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Destino Paris: Ana Cabecinha, a atleta por acidente que vai ser mãe a três meses dos Jogos

17 abr, 09:00
Ana Cabecinha (FOTO: Federação portuguesa de atletismo)

A história da marchadora que começou a praticar desporto depois de uma grave queda em criança, que tem quatro presenças olímpicas, ficou grávida meses depois de se qualificar para uma quinta participação e sonha agora despedir-se com o seu bebé ao colo, depois de cortar a meta em Paris. A 100 dias dos Jogos Olímpicos, ela é a primeira convidada para uma série de conversas com Paris no horizonte

Faltam 100 dias para os Jogos Olímpicos de Paris e o Maisfutebol assinala a data dando início a uma série de conversas com atletas portugueses já qualificados. São 40 nesta altura, ainda com várias modalidades por definir. Estas são as suas histórias.

Ana Cabecinha participou em quatro Jogos Olímpicos e no verão passado conseguiu a marca de qualificação para chegar à quinta presença. De lá para cá, a vida dela mudou. Passaram a ser duas vidas, agora com um bebé por nascer. Ela continua a ter Paris em mente e foca-se numa imagem. Vê-se a cortar a meta dos 20km marcha, no momento que marcará o ponto final numa carreira de mais de duas décadas, e depois a pegar em Lourenço ao colo. É a essa ideia que se agarra para compensar o cansaço do fim da gravidez, que lhe enche os dias.

«Está a ser completamente fora do que estou habituada. Com tantos anos de atleta nunca pensei que esta fase final da gravidez fosse custar tanto. Está-me a custar muito o cansaço», diz ao Maisfutebol, numa conversa ao início da tarde, já depois de uma manhã de treino. Tem sido essa a sua rotina, desde que descobriu que estava grávida. Depois do choque, claro.

«Quando soube já estava quase com três meses. Já estava na pré-época a treinar bastante, e bem. Só que depois o corpo ressentiu-se. Estava a gerar um bebé e não sabia. Comecei a sentir febres, parecia que estava doente. Pensava que era um vírus, uma constipação, sei lá. Ponderou-se ser covid», ri-se, a recordar aqueles dias de confusão.

Contada por ela, esta é a história do percurso da recordista nacional dos 20km marcha, que foi campeã de juniores, bicampeã iberoamericana, esteve em sete Campeonatos do Mundo e terminou quatro vezes a competição com os Jogos Olímpicos como palco, três delas entre as oito primeiras classificadas.

A gravidez, o choque e uma decisão difícil

Há muito que Ana Cabecinha queria ser mãe. Fez planos para que acontecesse depois dos últimos Jogos Olímpicos, mas teve uma primeira gravidez que não avançou. «Tinha o objetivo delineado de parar a seguir a Tóquio, fazer uma pausa para ser mãe. Mesmo mentalmente eu precisava, tinha tido um ano muito desgastante. A gravidez era um ótimo escape para parar. Mas infelizmente não aconteceu, tive um aborto.»

Então, voltar a focar-se no atletismo foi como uma terapia. «Tive de me agarrar ao desporto para superar o trauma.»

A culminar os resultados de alto nível que conseguiu nesse período, em agosto de 2023 terminou os 20km marcha dos Mundiais de Budapeste no nono lugar. Com 1h28m49s, superou em 31 segundos a marca de qualificação para os Jogos Olímpicos de Paris.

Foto António Fernandes

«Voltei a agarrar-me ao atletismo com unhas e dentes e tive dois anos de muito sucesso outra vez. Também estava à espera de ter este ano de sucesso, mas é por uma razão maior. Eu adiei durante muitos anos ser mãe, porque fui pensando sempre em primeiro lugar como atleta. Mas sempre quis ser mãe. Dos meus irmãos era a única que não tinha um filho. Não cheguei a dar esse sonho ao meu pai, que sempre quis ter um neto da minha parte e já não o vai poder ver», emociona-se. «Queria muito. Este bebé não foi planeado, mas era muito desejado há muito tempo.»

Quando soube que estava grávida, com o nascimento do bebé previsto para final de abril ou início de maio, a três meses da competição dos 20km marcha em Paris, Ana pensou que tinha chegado o ponto final na carreira. «Esse foi logo o meu pensamento. Não ia pôr em risco o bebé nem a mim. Nunca parei, mesmo quando soube que estava grávida continuei a treinar. Mas já só treinava para o bem-estar meu e do bebé, já não pensava ir a Paris.» Depois, pensou melhor.

A preparação e a ajuda especial em casa

«Tivemos de reunir com toda a equipa, saber se era possível, porque é muito pouco tempo para recuperar. Mas o meu fisiologista e a equipa que trabalha comigo estiveram a ver casos de estudo e viram que era possível. Definiram o plano de treinos, em conjunto com o departamento médico e com a minha médica, e eu só me limitei a cumprir à risca», conta: «Assim que reunimos com o Comité Olímpico deram-nos carta branca para me preparar. O apoio foi imediato, e da Federação portuguesa de Atletismo igual. Então, voltei a arregaçar as mangas com o foco em Paris.»

Começou então uma nova rotina diária. «De manhã treino. Só não faço o treino bidiário que fazia antigamente. Começámos a fazer esse trabalho, mas eu comecei a sentir mesmo muita dificuldade em recuperar.» Agora, esse trabalho é apenas de ginásio, treino de força e piscina. «Claro que nesta fase final tivemos de mudar, porque estou a sentir mesmo muito cansaço, com o peso do bebé e tudo o mais. O trabalho está feito, agora é cuidar da mãe e do bebé nestas últimas semanas.» A mãe está bem e o bebé também dá bons sinais: «Está a crescer. Já está mais pesado do que o previsto nesta altura. É sinal que enquanto estou a treinar nada lhe está a faltar, o que é ótimo.»

