Esta descoberta genética permite explicar por que razão as mulheres contraem mais a doença de Alzheimer

CNN , Sandee LaMotte
9 jul, 10:00
Alzheimer

Dois terços dos 6,5 milhões de americanos que vivem atualmente com a devastadora doença cerebral são mulheres, de acordo com a Associação Alzheimer

Os cientistas identificaram um gene que parece aumentar o risco de Alzheimer nas mulheres, fornecendo uma potencial nova pista sobre a razão pela qual mais mulheres do que homens são diagnosticados com a doença.

O gene, O6-metilguanina-DNA (ADN) metiltransferase, ou MGMT desempenha um papel importante na forma como o corpo apresenta os mecanismos de reparação no ADN tanto em homens como em mulheres. Mas os investigadores não encontraram uma associação entre MGMT e Alzheimer nos homens.

"É uma descoberta que diz respeito especificamente às mulheres - talvez uma das associações mais fortes a um fator de risco genético que indicia, nas mulheres, a possibilidade de contraírem a doença de Alzheimer ", disse a coautora sénior do estudo Lindsay Farrer, chefe de genética biomédica da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston.

Dois terços dos 6,5 milhões de americanos que vivem atualmente com a devastadora doença cerebral são mulheres, de acordo com a Associação Alzheimer. É uma tendência que se verifica em todo o mundo.

"As mulheres, devido a fatores de risco genéticos únicos - como o APOE ε4 (polimorfismo do gene da apolipoproteína E) e o gene MGMT (metilguanina-DNA (ADN) metiltransferase), e a fatores de risco específicos do sexo - como a súbita redução do estrogénio durante a transição peri-menopausa, podem apresentar uma probabilidade mais direta e rápida de contrair à doença, enquanto os homens transitam para essa fase de forma mais gradual", afirmou Richard Isaacson, que não participou no estudo e é diretor da Clínica de Prevenção de Alzheimer no Schmidt College of Medicine da Universidade Atlântica da Florida.

O polimorfismo do gene APOE ε4 é considerado o fator de risco mais significativo para a probabilidade de desenvolvimento da doença de Alzheimer em pessoas com mais de 65 anos, o que é "especialmente verdadeiro para as mulheres, que são mais afetadas pelo APOE ε4 do que os homens", acrescentou Isaacson.

Contudo, há muitas mulheres com APOE ε4 que não desenvolvem Alzheimer, enquanto outras mulheres podem desenvolver a doença mesmo sem o gene.

"Talvez a MGMT seja uma peça importante do puzzle na previsão de riscos para estas mulheres, mas são necessários mais estudos", disse Isaacson.

Uma descoberta inesperada

A descoberta da existência do novo gene foi realizada por dois grupos de pessoas completamente distintos. Uma equipa de investigadores da Universidade de Chicago estava a analisar a composição genética de um pequeno grupo de mulheres da Irmandade Hutteriana (Anabatistas) que vivem comunitariamente na zona rural de Montana e Dakota do Sul. Os Hutteritas são uma comunidade religiosa fechada cujos membros se casam entre si e mantêm extensos registos genealógicos, o que os torna uma excelente escolha para a investigação genética.

"O ambiente relativamente uniforme e a reduzida variação genética entre os Hutteritas aumenta a possibilidade de encontrar associações em amostras de dimensão inferior àquela que é necessária para estudos representativos da população em geral", afirmou em comunicado a coautora do estudo, Carole Ober, finalista da cadeira de genética humana da Universidade de Chicago.

Quando surgiu na sua pesquisa a possibilidade de estabelecer esta nova ligação da doença ao gene MGMT, Ober contactou Farrer, em Boston para ver se poderia colaborar na confirmação da sua descoberta.

Farrer, que se encontrava a meio de um estudo genético de grande dimensão, de mais de 10.000 mulheres, no Alzheimer's Disease Genetics Consortium, ficou surpreendido com o seu pedido.

