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Tiago foi vítima de abuso sexual durante 12 anos. "Tomei consciência de que não era normal no dia em que ele me masturbou"

18 jan, 07:00
Homem triste

É o regresso à infância de um homem colocado pela mãe numa instituição para crianças carenciadas. As memórias do abandono e da “teia” em que se sentiu enredado pelo agressor desde que tinha cinco anos. Uma viagem aos sentimentos de culpa que lhe assolaram a alma até aos 32 anos, quando resolveu pedir ajuda. Um relato cru que pode chocar os leitores mais sensíveis

A clareza do discurso de Tiago não deixa antever o enredo da história da infância. Aos 36 anos, aceitou falar sobre os abusos de que foi vítima na instituição onde foi deixado pela mãe, após o divórcio. Pede anonimato e aceita ser chamado de Tiago, mas diz que aceita contar a história, em primeiro lugar, para verbalizar que o homem que o agrediu e lhe destruiu a autoestima e a capacidade de receber afeto, como a maioria dos outros agressores, "não são as pessoas que dizem ser". Na verdade, o que lhe apetece é gritar aos quatro ventos que o homem que lhe dizia “tu para mim és como um filho” e que todos acham benfeitor e honesto é um abusador sexual. Mas ainda não se sente preparado para “dar a cara”. Fala também para que o seu relato possa servir de “alerta” e ajudar outros sobreviventes.

Tiago, chamemos-lhe então assim, foi entregue numa instituição quando tinha cinco anos. Hoje, que a culpa já não lhe tolda o discernimento, olha para trás e percebe que começou a ser “embrulhado nessa teia” desde o primeiro dia. Hoje, sabe que tudo começou com “um olá, com um olhar, com uma prenda, com um afagar da cabeça” até o agressor sentir a liberdade para lhe tocar de forma mais íntima. “Hoje tenho perfeita noção que aquilo já era um abuso, claro que sim. Já era um abuso. E esse toque por baixo da camisola passa de uma parte do corpo para a outra, até ele achar que tem liberdade para mexer em outras partes do meu corpo”, recorda.

Numa conversa de mais de uma hora com a CNN Portugal, Tiago conta aquilo que muito pouca gente sabe, além dos técnicos e dos psicólogos da Associação Quebrar o Silêncio, que ajudam agora a amenizar os impactos que os abusos ainda têm na sua vida. E reconhece: “É horrível, porque não podemos abraçar uma pessoa sem que o toque… um amigo, um familiar… Quando alguém me coloca uma mão num ombro, o inconsciente rapidamente me coloca uma situação na cabeça semelhante à que vivi”.

Nota da Redação:

Se é ou foi vítima de abuso sexual ou conhece alguém numa situação semelhante à de Tiago e de outras vítimas, procure ajuda nas seguintes instituições: 

910 846 589 

apoio@quebrarosilencio.pt

213 802 165 

ca@amcv.org.pt

914 736 078 

eir.centro@gmail.com

 

Pode falar-me um pouco sobre si? Onde é que cresceu? Como é que foi a sua infância?

Neste momento estou no estrangeiro, mas eu nasci e cresci em Portugal e estive em Portugal até aos 17 anos.

Sou do interior do país e venho de uma família que tinha umas condições de vida difíceis. Vivíamos algumas pessoas em casa. A minha bisavó e um primo também viviam connosco e éramos seis, sete pessoas em casa.

O meu pai acho que era a única pessoa que trabalhava. Ou pelo menos a única que trabalhava, no sentido de ter um ordenado.

A minha mãe, além do trabalho que tinha como doméstica e cuidadora dos filhos, ia fazendo aquilo que se chamava “ganhar aos dias”, ou “às tardes”, era uma expressão que se usava muito no campo. Nós tínhamos muitas dificuldades.

Não sei exatamente como é que os meus pais se conheceram e em que contexto é que eles depois decidiram casar. Antigamente era mais comum, acho eu… as pessoas casarem-se para saírem de casa dos pais. Eu acho que foi um bocado por aí, acho que foi assim que aconteceu. A relação deles acho que nunca foi muito boa. Acho que nunca foi uma relação que funcionou.

