Eusébio e os golos que embalam os homens tristes

29 jan, 09:55
Eusébio

O adeus ao King

Este é um fim de semana especial. A MF Total chega à edição mil: um número redondo e sintomático da importância que a revista tem assumido na história do Maisfutebol. Para celebrar esta data, viajámos no tempo. Oito jornalistas escolheram a reportagem que mais os encantou escrever. Esta é a escolha de Luís Pedro Ferreira, foi publicada a 7 de janeiro de 2014 e viaja à procura de memórias do Rei nas ruas de Lisboa.

Boas leituras.

«Obrigado.»

Assim está escrito por debaixo do pontapé de Eusébio.

Um pontapé a preto e branco espalhado por Lisboa com o patrocínio da autarquia. A capital despede-se do King, o Pantera Negra do Benfica.

No dia em que Eusébio morreu, o sol brilhou. Terá reconfortado quem achou e acha que uma estrela chegou lá acima.

Mas nesta segunda-feira não. Porque é segunda-feira e porque a tristeza parece que se apoderou até do céu da cidade.

A tristeza, pois.

Esse sentimento que dobra e deixa os homens de joelhos. Que faz com que pessoas de cachecol encarnado se encostem à paragem do elétrico 28, na Rua da Conceição, com os dedos na cara, a limpar as lágrimas. Não é um choro. São lágrimas, apenas. Acabaram de dizer um último adeus a Eusébio, na Praça do Município.

Ali, havia homens e mulheres. Ricos, pobres, malta do trabalho, malta do desemprego. Malta de fato, malta de farda e outros que vieram conforme estavam. Velhos, novos, inválidos. Pessoas que levavam posters do King, outras que guardavam os momentos em máquinas fotográficas, ou no mais moderno Ipad. Eusébio juntou-os a todos.

E todos lhe disseram: «Obrigado.»

Numa salva de palmas, num cântico, na presença apenas.

Foi isso que Hugo Pacheco lá foi fazer. Estar.

Com o pescoço embrulhado num cachecol do rival Sporting, estava entre o edíficio da câmara e um palanque para os repórteres de imagem, antes de Eusébio chegar. Não há engano possível, este rapaz nunca viu o Pantera Negra em campo. Que razões tinha para estar ali?

«O Eusébio é a nossa cultura, Portugal é futebol e Eusébio é o rei. Para quem pode, é um dever estar aqui», diz Hugo, de 18 anos, ao Maisfutebol, enquanto trava fumo.

Outra coisa que não engana é a pronúncia.

«Sou do norte, de lá de cima [Vizela], estudo em Lisboa e apesar dos exames vim aqui despedir-me de um grande senhor», explica.

Estudante de Economia no ISEG, Hugo Pacheco apercebe-se do que se passa em redor. «O Eusébio ultrapassa as rivalidades, vejo aí pessoas com cachecóis de outros clubes, do Belenenses, do FC Porto. E depois do que vi ontem no estádio, tinha de estar aqui.»

Hugo sabe quem é e o que foi o King «através de familiares», através do «avô que também era sportinguista, mas sempre falou no Eusébio e de como ele marcou Portugal no mundo».

Hugo tinha de ali estar, ponto.

Há quem tenha estado por acaso, também. No meio de tanta gente, um homem e uma mulher loiros. Pálidos como por cá não há. Ou são raros. São suecos, vamos descobrir um pouco à frente, embora a aparência os denuncie já.

«Sabemos que esta gente está aqui por causa daquele jogador» - Toni aponta para a fotografia, a tal do pontapé a preto a branco. «Eusébio, não é? Não conheço grande coisa dele para ser sincero. Sei que jogou nos anos 60», refere ele, que na companhia de Erica tenta passar horas para apanhar o voo de regresso a casa.

«Estávamos a almoçar e vimos as imagens. É um pouco inesperado, toda esta gente», sorri, a apontar para o telhado que fica à direita da câmara, quando se vê a autarquia de frente. «Se calhar, só vou ver isto de novo daqui a 50 anos, quando for a vez do Zlatan [Ibrahimovic]», riu. Tristeza aqui não há, mas há noção histórica do momento.

Uma hora antes, havia uma multidão no Estádio da Luz. Quase ninguém na Avenida da Liberdade.

