A proibição de líquidos nos aeroportos pode estar a acabar. Saiba porquê

CNN , Maureen O’Hare
15 mai, 16:00
Aeroporto

Está em andamento uma revolução discreta que procura mudar a forma de como passamos pela segurança dos aeroportos, no entanto, a maioria de nós nem se apercebeu.

Já há quase 16 anos que o requisito de retirar os equipamentos eletrónicos das malas e de colocar líquidos em contentores de 100 mililitros tem sido um princípio básico das viagens de avião. Contudo, em muitos aeroportos do mundo, já existe uma nova tecnologia que permitirá o levantamento dessa regra, e alguns já deram início ao desmantelamento desta restrição.

Em outubro de 2021, o Aeroporto de Shannon, no oeste da Irlanda, anunciou discretamente o seu novo equipamento de tomografia computadorizada (CT Scan) de última geração, um sistema de segurança de digitalização, instalado a um custo de 2,5 milhões de euros.

Com esta nova tecnologia, os líquidos e os equipamentos eletrónicos agora podem permanecer dentro das malas, sem restrições no volume de líquidos, e as malas de cabine podem passar pelo scanner de segurança em novos tabuleiros de maior dimensão.

Não é a primeira vez que Shannon, o aeroporto mais ocidental da Europa, foi um pioneiro global. Foi neste aeroporto que foi inaugurada a primeira loja Duty-Free do mundo em 1947, e, em 2009, tornou-se o primeiro aeroporto do mundo, para além das Américas, a fornecer instalações completas de desalfandegamento para os Estados Unidos.

“É um dos projetos que o Shannon Group assumiu durante o período de restrições severas de viagens na aviação”, disse Nandi O'Sullivan, o chefe de comunicações do grupo, à CNN Travel.

Implementado durante a pandemia, foi apenas quando as viagens internacionais foram retomadas em Março de 2022 que a mudança do aeroporto começou a ganhar mais atenção. Por sua vez, o aeroporto de Donegal, no noroeste da Irlanda, também seguiu o exemplo, ao instalar nova tecnologia e ao abandonar a regra dos 100 mililitros.

Melhor segurança, filas mais curtas

De que modo funciona esta nova tecnologia CT, que aeroportos já a utilizam, e porque é que não há mais locais a atenuar as restrições?

Kevin Riordan, chefe de soluções de pontos de controlo na Smiths Detection, a empresa que fornece o equipamento de segurança de Shannon e líder mundial em tecnologia de tomografia computorizada, explica os motivos.

À semelhança das tomografias computadorizadas que conhecemos dos hospitais, os scanners de segurança nos aeroportos substituem os scanners convencionais de raios X 2D por imagens 3D muito mais precisas.

“Pode-se obter muita informação a partir de uma imagem 2D, mas quando se tem um objecto 3D na mão, consegue-se ter muito mais”, disse Riordan. “De um ponto de vista da segurança, estes encontram-se em condições de tomar decisões bastante precisas acerca do tipo de materiais que estão na sua mala: se é um objeto perigoso ou benigno. Isto significa que quando há melhor segurança, melhores decisões serão tomadas.”

Uma senhora a passar pela segurança no Aeroporto de Shannon, na Irlanda.
(Cortesia do Grupo Shannon)

O Aeroporto de Shannon estima que o tempo passado no controlo de segurança dos passageiros será reduzido em 50% devido à nova tecnologia, e como já era esperado, Riordan disse que o feedback dos passageiros tem sido muito positivo nos aeroportos onde as novas máquinas foram testadas.

A proibição de líquidos foi introduzida no mundo inteiro após uma conspiração terrorista transatlântica ter sido desmantelada em Agosto de 2006, na qual um grupo planeou a detonação de explosivos líquidos a bordo de múltiplos voos. Passou a fazer parte da vida quotidiana, mas muitos de nós recordamos vivamente os tempos em que as linhas de segurança eram mais rápidas e as bagagens eram mais simples.

Implementação gradual

A tecnologia de tomografia computadorizada começou a ser notícia em 2018. Os scanners foram testados nos aeroportos de grande escala, incluindo Heathrow, em Londres, JFK, em Nova Iorque, e o Schiphol, em Amesterdão. No ano seguinte, Heathrow anunciou que estava a investir 50 milhões de libras (cerca de 58 milhões de euros) numa instalação gradual da tecnologia nos seus aeroportos, com um prazo até 2022.

