na Ucrânia, para que as provas não acabem armazenadas, como aconteceu com as vítimas do Estado Islâmico no Iraque e na Síria, e lembrou mesmo uma votação do Conselho de Segurança de 2017 para aprovar uma medida pela qual ajudou a fazer pressão: a criação de uma equipa da ONU para recolher, preservar e armazenar provas de possíveis crimes internacionais cometidos pelo Estado Islâmico no Iraque.

"Os meus filhos têm quase cinco anos e, até agora, a maioria das provas recolhidas pela ONU estão armazenadas porque não há tribunal internacional para julgar o Estado Islâmico", lamentou Amal, cujos filhos gémeos nasceram em 2017.

Numa observação mais ampla da guerra na Ucrânia, a advogada de direitos humanos defendeu ainda que as atrocidades cometidas só foram possíveis porque a comunidade internacional ignorou este problema durante outros conflitos.

"No passado, os perpetradores cometeram crimes acreditando que iriam escapar à justiça. E estavam certos. Durante muito tempo vimos os perpetradores a assassinarem, torturarem e violarem sem consequências, em violações em massa dos direitos humanos, desde o Darfur a Myanmar e ao Iémen", continuou.

Task-force só para os crimes cometidos na Ucrânia

Amal Clooney faz parte da equipa de advogados criada a 29 de março para ajudar os procuradores ucranianos a coordenar os casos de crimes de guerra e outros crimes relacionados com a invasão russa da Ucrânia.

Para além de liderar o grupo de apoio às vítimas dos crimes cometidos pela Rússia, a advogada tem ainda a Fundação Clooney para a Justiça, que fundou com o marido, o ator George Clooney, através da qual espera levar os autores dos crimes de guerra a tribunal.

A Task-force para Responsabilidades nos Crimes Cometidos na Ucrânia vai ajudar ainda o governo ucraniano a dar conselhos aos cidadãos, para além de ter pedido aos governos que tomem “medidas concretas na justiça” e mostrem apoio claro e inequívoco à jurisdição do Tribunal Penal Internacional, “tornando o seu país um ambiente hostil para criminosos de guerra” e acolhendo os refugiados.

"A justiça não acontece, temos de a fazer"

A mulher de George Clooney não é nova nestas andanças e, em entrevista à Time, recentemente, falou sobre os vários países em que já trabalhou para ajudar as vítimas de crimes como genocídios e violência sexual.

Amal Clooney e Nadia Murad (Associated Press)

Amal Clooney já atuou em locais como Malawi, Darfur, Egito, Myanmar, Azerbeijão, Tanzânia e garante que defende as causas porque se sente "apaixonada", como no caso dos yazidis, no qual trabalha há vários anos. Em 2020, segundo o Washington Post, chegou mesmo a acusar, juntamente com Nadia Murad, jovem yazidi prémio Nobel da Paz, os líderes governamentais e as Nações Unidas de terem falhado em levar os extremistas responsáveis por genocídio à justiça. 

"É uma tentativa de responder ao pior sistema de abuso sexual e escravidão de mulheres que vi na minha vida", afirma.

Foi graças à advogada britânica, de origem libanesa, que o primeiro militante do Estado Islâmico foi condenado por genocídio depois de, em novembro, uma das suas clientes, uma mulher do Iraque, ter testemunhado contra ele, desafiando o homem que a escravizou e lhe matou a filha.

"A justiça não acontece, temos de a fazer; temos de dobrar o arco contra ela. Temos de tentar fazer isso responsabilizando quem é responsável. Por isso, a metodologia é expor, mas também punir e remediar. E este é o resultado quer da minha experiência como dos muitos anos em que o George também trabalhou essas questões", afirmou Amal à Time.

Casal Clooney junto na luta pela justiça

Amal e George Clooney (Vianney Le Caer/Invision/AP)

Em 2016, George Clooney juntou-se à mulher na luta dos refugiados sírios, tendo viajado até Berlim para um encontro com famílias a viver na cidade alemã. No encontro, o casal ouviu as famílias contar como era a vida na Síria devastada pela guerra, as razões pelas quais achavam que precisavam de retirar as famílias de lá e a esperança de um futuro melhor na Alemanha.

“Nós - aqueles que gostamos de pensar que vivemos num mundo civilizado, uma nação - olhamos à nossa volta depois destas tragédias e dizemos que, se soubéssemos, teríamos feito alguma coisa. Mas a realidade é a que nós sabemos, claro””, afirmou o ator, num vídeo do Comité Internacional de Resgate.

Para além dos casos dos refugiados sírios e dos yazidis, Amal Clooney viu ainda o seu trabalho reconhecido quando representou a Arménia no caso que envolve a negação de genocídio pela Turquia, em 1915. A mulher do ator George Clooney fez ainda parte do grupo de advogados das 126 vítimas de genocídio no Darfur, no Sudão, no Tribunal Internacional de Crimes de Guerra, tendo sido nomeada, em 2021,  Conselheira Especial do Procurador do Tribunal Penal Internacional no Darfur. Outro dos destaques do trabalho de Amal Clooney foi quando trabalhou como consultora sénior de Kofi Annan enquanto enviada da ONU para a Síria.

Clooney é ainda uma ativa defensora da liberdade de imprensa, tendo defendido vários jornalistas detidos por todo o mundo, chegando mesmo a receber o prémio Gwen Ifill Award pelo seu trabalho.

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