Só no Rossio se começa a ver gente em maior número. A Rua do Carmo continua a dar Fado a quem passa.

Mas é na Praça do Munícipio que o povo se junta. E espera.

Atenção, há gritos de revolta!

Protesta-se pela ausência da bandeira nacional, protesta-se pelo estado das coisas. «Sou alentejano e escapei à PIDE algumas vezes porque falei no Eusébio!» Parece claramente um exagero deste homem que, no meio da multidão, se ouve mais do que todos. Mais correto, faz-se ouvir. A câmara lá explica as causas da ausência da bandeira e o protestante acalma. Até porque lhe lembram que o que importa ali é aquele «obrigado» ao Pantera Negra.

O momento surge por fim. Eusébio chega, há as tais palmas, há os tais cânticos, há povo separado do rei pela imposição da polícia. Há uma homenagem singela.

E Eusébio parte rumo à Igreja da Luz.

Como a bola num livre do King, o povo passa a barreira e chega ao destino. Está perto de Eusébio, do ídolo, do carro que leva o rei.

«Tanta gente sem nada para fazer», critica um, cá atrás, sem perceber que sim, que é mesmo verdade, que muita gente não tem mesmo nada para fazer porque não há trabalho, porque o país está negro e não é só pelo luto de três dias.

«Ridículo» exclama ao lado um outro, daqueles que não veem qualquer grandeza no homem mas que foram ali, se calhar apenas porque sim.

Mas em frente à câmara também há gente como o senhor Lopes. António é o primeiro nome deste homem triste. Um benfiquista que garante não ter dor pela morte de Eusébio -«É a vida, sabia que ia chegar» - Apenas tristeza.

«Vim cá dizer-lhe obrigado, como está ali escrito [na foto, a tal]. Obrigado porquê? Por me ter feito sonhar!»

António limpa o rosto com um daqueles lenços que os homens [mais] velhos ainda trazem no bolso.

«Sabe, eu vi Eusébio jogar algumas vezes, mas antes de o ver, ouvi-o. Estive na guerra de África e ele ajudou-me a passar o tempo que lá estive. Quando podíamos, ouvíamos os jogos. Não era só do Benfica, porque havia gente de todos os lados. Mas eu já era do Benfica e quando não estava a pensar na família, estava a pensar como é que o Eusébio tinha marcado os golos. Era mesmo assim. Nos dias de jogos, quando tentava adormecer, pensava nas jogadas, nas conversas que tínhamos tido entre camaradas sobre o jogo. Ficava a sonhar acordado com aquilo e, nem que fosse por um bocadinho, esquecia onde estava. O Eusébio foi real, mas foi um homem que nos levou para lá da imaginação. A mim levou e sei que a outros camaradas também.»

A mão do senhor Lopes vai ao bolso outra vez. A tristeza escorre-lhe pela cara. Tudo o que diz ganha realismo naqueles olhos.

António não tem emprego. Conta que está assim vai para ano e meio quando lhe perguntamos a profissão. E agora que Eusébio se foi, quem lhe alimenta os sonhos? «Terá de ser ele na mesma, a grandeza dele é essa, continua aqui», aponta António para a cabeça.

A cabeça em vez do coração.

E mais não diz, pede perdão e vira costas. Vai embora triste, percebe-se. Como triste parece estar o mais duro dos tipos, no lado oposto do largo da câmara, momentos depois, quando Eusébio conseguiu por fim fintar a multidão.

Um homem de ténis, calças de fato de treino, casaco vermelho, boné preto e cachecol de uma claque do Benfica. Um homem com ar duro forjado no ferro de um ginásio qualquer. Sim, lacrimeja. E não recebe nenhum ombro amigo.

Só tem conforto na companhia da bandeira de Lisboa a meia-haste. Como estão as outras de Portugal pelo país.

Bandeiras também elas dobradas pela tristeza, curvadas perante a grandeza de um homem que chegou a Lisboa com a ilusão de um menino e partiu como um King.

Partiu como um rei por causa dos mais de 700 golos marcados, por causa da segunda Taça dos Campeões Europeus do país, por causa de todas as vitórias, da Bola de Ouro, das Botas de Ouro, do Mundial de 1966.

Partiu Rei também por causa dos sonhos do senhor António.

«Obrigado», disse Lisboa.

«Obrigado», disseram os Antónios desta vida.

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