Em Julho de 2020, foi anunciado que o Aeroporto London Southend se tornaria o primeiro na Grã-Bretanha a abandonar a prática de obrigar os passageiros a tirarem os seus líquidos e electrónicos das malas antes de passarem pelo sistema de segurança.

Por sua vez, o aeroporto Schiphol de Amesterdão também tem utilizado a tecnologia de tomografia computadorizada, disse Dennis Muller, porta-voz sénior do aeroporto, à CNN. Mas ao contrário de Southend ou Donegal, Schiphol é um centro internacional importante. Os seus passageiros já não são obrigados a seguir as restrições de líquidos, mas o aeroporto aconselha a que continuem a utilizar recipientes de 100 ml, de forma a evitar que haja problemas em países que ainda têm esta jurisdição em vigor.

“Os Países Baixos avançaram mais depressa do que a maioria”, comenta Riordan. “O Reino Unido decretou esta tecnologia até 2024, e isso possibilitará que sejam levantadas todas as restrições sobre o que se pode continuar a transportar.”

Assim que mais países forem capazes de realizar a implementação completa desta tecnologia a nível nacional, iremos começar a ver mais aeroportos e regiões a levantarem a restrição ou a torná-la mais flexível. No entanto, alterações aos regulamentos não acontecerão com tanta rapidez ou universalmente. 

Restrições administrativas

“É um quadro dinâmico que ainda estamos a tentar compreender, qual tem sido o impacto nos últimos dois anos”, disse Riordan. “O número de passageiros está a recuperar em muitos aeroportos mais depressa do que o esperado”. Consequentemente, registou-se uma grande escassez de funcionários nos aeroportos e nas companhias aéreas em todo o mundo, o que levou muitos a prever um “verão caótico” no futuro.

A Smiths Detection é uma das poucas empresas no campo deste tipo de tecnologia, tendo a empresa americana Leidos como principal concorrente, a quem foi atribuído um contrato de 446.2 milhões de euros da TSA para a implantação de tecnologia de rastreio de pontos de controlo nos Estados Unidos, no ano passado.

“É um processo contínuo para nós como fornecedores”, afirmou Riordan. As recentes restrições de pessoal “pressionam-nos a conceber operações que são muito mais eficientes.  A tecnologia de tomografia computadorizada é a melhor no mercado, mas haverá uma forma mais inteligente de a utilizar para a optimizar?”.

Uma das inovações é a multiplexagem: “Passa-se um conjunto de malas por uma máquina e as imagens são enviadas a (três ou quatro) operadores diferentes, e não apenas a um operador por máquina. É uma maneira de tentar compensar este desfasamento no número de funcionários e aumentar o número de passageiros”.

O Aeroporto de Shannon tem quatro novos Smiths Detection EDS CB CT scanners instalados. (Cortesia: Grupo Shannon)

Uma questão de negócio

O custo da implementação desta nova tecnologia não é barato, e os aeroportos mais pequenos, cujos problemas já se fazem sentir após o Covid, podem considerar estas melhorias problemáticas.

Cada aeroporto terá a sua própria planificação de atualizações e inovações a considerar, cobrindo todos os constrangimentos e exigências de um aeroporto central do século XXI.

Quando as nações exigirem a atualização, mais aeroportos estarão sob pressão, mas até lá, a nível individual do aeroporto, trata-se de uma questão de negócio.

A eficiência e a satisfação do cliente é, evidentemente, de extrema importância, mas a redução das filas de segurança também significam que os passageiros passam mais tempo a caminhar pelo aeroporto, e consequentemente, gastam mais dinheiro em lojas e restaurantes  do aeroporto. “É diferente em diferentes regiões globais. vai acontecer a ritmos diferentes”, disse Riordan.

É demasiado cedo para prever a rapidez com que as coisas irão progredir,  mas com aeroportos como Shannon e Schiphol a liderar o caminho, poderemos ver progressos nos próximos anos. Mas, com a recuperação da indústria, é provável que seja mais cedo do que mais tarde.

A CNN entrou em contato com Heathrow para comentar esta reportagem.

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