"Disse-lhe que tínhamos encontrado exatamente o mesmo gene na nossa pesquisa", confirmou Farrer. "Dois estudos diferentes começaram independentemente um do outro e encontraram por serendipidade o mesmo gene, o que, para mim, acrescenta um grande nível de confiança na solidez da descoberta".

O estudo combinado foi publicado recentemente na revista - Alzheimer's Disease & Dementia: The Journal of the Alzheimer's Association.

Um fator de risco para mulheres sem APOE ε4

A equipa de investigação comparou os resultados da descoberta com tecido cerebral masculino obtido em autópsia, e não encontrou qualquer associação entre o gene MGMT e a doença de Alzheimer nos homens.

Quando examinaram o gene MGMT via epigenética, que é o que acontece quando um gene é ativado ou desativado devido a determinados comportamentos e fatores ambientais, os investigadores descobriram que a sua expressão nas mulheres estava significativamente associada ao desenvolvimento de beta amilóide e tau, duas proteínas que são traços distintivos da doença de Alzheimer.

A ligação entre o gene MGMT e placas amilóides e emaranhados de tau foi "mais pronunciada nas mulheres que não têm o gene APOE ε4", acrescentou Farrer.

Considerada como uma proteína essencial, uma das funções primárias do gene APOE é "mover o colesterol no seu corpo, e sem isso estaria em apuros", explicou Farrer. No entanto, alguns estudos têm descoberto que a variante APOE ε4 pode resultar no depósito e mais acumulação de ácidos gordos do que os outros membros da família do gene APOE, levando assim os cientistas a acreditar que existe uma associação do colesterol à doença de Alzheimer.

De facto, um estudo de Farrer publicado em março apresentou a descoberta de que ter colesterol e açúcar elevados no sangue, na casa dos 30 anos, pode aumentar o risco de contrair a doença de Alzheimer décadas mais tarde na vida.

"Existem muitas vias que levam à doença de Alzheimer. Pode ter origem nos lípidos, ou no colesterol, cuja ligação à doença de Alzheimer está agora bastante bem comprovada, e o APOE ε4 faz parte dela", confirmou, ainda, Farrer.

"E há também a via inflamatória, que é comum a todas as doenças crónicas. Com o MGMT, podemos estar a confrontar-nos com uma via adicional que, de alguma forma, decorra dos mecanismos de reparação do ADN, ou talvez o MGMT participe numa destas outras vias propícias à doença e ainda ninguém saiba como", acrescentou Farrer.

Acompanhamento médico personalizado

Os especialistas afirmam que as mulheres em risco devem ser aconselhadas pelos seus médicos em relação ao caminho que podem seguir.

Estas intervenções poderiam incluir a supervisão da tensão arterial, mantendo-a estável, dos níveis de colesterol e de açúcar no sangue em grupos saudáveis, e, em simultâneo "considerar a aplicação de terapia de reposição hormonal quando indicada, e advogar um estilo de vida mental saudável, incluir hábitos de exercício regular, uma dieta ao estilo mediterrânico, sono adequado e técnicas de redução do stress", disse Isaacson.

Os especialistas afirmam que as mulheres têm de manter o seu colesterol, açúcar no sangue e tensão arterial sob controlo a fim de diminuir o risco de demência,

Brevemente, os cientistas poderão vir a oferecer um acompanhamento médico mais personalizado e ajustado a cada uma destas mulheres, afirmou o Dr. Kellyann Niotis, que não participou no estudo e é neurologista da Clínica de Prevenção de Alzheimer - Weill Cornell Medical Centre e do Hospital New York-Presbyterian.

"Dentro de pouco tempo poderemos oferecer às mulheres em risco diagnósticos mais avançados, com testes genéticos completos realizados em ambiente clínico, para avaliar mais adequadamente o seu risco e desenvolver planos personalizados de redução do risco e uma proteção otimizada do seu cérebro", concluiu Niotis.

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