Então foi uma relação que também não durou muito tempo. Tiveram dois filhos e acabaram por se separar. Eu tinha quatro anos, sensivelmente. O meu irmão teria sete, oito anos.

 

Fica a viver com a sua mãe?

A minha mãe é que sai de casa e leva um filho com ela. No caso, eu. O meu pai fica com o outro filho.

A verdade é que a minha mãe, pelos vistos, também já tinha outra pessoa fora daquela relação. E foi aquela pessoa que, naquele dia em que ela decide sair de casa, estava à espera dela e nos levou para outro lado.

Passou-se uns seis meses a um ano, até que ela consegue colocar-me numa espécie de internato, um estabelecimento de assistência para crianças órfãs ou carenciadas. Eu entrei ali, acho que ainda não tinha cinco anos.

Esse período de seis meses a um ano também foi de muitas mudanças… estivemos três meses numa casa, três meses noutro sítio… houve ali muitas mudanças.

 

Isso marcou-o de alguma forma emocionalmente, Tiago? Fortaleceu-o, enfraqueceu-o?

Eu acho que, no fundo, saí fortalecido. Apesar da história da minha vida não ser nada fácil. Mas também há algumas fraquezas de que eu não tinha noção. Hoje, tenho a noção que sou uma pessoa que passou por muito e considero-me uma pessoa forte. Mas tenho muitas fraquezas que são o resultado da história da minha vida, não é? Eu nem sei se são fraquezas, são consequências. E não dá para fugir delas, não dá.

Porque a maneira como nós crescemos, a maneira como as pessoas lidam connosco, principalmente numa idade tão importante… Uma fase tão importante da nossa vida em que estamos a absorver conhecimento, em que nos é passada tanta informação… é natural que deixe marcas. E sim, deixaram muitas marcas. Deixaram muitas marcas.

Tiago só pediu ajuda há dois anos. Pede anonimato para contar a sua história, porque ainda não se sente preparado para revelar o que lhe aconteceu a quem lhe é mais próximo. 

 

Identifica momentos felizes da sua infância?

A minha avó. A mãe da minha mãe. A minha avó foi a pessoa mais importante da minha vida. Ela emigrou para a França quando eu era muito pequeno, mas eu ia passar os verões com ela. Foi a pessoa que me traz sorrisos, que me traz essas lembranças positivas. Foi a pessoa mais incrível que eu conheci. Acho que é, até à data de hoje, o amor da minha vida.

Foi a dedicação dela para comigo que me tornou a pessoa que eu sou hoje. Uma pessoa virada também para os outros.

 

Era bom aluno?

Sim. Eu era muito sonhador e eu acho que até aos meus 13 ou 14 anos eu era bom aluno. Talvez até entrar para o liceu, para o sétimo ano. É uma fase ainda precoce para ser que era bom aluno, não é? Até ao sexto ano, eu tinha muito gosto por aprender. Era muito dedicado. Lembro-me de ter até ganhado, por parte da instituição, um prémio por ter concluído o sexto ano com notas muito razoáveis. Não era um excelente aluno. Mas era um aluno com notas bastante razoáveis.

Eu acho que as coisas depois mudam de cenário, porque começo a perceber que a minha vida era muito mais pesada do que aquilo que eu queria que fosse.

 

Quando foi para esse colégio interno, como é que passou a ser a sua vida?

 É chegar a um sítio que não se conhece ninguém.

A minha mãe nunca foi uma pessoa de muitos afetos, mas era a única que eu conhecia. E, de repente, ser deixado assim num sítio em que não se conhece ninguém… Isto depois daquela fase bastante difícil da separação, em que, de um dia para o outro deixei de ver o meu irmão e o meu pai sem saber muito bem porquê… passado um tempo, sou posto ali…

Talvez até tivesse sido a melhor solução. E talvez até, muito honestamente, para mim... Não sei… apesar do que veio a acontecer mais tarde, eventualmente até foi positivo não crescer com a minha mãe, apesar de hoje ainda mantermos uma relação com algumas limitações

 

Porque é que foi positivo não crescer com a sua mãe?

