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Marega: de caso em caso até ele dizer não, sozinho

17 fev 2020, 23:55

Foi a primeira vez que alguém em Portugal abandonou o campo contra o racismo e chamou a atenção como nunca. À espera de ver o que muda. Porque já aconteceu antes, tantas vezes

Marega, sozinho, disse não. Saiu de campo, foi-se embora. Farto dos «idiotas que vêm ao estádio fazer gritos racistas». Foi a primeira vez que alguém em Portugal o fez e chamou a atenção como nunca. Um despertar de consciências inédito por cá, à espera de ver que consequências terá de facto. Porque na verdade as manifestações de racismo em estádios já aconteceram antes, em Portugal, lá fora, tantas vezes, a ameaçar banalizar a discriminação e o preconceito, aquilo a que Marega disse não.

Aconteceu mesmo depois de haver jogadores a expor o que se passava, a recusar deixar aquilo passar em claro. Uma e outra vez. Quem se lembra de Marc Zoro? Passaram 15 anos desde aquele que foi um dos primeiros casos com grande impacto mediático de racismo em campo. Em Itália, em novembro de 2005. O defesa da Costa do Marfim jogava no Messina e naquele dia, frente ao Inter, não aguentou mais os gritos de macaco que chegavam das bancadas. Pegou na bola e quis sair de campo. Convenceram-no a ficar, as imagens do brasileiro Adriano a dissuadi-lo correram mundo. O episódio teve enorme repercussão, pedidos de desculpas do Inter, atraso no início dos jogos na jornada seguinte da Serie A num protesto simbólico.

Zoro não era caso isolado, como não é Marega. Também em Portugal. Basta recordar estes testemunhos recolhidos pelo Maisfutebol em fevereiro de 2006, há 14 anos.

Os anos passaram, as autoridades e organizações com responsabilidades anunciaram medidas e campanhas, sanções mais pesadas. E continuou a acontecer. Voltou a acontecer com Zoro, que entretanto deixou Itália, até passou por Portugal, assinou pelo Benfica e jogou no V. Setúbal. Em 2014 estava na Grécia, treinado por Sá Pinto, e quando voltou a ouvir os gritos de macaco vindos da bancada dirigiu-se ao árbitro. Viu um cartão amarelo, antes de o árbitro perceber o que se passava e pedir desculpa. Na altura, Zoro falou com o Maisfutebol sobre esses dois momentos: «Não mudou nada desde aquele dia com o Messina.»

E agora, será que vai mudar, por cá? O caso de Marega é único, nunca atos racistas em campo tiveram impacto sequer próximo do que aquele que a atitude do avançado do FC Porto provocou. Mas eles sucederam-se ao longo dos anos, ainda que seja curta a lista de episódios que tiveram consequências disciplinares. O Maisfutebol recorda esses casos, a partir também de dados recolhidos pela agência Lusa, e tendo o início dos anos 2000 como referência.

Do Boavista e FC Porto na Europa a Hulk e Nélson Semedo

Em novembro de 2001, o Boavista caiu sob alçada da UEFA por comportamento racista dos adeptos num jogo da Liga dos Campeões com o Liverpool. O visado foi o avançado Emile Heskey e o clube foi condenado a uma multa de 15 mil euros.

Foi também no plano europeu que surgiu outro dos processos mais antigos envolvendo equipas portuguesas. Em fevereiro de 2012, uma queixa do Manchester City alegando insultos a Mario Balotelli e Yaya Touré em jogo da Liga Europa com o FC Porto levou a UEFA a abrir inquérito. Os «dragões» falaram em mal-entendido, antes de o Comité de Controlo e Disciplina do organismo se decidir por uma multa de 20 mil euros.

Por esses dias outro caso passou sem consequências, ainda que tenha tido repercussão mediática. No início de março, na Luz, Hulk foi alvo de cânticos racistas, bem antes de marcar golo na vitória portista por 3-2 frente ao Benfica. O avançado brasileiro falou sobre isso mais tarde. Esta foi uma de muitas situações que ao longo dos anos se ficaram por alguns comentários no espaço público. Como aquela que envolveu Nélson Semedo, em 2017, também num jogo com o V. Guimarães. O então defesa do Benfica teve um gesto na direção do público, em reação a insultos, do qual falou agora, dizendo que se fosse hoje teria feito o mesmo que Marega.

