Corpos que se transformam em solo fértil: Nova Iorque aprovou a compostagem humana

CNN Portugal , MJC
2 jan, 11:26
Micah Truman, CEO da Return Home, agência funerária norte-americana que realiza compostagem humana (AP)

O processo não é bem visto pela igreja católica, mas há quem argumente que é bastante mais ecológico e até económico

O estado de Nova Iorque legalizou a redução orgânica natural após a morte, geralmente conhecida como compostagem humana. 

Nova Iorque torna-se, assim, o sexto estado americano a permitir esta medida, dando acesso a um método alternativo e ecológico de enterro. Washington foi o primeiro estado a legalizar a compostagem humana em 2019, seguido por Colorado e Oregon em 2021, depois Vermont e Califórnia no final de 2022.

Como é que isto se processa? Os restos mortais devem ser entregues a uma agência funerária certificada para este tipo de procedimento. Na maioria dos casos, o corpo é colocado numa cama de lascas de madeira, alfafa ou palha – ideal para os micróbios realizarem seu trabalho - que é depois inserida numa câmara de redução orgânica, à temperatura certa e adequadamente ventilada. No final do processo, que pode durar seis a oito semanas, é produzido um metro cúbico de solo denso em nutrientes, equivalente a 36 sacos de terra, que é depois entregue aos familiares e pode ser usado como fertilizante.

Os defensores deste processo dizem que este é económico e também ambiental. “Devemos fazer tudo o que seja possível para afastar as pessoas de campas de cimentos, caixões sofisticados e embalsamamento”, explicou ao The Guardian Michelle Menter, gerente da Greensprings Natural Cemetery Preserve, no centro de Nova Iorque. 

No entanto, a medida provocou um intenso debate na sociedade civil e a governadora de Nova Iorque, Kathy Hochul, enfrentou um dilema político no momento de votar esta legislação. Hochul sempre falou abertamente sobre como as suas raízes irlandesas e católicas influenciavam a sua visão política.

A Congregação Católica do Estado de Nova Iorque encorajou os seguidores da igreja a pressionar Hochul para vetar o projeto de lei. A organização argumentou que o processo “não presta o respeito devido aos restos mortais”, segundo se lê no jornal da Congregação. “Um processo que é perfeitamente apropriado para devolver restos de vegetais à terra não é necessariamente apropriado para corpos humanos”, disse Dennis Poust, diretor executivo da organização, em comunicado. 

Por outro lado, o coletivo de arte Ordem da Boa Morte instou Hochul a assinar o projeto e ofereceu uma série de cartões decorativos e coloridos com as frases “Compost Me” ("composta-me") e “I Want to Be a Tree” ("quero ser uma árvore")  para enviar à governadora.

Outros argumentaram que as pessoas querem um método de enterro que esteja de acordo com a forma como viveram suas vidas. “A cremação usa combustíveis fósseis e o enterro usa muita terra e tem uma grande pegada de carbono”, disse Katrina Spade, fundadora da Recompose, uma agência funerária verde em Seattle. “Para muitas pessoas, ser transformado em solo que pode ser usado num jardim ou dar origem a uma árvore é muito importante”, disse Spade à Associated Press.

A compostagem humana já é legal em toda a Suécia. E enterros naturais - nos quais um corpo é enterrado sem caixão ou com um caixão biodegradável - são permitidos numa série de outros países.

E.U.A.

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