Durante o primeiro ano na instituição, acho que ela me foi ver duas ou três vezes, uma coisa do género. Até porque eles também pediram que as visitas fossem muito poucas, para que a adaptação fosse melhor. Mas, acho que iria ser uma vida ainda mais sofrida, porque das vezes que eu visitava a minha mãe ou que ela me visitava, a relação não era boa.

 

Sentiu alguma espécie de abandono?

É algo que se sente mais tarde. No momento, se calhar, chora-se. Mas a insegurança daquele momento, a dor daquele momento, o conflito daquele momento, eu acho que aparece mais tarde na nossa vida. Porque o sentimento de abandono não foi a primeira vez quando fui deixado na instituição. Se calhar isso já tinha acontecido anteriormente, não é? Anteriormente, por parte da minha mãe, na sua educação… o facto de sair de casa e depois me proibir de estar com o meu irmão, com o meu pai… São coisas que, com o tempo, nos vão dando insegurança, que nos vão criando medos, que nos vão tornando pessoas com mais questões, com mais dúvidas, mais inseguras.

 

E adaptou-se facilmente, depois desse primeiro impacto?

Eu acho que depois até consigo, se calhar com alguma rapidez, esquecer um pouco aquilo que estava para trás e adaptar-me com alguma facilidade.

O cenário era um cenário difícil. E o meu caso não era o pior. Naquela instituição tínhamos crianças que já não tinham pais. Crianças cujos pais eram pessoas aditas, em que tinham problemas financeiros, que tinham condições se calhar ainda piores que aquelas em que eu nasci, em que eu vivia até aos quatro ou cinco anos. Era uma realidade bastante dura, bastante dura mesmo. E a parte boa daquilo é que ali tínhamos, enquanto aquilo funcionou, tínhamos uma cama para cada um, tínhamos refeições supostamente às horas e nós não tínhamos isso em casa. Houve coisas muito boas, aliás.

 

Mas foi nessa instituição que aconteceram os abusos de que foi vítima…

Sim. Foi aí que as coisas aconteceram. Foi aí que o abuso aconteceu. E hoje tenho a noção que aconteceram desde, talvez desde o primeiro impacto que eu tive com essa pessoa. De uma forma diferente, como é óbvio.

O abuso terá começado no primeiro ou no segundo contacto que existe com essa pessoa.

Há uma ideia das pessoas em geral de que o abuso é uma coisa que tem que ser repentina (e que também acontece, infelizmente, não é?), mas nem sempre é o caso. Há casos em que o abuso é feito de outra forma. E não sei se é pior ou melhor… quer dizer, melhor nunca será, não é? Ambos são muito maus. Ambos são horríveis.

Repare, como é que alguém é capaz de fazer uma coisa deste género? Nós estamos a falar de crianças com quatro ou cinco anos! Como é que alguém se aproxima de uma criança, nas condições em que aquela criança se encontra? É uma criança ferida, com falta de amor, com falta de carinho... Como é que alguém se aproveita de tudo isso e vai envolvendo a criança num processo de sedução, numa forma de manipulação.

 

E o Tiago acha que essa manipulação começou logo assim que entrou na instituição?

Começou logo nesse primeiro contacto com o abusador. Eu não tinha noção disso. Até há pouco tempo, nem tinha bem noção como é que isto tudo teria acontecido…

Uma das coisas que acontece com os sobreviventes é achar que isto se calhar nem é... Colocamos sempre o sentimento de culpa, de achar que isto acontece por minha causa.

 

E o Tiago passou por todo esse processo, também? Sentiu-se culpado?

Sim. Passei pelo processo de achar que não era abuso.