Leixões, uma banana e porta fechada

Voltando à cronologia dos casos portugueses, o Leixões teve em 2013 um castigo à porta fechada, por incidentes num jogo com o Belenenses, suspenso. Novos incidentes em 2015, com manifestações racistas em jogos com o Desp. Aves, o Farense e o Oriental – neste caso com uma banana atirada da bancada – levaram à decisão de forçar o clube a jogar dois jogos à porta fechada, confirmada em maio de 2016.  

Em março de 2017 foi o Rio Ave a ver-se envolvido em processo disciplinar por cânticos racistas contra Renato Sanches, num jogo com o Benfica, decidido com uma multa de 536 euros. No final desse ano o Sp. Braga foi condenado inicialmente a um jogo à porta fechada e multa de 22.950 euros, por comportamento racista dos adeptos em jogo com o Desp. Aves, mas recorreu e em janeiro de 2018 anunciou que tinha sido absolvido. Tal como o Paços Ferreira, que tinha sido indiciado também nessa época, por incidentes em jogo com o Estoril.

Denúncias também no feminino

Em fevereiro de 2018, o vimaranense Konan denunciou nas redes sociais ter sido alvo de insultos racistas depois da derrota com o Boavista. O próprio V. Guimarães, no final desse ano, anunciou que iria fazer uma exposição à Federação, denunciando racismo e agressões à sua equipa de sub-15 no jogo com o Boavista. O clube axadrezado negou e os desenvolvimentos do caso não foram tornados públicos.

Em 2019 chegaram ao espaço mediático casos também no feminino. Em abril, um incidente entre jogadoras, depois de uma queixa da boavisteira Milena Bispo resultou numa suspensão por 30 dias a duas jogadoras do A-dos-Francos, Maria Malta e Catarina Lopes. Há quatro meses, em outubro de 2019, a norte-americana Shade Pratt, do Sp. Braga, denunciou nas redes sociais ter sido alvo de um insulto racista no jogo com o Cadima, da Liga feminina. O clube anunciou que faria uma participação disciplinar à Federação.

Também já esta época, o FC Porto viu arquivado pela UEFA um processo disciplinar por alegados insultos racistas no jogo da Liga Europa com o Young Boys, ao qual Sérgio Conceição tinha reagido dizendo-se convicto de que não há racismo em Portugal.

Bernardo Silva, o caso que dividiu opiniões

Um caso exemplar da complexidade da questão do racismo foi o que envolveu Bernardo Silva, também já esta temporada. O português foi suspenso por um jogo e condenado a 60 mil euros de multa depois de uma brincadeira no Twitter com Mendy, seu companheiro de equipa no Manchester City, que propagava um estereótipo considerado racista pela Federação inglesa. A forma como o episódio dividiu opiniões ilustra bem como há um imenso debate a fazer sobre o tema.  

Apesar das declarações de intenções, apesar também de ações concretas, não há sinais de que os incidentes racistas nos estádios estejam a abrandar. Aconteceu há menos de um mês em Espanha com Iñaki Williams, pouco antes em Itália com Mario Balotelli, no final do ano o caso chocante de Taison, jogador do Shakhtar Donetsk expulso depois de reagir a insultos racistas de adeptos.

Esperança, de Marega ao exemplo que chega da Alemanha

Na conversa com o Maisfutebol depois do incidente na Grécia, Marc Zoro acabava a manifestar a esperança de que as coisas fossem mudando «pouco a pouco». Talvez o gesto de Marega e as reações que se seguiram venham a ser um passo nesse caminho.

Ou a forma como um estádio reagiu na Alemanha, dois dias antes do V. Guimarães-FC Porto, a um episódio de racismo. Num jogo da 3. Bundesliga, um adepto do Preussen Munster insultou Leroy Kwadwo, jogador do Wurzburguer Kicker. O jogo foi interrompido, o público ajudou a identificar o homem, que foi escoltado para fora do estádio, enquanto nas bancadas se gritava «Fora, nazis».

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