Raspadinhas: "Se não sair prémio, a pessoa vai jogar até sair alguma coisa". Os oito sinais de alerta para o perigo de estar viciado no jogo

19 set, 19:00
Raspadinha

Segundo o psicólogo Tiago Pereira, os portugueses são mais viciados do que os outros povos europeus

Tiago Pereira, psicólogo e membro da direcção da Ordem dos Psicólogos, conta, numa entrevista à CNN Portugal, que comportamentos revelam um possível problema com o jogo das raspadinhas. Isto depois de um estudo da Universidade do Minho ter indicado que há 100 mil portugueses com perturbações de jogo patológico. A  raspadinha é uma lotaria considerada o jogo mais popular da Santa Casa da Misericórdia. 

Um estudo da Universidade do Minho revelou que cerca de 100 mil portugueses têm problema de jogo com as raspadinhas. Porque é que este tipo de jogo é tão viciante?

Estes jogos são particularmente aditivos por terem um custo muito baixo. Além disso, também se destaca o facto do prémio ser rápido e instantâneo, o que gera uma procura constante. Tem a ver com um hábito patológico relacionado com a gratificação, o prémio imediato. 

É um jogo muito intenso e completamente acessível. Está construído para ser mais fácil para as pessoas jogarem. É algo viciante pelas suas características, o que impacta negativamente as pessoas que estão mais predispostas ao vício.

Há um problema significativo no nosso país que explica o motivo do jogo ser tão viciante: Tornou-se um comportamento cultural. As pessoas partem do princípio que todos jogam, é algo socialmente aceite, e isso gera a vontade de jogar. Esta dimensão cultural afeta mais as pessoas vulneráveis. 

Os próprios locais onde é vendido influencia negativamente os compradores. Pode ser acessível nos cafés, nos espaços onde as pessoas buscam a sua reforma, por exemplo, é algo sempre presente na vida diária das pessoas. 

Quais são os sinais de alerta que uma pessoa desenvolve e que demonstra o seu vício pelas raspadinhas?

  • Nota-se alguma ansiedade quando não tem acesso ao jogo
  • A necessidade de remeter a estes consumos para se sentir bem
  • Quando uma pessoa vai a algum estabelecimento comercial por um determinado motivo, mas aproveita e adquire também uma raspadinha. Trata-se da associação entre um comportamento e o consumo
  • De um ponto geral, as pessoas predispostas a estes tipos de jogos são mais impulsivas, não conseguem se controlar. Têm dificuldades em auto regular as suas emoções
  • Os indivíduos dependentes têm mais dificuldades em tomar decisões a médio e longo prazo, é difícil realizarem um planeamento
  • A escassez das dimensões cognitivas, a ansiedade, também faz com que as pessoas estejam mais predispostas ao consumo
  • Se não sair prémio, a pessoa vai jogar até sair alguma coisa. É um ciclo de compra compulsiva
  • Também tem a ver com a dimensão socioeconómica, as condições monetárias e económicas de cada pessoa.
Tiago Pereira, psicólogo e membro da direcção da Ordem dos Psicólogos

Que cuidados devemos ter para não sermos vítimas deste vício?

Devemos evitar a forma como associamos esta compra a outros momentos de prazer, por exemplo ir ao café. Não devemos, portanto, juntar esta vontade a outro comportamento social. 

Em alguns países as pessoas auto excluem-se da participação nestes jogos. Conseguem identificar o problema e não se juntam ao jogo. Na Suécia, por exemplo, há um sistema no qual a pessoa tem estabelecido um limite do valor que pode gastar mensalmente neste tipo de jogos e isso ajuda a controlar. Ou até mesmo um tempo limite que pode usufruir. 

Os portugueses são particularmente dependentes das raspadinhas em relação a outros países?

Sim, os portugueses são realmente aditivos relativamente às raspadinhas. Os próprios números do estudo divulgado o evidenciam. 

Em outros países existem problemas com este tipo de jogos, mas não forma um problema principal. No caso de Portugal, há um processo de naturalização desta prática que a torna em si um problema. É algo aceite do ponto de vista social e às vezes até vendido através de publicidade por causas sociais mais importantes. 

Em Espanha, existe a lotaria El Gordo que é apenas jogada uma vez por ano. As raspadinhas no caso é algo sempre acessível e que afeta negativamente as pessoas com mais vulnerabilidade, isto é, com excassez das dimensões cognitivas, e também as pessoas com menos recursos económicos. Para tentar resolver estes problemas, criam outros problemas aditivos sem se aperceberem.

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