A última entrevista de Miguel Sousa Tavares: "Tive o privilégio de conseguir fazer da minha paixão uma profissão”

4 out, 22:59

O jornalista fechou a carreira com uma entrevista a Marcelo Rebelo de Sousa. "Estou para ver se o jornalismo não o chama outra vez", disse-lhe o Presidente, no final

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"Muito obrigado a quem esteve comigo ao longo destes 45 anos de jornalismo." Foi com estas palavras, antes do "boa noite" com que deu por encerrado o Jornal das 8, que Miguel Sousa Tavares terminou a entrevista ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e terminou também a sua carreira como jornalista. 

Terminou mesmo? Marcelo duvida. "Agora, estou para ver se o jornalismo não o chama outra vez", disse-lhe, em jeito de desafio, quando as câmaras se desligaram. O jornalista baixou a cabeça e sorriu. 

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Por ser especial, a entrevista não se realizou no estúdio da TVI mas na "Sala Dourada" do Palácio de Belém. Sob o enorme lustre foram colocadas duas cadeiras, duas mesinhas, dois copos de água. Quatro câmaras, vários focos de luz. Na "Sala de Jantar", mesmo ao lado, a mesa em vez de pratos e talheres recebeu os produtos de maquilhagem.

Miguel Sousa Tavares chegou, calmamente, pouco depois das 19.00, trazendo apenas uma pasta azul com alguns documentos.

Vai fechar a carreira com chave de ouro?, perguntámos-lhe. “Depende de como correr a entrevista”, respondeu, reconhecendo no entanto a sua satisfação por poder terminar a carreira com uma entrevista a "este presidente" (e sublinhou o "este") que conseguiu ser consensual na sua importância política e cívica.

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Antes das 20.00, Marcelo Rebelo de Sousa veio cumprimentar os jornalistas. Sempre de máscara, a conversa de circunstância com Miguel Sousa Tavares e Anselmo Crespo, diretor de informação da TVI, começou na recente viagem do Presidente a São Tomé ("a água estava ótima", garantiu) e passou pela situação política no Brasil e a crise dos media.

Marcelo despediu-se com um até já. Ainda houve tempo para Sousa Tavares fumar um cigarro na varanda com vista para os jardins e o rio Tejo ao fundo. Depois, enquanto cá fora a produção aprontava os últimos detalhes para o direto, o jornalista sentou-se no seu lugar de entrevistador. Ficou sozinho na sala, em silêncio. Durante uns minutos, reviu as perguntas que tinha preparado. Levantou-se para fumar mais um cigarro. E estava na hora.

A primeira pergunta foi sobre os "equívocos" em volta da demissão não concretizada do Chefe de Estado Maior das Forças Armadas. E a entrevista prosseguiu por mais de 30 minutos.

Miguel e Marcelo conhecem-se desde a faculdade

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Foi uma conversa entre dois homens que se conhecem há muito. Marcelo Rebelo de Sousa, atualmente com 72 anos, e Miguel Sousa Tavares, de 69, conheceram-se em 1969, na Faculdade de Direito de Lisboa. Quando Miguel entrou, Marcelo já estava no quarto ano. Marcelo era um dos melhores alunos do curso, com 19 valores, Miguel era um aluno mediano. Marcelo era afilhado de Marcello Caetano, professor da Faculdade, que tinha acabado de ser nomeado Presidente do Conselho, Miguel andava a explorar os movimentos de esquerda, sem se filiar em nenhum, acabando por descobrir-se um social-democrata.

“A mim o que me interessava era a agitação política", contou Sousa Tavares no seu livro de memórias, “Cebola crua com sal e broa”, editado em 2018.

Mas a posição política de Marcelo, na Faculdade de Direito, nesses tempos de agitação política constante - com greves, boicotes às aulas, ocupações da Reitoria, cargas da polícia de choque, etc. - era bem mais difícil do que a minha. Marcelo era afilhado do Presidente do Conselho, símbolo do regime e da ditadura, filho de um ministro desse Governo e ex-Governador-Geral de Moçambique, em plena guerra colonial. Ele não queria ser conotado com o regime, mas também não se podia permitir passar por oposicionista.”

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Apesar disso, o jovem Marcelo abordou Miguel na faculdade para falarem sobre política mas, como este não se mostrasse muito interessado, numa segunda abordagem falou sobre poesia.