A noção de que isto aconteceu desta forma foi-me dada a conhecer durante este processo com a Quebrar o Silêncio. Com a terapia e com alguém que está por dentro do assunto, com alguém que está habituado a lidar com este tipo de situações, que passou pelo mesmo e que nos vai explicando que, neste tipo de situações, isto acontece daquela forma.

É horrível pensar que alguém é capaz de fazer isto. O abuso é muito mau, mas eu acho que a maneira como é feito é pior.

Tiago foi vítima de um dirigente da instituição onde a mãe o colocou aos cinco anos. Hoje, diz que talvez tenha sido enredado "na teia" do abusador, desde o primeiro momento. 

 

Posso perguntar-lhe o que é que aconteceu?

Lá está… isto foi acontecendo. Há uma aproximação por parte dessa pessoa, que, de resto, era uma pessoa que tinha um cargo importante na instituição. Era uma pessoa muito elogiada e era uma pessoa idolatrada, adorada por todos.

 

E esse estatuto também serviu para conquistar a sua confiança de alguma forma?

Eu acho que sim. Não só a minha, mas de nós todos. A maneira como nos referíamos àquela pessoa, como se falava dele, como se gostava dele… era absurda. Mais tarde, eu venho a aperceber-me e ponho em causa as intenções dele.

Era a pessoa que dava prendas de Natal e nós acho nunca tínhamos tido prendas de Natal. Era a pessoa que aparecia com um saco de chocolates, era a pessoa que levava as crianças a passear, era a pessoa que dava explicações. Era mesmo aquela figura que a maior parte de nós não tínhamos. Não tínhamos em casa uma pessoa que nos proporcionava aquela atenção, que nos proporcionava alguns momentos de felicidade. Nós nunca tínhamos tido aquilo.

 

Diz-me que não teve consciência de imediato que já estava a ser vítima de um processo de abuso sexual. Quando é que tomou consciência disso?

Eu só tomei consciência disso quando o abuso já estava a acontecer. Quando o abuso físico já estava a acontecer. Tomo consciência quando o à vontade daquela pessoa para tocar no meu corpo já natural. Acho que ele foi ganhando o espaço e à vontade com o tempo. Porque, até lá, já tinha tocado no meu corpo várias vezes. É quase como se eu nem tivesse noção que aquilo já estivesse saltado para ali, sabe?

Aos cinco anos, talvez não tenha havido um toque mais desadequado em partes mais íntimas. Mas, eventualmente, para essa pessoa ganhar a confiança… Ou seja, partimos do princípio que começa aí, começa com um olá, com um olhar, com uma prenda, com um afagar da cabeça, com... Percebe? Esses passos que parecem coisas tão normais, que parecem... Pelos vistos não eram. De repente, com mais dois anos ou três, tinha eu uns sete ou oito anos, já era um toque por baixo da roupa, já era uma mão por dentro da camisola…

Fui sendo embrulhado nessa teia, por mais que me fosse desconfortável. Eu acredito que tenha sido desconfortável, se calhar a primeira vez que ele me pôs a mão por baixo da camisola. Fica-se desconfortável, mas nem se reage muito… eventualmente, não se acha que aquilo é um abuso.

 

Ele tinha normalizado esses toques…

Ele tinha normalizado a situação. E foi normalizando. E eu acho que uma criança não vê as coisas por aí. Mesmo que seja um toque desconfortável. Não me sinto bem que alguém esteja a pôr a mão por dentro da minha camisola, mas era alguém que supostamente gostava de mim, não é?

Hoje tenho perfeita noção que aquilo já era um abuso, claro que sim. Já era um abuso. E esse toque por baixo da camisola passa de uma parte do corpo para a outra, até ele achar que tem liberdade para mexer em outras partes do meu corpo.

 

O Tiago seria a única vítima desse abusador? Apercebeu-se disso nessa altura?

Não. Nessa altura, não me apercebi. Como não me apercebi que estava a ser vítima disso.  

