A incrível história de Parwana, de 9 anos: foi vendida por dinheiro, gado e terras para ser noiva de um homem de 55. Acabou resgatada

CNN Portugal , Anna Coren
6 dez 2021, 14:22

Um pai vende uma filha de nove anos, depois de já ter vendido outra de 12 e admitindo vender mais quatro, incluindo a mais nova, de dois anos. Até que uma reportagem da CNN muda a vida da menina. Uma reportagem que mostra o antes e depois – e até o negócio entre um pai e um futuro marido de uma menina forçada. Leia a história e veja a reportagem

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Noroeste do Afeganistão. Na parte de trás de uma carrinha seguem, amontoados, uma mãe e seis filhos. Entre eles está Parwana, de nove anos. À frente, o operador de câmara da CNN pergunta-lhe como se sente. A menina responde: “Estou tão feliz”.

É um final feliz de uma história que começara com uma reportagem da CNN, em outubro, no campo de deslocados internos na província de Badghis. O pai de Parwana conta nessa altura que vai vendê-la para alimentar o resto da família; conta que já antes vendera a sua filha de 12 anos em casamento; e conta que CNN admite vender todas as outras filhas se for necessário. Ou quando for necessário. Incluindo a filha mais nova. Tem dois anos.

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“Se eu não tivesse estas filhas para vender, o que poderia fazer?”, afirmava em outubro o pai de Parwana.

Não é uma intenção, é um negócio fechado: a CNN filma a transação, a venda ao comprador, que vive numa aldeia próxima. “Comprei-a para mim. Vou esperar até ela ser mais velha”, diz. Tem 55 anos, Parwana será a sua segunda mulher.

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O pai vende a filha por 200 mil afeganis, pouco mais de 1800 euros, em terras, gado e dinheiro. E entrega a filha, que vemos ser arrastada pelo comprado, mesmo depois de se queixar, mesmo depois de recusar a avançar.

Da venda à salvação

Esta reportagem de outubro causou uma onda de protestos e de solidariedade, com várias instituições e ONG a envolverem-se para ajudar Parwana e outras raparigas. Mesmo na província de Badghis houve uma reação de revolta contra o pai e o comprador. Até os talibãs falaram à CNN, dizendo que a prática é proibida: “peço a todos que não vendam os seus filhos”.

E assim a história foi revertida. A controvérsia causada pela reportagem e a intervenção das organizações de caridade, como a “Too young to wed” [à letra, “Demasiado novas para casarem”] fez com que Parwana fosse autorizada a regressar a casa, duas semanas depois de viver com a família do comprador. O pai pediu desculpas. E autorizou a mãe e filhos a sair do campo. E assim as vemos na carrinha, onde seguem amontoadas, numa viagem de quatro horas até à província de Herat, parando a meio para brincar com bolas de neve, até chegarem a um motel, quentes, alimentadas e seguras. Dias depois mudarão para um abrigo.

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Parwana será apenas um caso num país arrasado por uma crise humanitária. “Há muita miséria, há muitos maus-tratos, há muitos abusos”, denuncia Mahboua Seraj, ativista dos direitos da mulher que está em Cabul, onde dirige um abrigo para mulheres. “E isso continuará a acontecer com a fome, no inverno, com a pobreza”.

Vemos agora mãe de Parwana, Reza Gul. Nunca antes viveu numa casa. Tem 27 anos, foi vendida em casamento aos 13, desde então teve sete filhos, seis dos quais meninas. Só quer dar-lhes uma vida melhor do que a sua. E tem um sonho: que eles possam ir à escola.     

Parwana quer estudar para ser médica ou professora. E, agradecendo, despede-se: “Estou salva”.

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