Essa capacidade de procurar sempre a palavra certa para chegar a qualquer um, o que mais possa agradar ao seu interlocutor, é um traço determinante da personalidade do hoje Presidente da República. Revela uma extraordinária atenção aos outros, que é uma fórmula infalível de criar o tais “afectos” (odeio esta palavra) com que ele chegou onde chegou", escreveu Sousa Tavares.

Haveriam de se encontrar muitas vezes depois disso. Rebelo de Sousa esteve na fundação do semanário "Expresso", em 1973, onde chegou a ser diretor em 1979. E, depois, esteve também na criação do "Semanário". Enquanto isso, Sousa Tavares percebia que não queria seguir uma carreira na advocacia e acabaria por, em 1978, trocar definitivamente o escritório do pai pelas redações.

Ao longo dos seus 45 anos de carreira, Miguel Sousa Tavares tornou-se uma figura incontornável do jornalismo português - fazendo entrevistas, moderando debates (foi ele que moderou o famoso debate entre Soares e Freitas durante a campanha presidencial de 1986), fazendo reportagens (esteve na fundaçao e foi diretor da "Grande Reportagem" durante dez anos), escrevendo artigos de opinião (no "Público" e no "Expresso"), fazendo comentário político. Teve opiniões polémicas (sobre o tabaco, sobre o acordo ortográfico e sobre touradas, por exemplo) e fez inimigos pelo caminho. Foi rosto das três estações de televisão, RTP, SIC e TVI - e é aqui que termina a sua carreira no jornalismo.

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Apesar da proximidade com o mundo da política, nunca teve vontade de ser político. Mesmo que tenha sido tentado - inclusivamente por Marcelo Rebelo de Sousa que, quando era líder do PSD (1996-99), o desafiou a integrar as listas do partido às legislativas como independente. Sousa Tavares recusou mas elogiou-lhe a vontade de abrir o partido à sociedade.

Mesmo não sendo um adepto da tal política dos "afetos", ao ver Marcelo Rebelo de Sousa a tomar posse como Presidente da República, em 2016, afirmou que "é difícil não pensar ‘aqui está alguém que cumpriu o seu sonho’”. Numa entrevista, na altura do lançamento das memórias, o jornalista admitia um certo constrangimento quando se cruzava com o antigo colega de curso: "Tenho um problema quando o encontro, o de não saber como o tratar. Por "senhor Presidente" faz-me uma enorme confusão, pois 15 dias antes de ser eleito tratávamo-nos por tu..."

"Vou torcer muito para que as mais jovens gerações estejam à altura do desafio"

Miguel Sousa Tavares não sabe quantas vezes já entrevistou Marcelo ao longo da sua carreira. Nas entrevistas, a formalidade é necessária. Sentados frente a frente não são amigos, são jornalista e Presidente da República, entrevistador e entrevistado. Depois, voltam a ser velhos conhecidos.

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"Correu bem?", pergunta Rebelo de Sousa assim que terminam. "Não tenho noção se foi fluida ou interessante."

"Não acredito que o jornalismo não venha a insistir para que volte", repete o Presidente. "Não agora, mas mais tarde, depois de umas férias." Na sua opinião, Miguel Sousa Tavares "faz muita falta", antes de mais, porque "teve, de facto, uma independência constante e total, de partidos, de pessoas, de opiniões". Depois, porque tem uma "opinião muito forte", "tem memória e história", "analisa o que se passa à luz de um plano estrutural", e, por fim, porque "tem mundo" e "isso faz toda a diferença".

Terminada a entrevista, Sousa Tavares tira o microfone e o auricular. É hora de tirar também a maquilhagem. Por agora, acabou. Os planos para a reforma incluem, provavelmente, publicar mais livros e, seguramente, continuar “sempre a seguir o mundo da informação”. “Antes de ser jornalista já eu consumia ferozmente informação” e assim pretende continuar, garante.

Vou torcer muito para que as mais jovens gerações estejam à altura do desafio, que nunca foi tão grande, de lutar contra a desinformação e as falsas informações e defender a verdadeira informação. Que não percam o entusiasmo por esta missão que é tão importante.”

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Para Miguel Sousa Tavares, o jornalismo “é uma missão e uma paixão”. E reconhece:

Eu tive o privilégio de conseguir fazer da minha paixão uma profissão.”

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