Afinal escreve-se "tivesse ganho" ou "tivesse ganhado"? Damos a resposta

17 jul, 17:00
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Perante as dúvidas que surgiram com o título de um artigo de opinião publicado no site da CNN Portugal, pedimos a um especialista que nos esclareça em que situações devem ser usados os particípios passados - o regular e o irregular - do verbo ganhar

Pedro Santos Guerreiro, diretor-executivo da CNN Portugal, escreveu um artigo publicado na quarta-feira sobre os depósitos bancários. No título lia-se: "Se tivesse ganho os 230 milhões do Euromilhões depositava-os no banco? Errou".

Mas, mais do que a taxa de juro média dos novos depósitos, o que atraiu a atenção dos leitores foi sobretudo a forma verbal utilizada no título. Nos comentários e redes sociais houve quem apontasse com veemência que "tivesse ganho" estava errado, tanto que o autor do texto acabaria por alterar a forma de particípio do verbo ganhar e o título foi mudado para "se tivesse ganhado".

Perante as dúvidas, perguntámos a um especialista: afinal escreve-se tivesse ganho ou tivesse ganhado?

"Neste caso, as duas formas estão corretas", diz Lúcia Vaz Pedro, professora de Português e consultora permanente do Ciberdúvidas, site de esclarecimento de dúvidas de língua portuguesa.

Começando pelo início: há verbos que têm duas formas de particípio passado, uma regular e outra irregular. É o caso, por exemplo, do verbo limpar (limpo/limpado), gastar (gasto/gastado), aceitar (aceite/aceitado), cobrir (cobrido/coberto) ou prender (prendido/preso), entre outros.

Nestes casos, a regra diz o seguinte: "Usa-se a forma regular com os verbos ter e haver, a forma irregular com os verbos ser e estar", indica Lúcia Vaz Pedro. Porém, também aqui há exceções à regra e o verbo ganhar é uma delas. "O verbo ganhar admite as duas formas, podemos dizer 'ter ganhado' ou 'ter ganho'. É uma das exceções", confirma à CNN Portugal a professora de Português. 

"Se me perguntar, como professora de Português, o que prefiro? Prefiro 'ter ganhado' e 'ser ganho'. Digo sempre que, para não haver confusões, o melhor é aplicar a regra habitual e aí estará sempre correto", sugere a consultora do Ciberdúvidas.

O verbo ganhar não é a única exceção à regra: o Ciberdúvidas faz já referência, por exemplo, aos particípios passados dos verbos pagar e gastar, cujas formas regulares (pagado ou gastado) praticamente caíram em desuso em favor das formas irregulares - pago ou gasto.

'Na linguagem atual preferem-se, tanto nas construções com o auxiliar ser como naquelas em que entra o auxiliar ter, as formas irregulares ganho, gasto e pago, sendo que a última substituiu completamente o antigo pagado", refere a "Nova Gramática do Português Contemporâneo", de Celso Ferreira da Cunha e Lindley Cintra, citada precisamente pelo Ciberdúvidas.

O que também acontece, assinala Lúcia Vaz Pedro, nestes casos em que são admitidos os particípios passados regulares e irregulares dos verbos é "o fenómeno da hipercorreção, uma correção exagerada". "Quando existe uma regra tendemos a estendê-la a tudo", explica, sem recordarmos que pode haver exceções.

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