Como eu lhe disse, foi um toque por baixo da camisola, depois por dentro das calças, ainda fora dos boxers… mas, por mais desconfortável que fosse, com sete ou oito anos, é estranho, mas não se atribui maldade. E… quer dizer, é aquela pessoa que é falada bem por toda a gente, não é? Tinha um cargo especial ali, tinha tido um papel especial. Fazia parte da liderança da fundação.

E, quando somos mais pequenos, associámos o mal a uma coisa mais visível, mais física. O mal é quando nos dão uma estalada, quando berram connosco, quando nos tratam mal. E esse mal eu já o conhecia, de casa.

É difícil perceber que se está dentro disto, sabe? Que se está a ser manipulado, que se está a ser usado…

Quando, mais tarde, eu percebo que estou dentro disto tudo, que é este o jogo dele, que é assim que ele atua, ele revela-se outra pessoa. Ele aí mostra quem realmente é. Mostra que eu não sou como um filho para ele, como ele me dizia. Quando há uma tentativa de fuga, ele torna-se uma pessoa mais fria, com jogos emocionais. E, aí, ele já me tinha colocado numa situação em que eu não tinha mais ninguém em quem confiar. Eu nem tinha bem noção de onde é que ele me tinha colocado, mas ele colocou-me num sítio em que eu não tinha ninguém com quem pudesse partilhar isto. E eu nem tinha coragem de partilhar isto. Colocou-me num sítio em que havia total domínio da parte dele. E ele fazia questão de o mostrar, com atitudes, com olhares, com comportamentos.

 

Passou a ameaçá-lo? A agredi-lo?

Não. Nunca me agrediu. Nunca me ameaçou. Eu acho que ele nunca precisou disso.  

Acontecia, depois de alguns abusos, ele dizer-me coisas do género: “Tu és como um filho para mim, um dia vais ter os teus filhos…”. Não sei se isto é uma lavagem… Ou então quando eu tentava fugir desta situação, porque achava que aquilo não deveria ser assim, ele ignorava-me, não falava comigo, não me dava um bom dia. E fazia isto à frente de toda a gente. Mas tinha-me tão isolado, que só nós é que vivíamos aquilo.

 

Quando é que o Tiago toma a consciência de que não era normal?

Eu acho que isso acontece na primeira vez em que ele… Não há outra forma de o dizer… Tomei consciência de que não era normal no dia em que ele me masturbou. E depois quer fazê-lo mais vezes.

 

Lembra-se da idade que tinha, mais ou menos, quando isso aconteceu?

Eu creio que teria uns 14 anos.

Ele revela-se porque eu acho que é a primeira vez que eu impeço a aproximação, o contacto...

 

Ele fez as coisas de forma que fosse o Tiago depois a pedir-lhe, a pedir-lhe o contacto, o carinho…?

Exatamente. É, de resto, a forma como esses abusadores atuam, não é? Levam-nos para um sítio onde já não há mais ninguém. Só estas duas pessoas. Fica-se a depender desta pessoa e não se sabe muito bem como lidar…

 

O predador isolou a presa…

É mesmo assim. É mesmo isso. É exatamente assim que acontece. E ele faz-nos sentir a pior pessoa do mundo.

 

E depois ficou ainda na instituição durante mais três anos. Como é que foi a sua vida na instituição depois disto?

Foram três anos neste jogo de procurar o afeto dele e ele a cultivar isto. Mas tornando-se pior o comportamento dele em relação a esta tentativa de eu querer parar com isto, de eu começar a perceber que isto não é correto, que isto não faz sentido.

Nós nunca conversámos sobre isto. Eu nunca lhe disse eu quero parar com isto, mas mostrava-lhe que eu não queria aquilo. Afastava-me.

 

E ninguém se apercebeu? Ninguém tentou perceber porque é que de repente há esse desinteresse escolar? Ninguém tentou aproximar-se de si para o ajudar?

Sim, tentaram. Eu acho que depois os professores e os auxiliares da própria instituição começam a notar que há uma pessoa diferente, que vai perdendo interesse pela escola. Mas eu não dizia... e eles de certa forma também eram vítimas da manipulação dele.

