Um copo de vinho até faz bem à saúde? O que dizem os estudos

CNN , Sandee LaMotte e Jen Christensen
22 fev, 11:00
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Documento da Federação Mundial do Coração é uma má notícia para quem sempre se apoiou na teoria do "um copo de vinho até faz bem ao coração". Qualquer quantidade danifica o cérebro, diz um novo estudo científico

Num gesto que se pode considerar ousado, a Federação Mundial do Coração divulgou um documento sobre políticas, em que estipula que nenhuma quantidade de álcool é boa para o coração.

“Na Federação Mundial do Coração, decidimos que era imperativo falarmos sobre o álcool e os danos que causa à saúde, bem como os malefícios sociais e económicos, porque a população em geral, e mesmo os profissionais de saúde, têm a impressão de que é bom para o coração”, afirmou Beatriz Champagne, presidente do comité que redigiu o relatório.

“Não é, e as evidências demonstram progressivamente que não existe um nível de consumo de álcool seguro para a saúde”, explicou Champagne, que também é diretora executiva da Coalition for Americas' Health, uma organização dedicada a melhorar a saúde nas Américas.

Críticas bruscas

Os críticos contestaram rapidamente a posição da Federação, afirmando que ignorava estudos que demonstram um pequeno benefício para algumas doenças cardíacas, quando uma quantidade moderada de álcool é consumida.

Um desses estudos sobre os riscos do álcool, publicado na revista científica Lancet em 2018, foi usado exaustivamente no documento da Federação Mundial do Coração, “porém, deturpa-o seriamente e relata seletivamente as suas descobertas”, afirmou David Spiegelhalter, professor de Entendimento Público do Risco na Universidade de Cambridge.

“Dado que o relatório da Federação faz referência a este artigo, é realmente estranho que a conclusão seja que ‘nenhuma quantidade de álcool é boa para o coração’”, explicou Emmanuela Gakidou, professora do Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington, que analisa os riscos do álcool com base no estudo da Carga Global da Doença, que reúne dados mundiais sobre morte prematura e incapacidade de mais de 300 doenças.

“Existem alguns estudos científicos que corroboram a afirmação, mas, com base no meu trabalho no estudo da Carga Global da Doença, que reúne todas as provas disponíveis até hoje, a declaração da Federação Mundial do Coração não é apoiada pelas provas científicas atualmente disponíveis”, afirmou Gakidou.

Em resposta a estas críticas, Champagne enviou a seguinte resposta à CNN:

“Embora defendamos as nossas principais mensagens, deve ter-se em conta que a formulação de partes do documento pode dar origem a mal-entendidos. Para abordar este assunto, atualizámos o documento (mais especificamente a página 8) de maneira a articularmos mais claramente as nossas conclusões e citarmos mais especificamente os estudos através dos quais estas foram alcançadas”, escreveu Champagne num e-mail.

“Em suma, a nossa posição é que os estudos que demonstram um efeito cardioprotetor significativo do consumo de álcool têm sido geralmente observacionais, incoerentes, financiados pela indústria do álcool e/ou não sujeitos a controlo aleatório. Além disso, qualquer efeito cardioprotetor potencial é anulado pelos riscos e danos bem documentados, tornando o nosso julgamento de que nenhuma quantidade de consumo pode ser considerada boa para a saúde do coração.”

A Associação Americana do Coração, de que a Federação é membro, afirma que “a moderação é fundamental”, no que diz respeito ao álcool, que é limitado a um copo por dia para as mulheres e dois para os homens.

Mariell Jessup, diretora científica e médica da Associação Americana do Coração, comentou à CNN por e-mail que a associação “analisará cuidadosamente” o documento da Federação. A diretora afirmou que a Associação analisou recentemente indícios sobre o álcool e o risco cardiovascular na sua Declaração Científica de Orientação Dietética de 2021 e “concluímos que, se não bebe álcool, não comece; e, se bebe, limite a ingestão.”

Uma visão do mundo

A Federação Mundial da Saúde é uma organização que defende a saúde com sede em Genebra e representa centenas de associações do coração em todo o mundo. Esta lançou o novo documento sobre políticas, "O Impacto do Consumo de Álcool na Saúde Cardiovascular: Mitos e Medidas", para contrariar relatos de que uma pequena quantidade de álcool é boa ou até faz bem à saúde do coração.

De acordo com o relatório, beber álcool aumenta o risco de vários problemas cardiovasculares, incluindo doença coronária, insuficiência cardíaca, pressão alta, acidente vascular cerebral e aneurisma da aorta. Qualquer quantidade de álcool, não apenas quantidades elevadas, pode levar à perda de uma vida saudável, indica.

“Ao longo das últimas décadas, a prevalência de doenças cardiovasculares quase duplicou e o álcool tem desempenhado um papel importante na incidência de grande parte delas”, informa o relatório.

A doença cardiovascular é uma das principais causas de morte no mundo, afetando desproporcionalmente pessoas de baixo nível socioeconómico. Em 2019, quase 2,4 milhões de mortes – não apenas relacionadas com o coração – podem ser atribuídas ao álcool, segundo o relatório. O álcool também afeta negativamente a saúde mental.

A Organização Mundial da Saúde pediu uma redução relativa de 10% no uso per capita do álcool entre 2013 e 2030, mas o relatório indica que a falta de investimento em estratégias comprovadas de redução do álcool, além da divulgação de informação errada por parte da indústria, impediu o progresso em direção a este objetivo.

“O retrato do álcool como necessário para uma vida social vibrante desviou a atenção dos malefícios do seu consumo, bem como as alegações frequentes e amplamente divulgadas de que o consumo moderado, como um copo de vinho tinto por dia, pode ser benéfico contra doenças cardiovasculares”, afirmou Monika Arora, membro do Comité de Advocacia da Federação Mundial do Coração e co-autora do documento, num comunicado à imprensa. “Estas declarações são, na melhor das hipóteses, mal informadas e, na pior, são uma tentativa da indústria do álcool de enganar o público sobre o perigo de seu produto”.

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