 

Nunca desabafou com ninguém?

Não. Eu acho que isso nunca me passou pela cabeça. Eu acho que foi aí que eu comecei a sentir que se ele me tocava era porque eu o permitia. Começa a tal culpa.

Depois daquele percurso entre os 14 e 17 anos, além do desinteresse escolar, se calhar começo a tentar procurar respostas e a procurar solução para a minha tristeza, para a minha fúria. Começo também a ter comportamentos talvez menos adequados.  Começo a fumar, começo a experimentar algumas drogas ligeiras, e começo a perceber que ali é a minha zona de conforto, a única zona de conforto que eu tenho, para lidar com tudo aquilo que acontecia.

As pessoas começam-me a questionar porquê. As pessoas questionaram muito “como é que de repente tu chegas a isto, tu eras um bom aluno, e agora de repente já queres abandonar a escola e queres ir para… porque queres ir lá para fora” e eu não tinha resposta. A única pessoa que não me perguntou porque é que eu ia abandonar a escola foi ele. A única pessoa que não me perguntou porquê que eu ia sair do país foi ele.

 

Quando é que há um ponto final? É quando sai da instituição?

Quando eu decido abandonar a escola.

 

E o que é que lhe acontece após os 17 anos, Tiago?

Vim para o estrangeiro trabalhar.

 

Quando é que toma consciência que isso o afetou profundamente e resolve pedir ajuda psicológica?

Eu acho que acontece por volta dos 32 anos. Quando percebo que estou numa fase que já não consigo mais. Porque passei a vida toda a ouvir falar dessa pessoa, passei a vida toda a esconder isto. Passei a vida toda a ter de fingir que isto nunca aconteceu. E chega uma altura em que não se consegue mais. Não dá.

Procurei ajuda e foi uma coisa inteligente que eu fiz. Comecei uma terapia, estive durante dois anos com uma psicóloga e depois vi uma reportagem sobre a Quebrar o Silêncio e procurei a associação.

 

Hoje tem consciência do verdadeiro impacto que os abusos tiveram na sua vida? Consegue verbalizá-los?

 Não sei se tenho consciência de todos. Mas tenho muita mais consciência daquelas que foram as consequências. E foram muitas. Hoje, consigo ser mais tolerante comigo mesmo. E consigo perceber que esta ansiedade, a falta de confiança, os medos… tudo isto tem uma explicação.

 

Houve impacto, por exemplo, nos seus relacionamentos mais emocionais?

Sim. Completamente. É muito difícil aceitar um toque. Faz-me muita confusão. Às vezes é quase um despertar de tudo. Dependendo do sítio, dependendo da intensidade, dependendo do olhar…

E é horrível, porque não podemos abraçar uma pessoa sem que o toque… um amigo, um familiar… Quando alguém me coloca uma mão num ombro, o inconsciente rapidamente me coloca na cabeça uma situação semelhante à que vivi.

 

Ainda tem contacto com o abusador?

Não tenho. De todo. Mas ouço falar dele constantemente. Os meus melhores amigos, que estiveram comigo nessa instituição, continuam a falar muito dele, da pessoa excelente que ele é.

 

Nenhum deles sabe o que lhe aconteceu?

Há um com quem, por acaso, partilhei a história. É a única pessoa que sabe

 

E o que é que sente em relação ao abusador? O que é que sente quando falam dele?

Sinto uma tremenda injustiça que as pessoas continuam a falar dele dessa forma. Acho que ele não tem o direito de ser lembrado assim.

 

E porque é que aceitou dar esta entrevista?

Apesar de lhe ter pedido o anonimato, foi também para mostrar que a maioria destes abusadores não são as pessoas que dizem ser.

E depois, porque a minha história pode ser um alerta para estas situações, para quem está ou passou pelo mesmo. A minha história pode ser importante para alguém. E se eu puder ajudar alguém, ótimo.

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