Também falou com atletas que já passaram pelo mesmo. Como a marchadora brasileira Érica Sena, que foi mãe em 2022 e agora prepara-se para competir em Paris. «Qualquer coisa que tenho, uma simples dor ou qualquer coisinha lá estou a mandar-lhe um áudio. Ela está a estagiar em Rio Maior e está sempre a mandar mensagens também. Tem-me dado muita coisa a que me agarrar, artigos para ler que a ajudaram.»

Ana Cabecinha ainda tem mais um trunfo nesta preparação especial. «Ajuda ter em casa um marido osteopata, porque eu tenho uma simples dor e posso recorrer a ele…»

 

Tudo começou com um acidente grave

Ana faz 40 anos a 29 de abril, por coincidência na altura em que está previsto o nascimento do seu bebé. Sabe que se aproxima o ponto final de um longa carreira. Que começou literalmente por acidente.

Natural de Baleizão, no Alentejo, Ana Cabecinha passou a viver ainda criança no Algarve, para onde a família se mudou à procura de trabalho. «Vim com oito anos. As minhas raízes são alentejanas, mas passei quase toda a minha vida aqui. Quando vim já cá estavam os meus irmãos e os meus pais a trabalhar. Somos seis irmãos e o mais novo já nasceu cá.»

Foi uma brincadeira que correu mal a levá-la para o desporto. Uma queda grave junto à ponte de Quelfes, ali perto de Olhão. «A ideia era esconder-me debaixo da ponte. Brincadeiras de miúdos. A ponte não tinha proteção, só passou a ter depois da minha queda. Era suposto eu encostar a bicicleta e esconder-me lá em baixo. Só que ao sair da bicicleta o pé falhou e o corpo foi todo atrás. Havia muitas pedras lá em baixo e fiquei muito maltratada. Uma brincadeira que ia saindo cara.» Passou um mês em coma, sofreu duas fraturas numa perna. «Precisava de fazer reabilitação e desporto. Na altura, em 1996, não havia muitas piscinas municipais como há hoje, para fazer recuperação. E então o atletismo surgiu também por aí. Porque eu tinha de fazer exercício físico, nem era porque eu gostasse de correr.»

A marcha para poder viajar, apesar do «andar estranho»

Foi então que o destino de Ana Cabecinha se ligou ao do Clube Oriental de Pechão. Até hoje, ela é a grande bandeira de um clube que construiu forte tradição na marcha. «Como o meu cunhado estava ligado já ao Oriental Pechão, foi para aí que me direcionei. E fui ficando no atletismo.»

Começou por experimentar várias disciplinas, sob orientação de Paulo Murta, o seu treinador de sempre. «No atletismo experimentei tudo. Só não experimentei salto com vara. O meu treinador ainda hoje faz questão que os jovens passem por todas as disciplinas do atletismo.»

A marcha não foi amor à primeira vista. Mas tinha um enorme atrativo, ri-se Ana Cabecinha. «Éramos um grupo grande aqui no Algarve e a gente queria era sair. Passar o fim de semana fora, viajar. As provas de corrida eram todas aqui, mas a marcha era tudo provas fora do Algarve.»

Não era a disciplina favorita dos miúdos. «No início, para mim como para muitos jovens, a marcha era algo estranho, era um andar estranho. Eu própria tenho histórias com o meu treinador, que me mandava treinar sozinha em casa. Eu quando vinha um carro começava a correr, o carro passava e eu começava a marchar. Eu própria não me sentia confortável.»

Uma carreira de sucesso sempre a partir do Algarve

Mas foi mesmo na marcha que ela se distinguiu. «Foi onde tive melhores resultados. Apesar de eu adorar correr. Faço muitas corridas populares e tenho muito bons registos nas provas de estrada e pista, mas comecei a sobressair mais na marcha.»

Os resultados apareceram cedo. «Fui campeã nacional muito novinha. O meu treinador viu que tinha ali qualquer coisa que podíamos aproveitar. Ele soube fazê-lo. Em 2001 fui logo a um Mundial de juvenis e a partir daí, com os resultados, passámos a apostar mais na marcha, foi para aí que direcionámos o foco para me tornar atleta profissional.»

Ana é hoje, claro, uma defensora da sua disciplina. «Acho que a marcha é bonita de se ver. A técnica é bonita. Mesmo estando fora eu sou apreciadora de uma prova de marcha. Mas sou suspeita.»

Foi a partir do Algarve que Ana Cabecinha construiu a carreira internacional. Nunca quis deixar o seu clube de sempre, nem a proximidade da família. Mesmo que isso tenha implicado dificuldades adicionais. «Somos um bocado esquecidos por estarmos no Algarve. Como o meu treinador às vezes diz, estamos quase em Marrocos. As competições nacionais são quase todas de Lisboa para cima. Estamos constantemente a viajar, quase todos os fins de semana. É uma loucura», observa: «Eu já passei por muito, passar semanas em Lisboa para ter apoio na área da fisioterapia. Hoje consegui formar uma equipa que me apoia aqui, se não era muito complicado. Mas tive sempre a sorte de ter o município de Olhão a não querer que eu saísse do concelho e consegui continuar sem ter de ir para um grande clube. Fui sempre apoiada pelo meu clube e pelo município.»

Ana também cresceu a ver Portugal conseguir bons resultados na disciplina. Com uma grande referência. «Eu cresci a ver a Susana Feitor. Nós tínhamos a Rosa Mota e isso, mas eu como marchadora tive sempre a Susana Feitor lá no alto», conta: «Lembro-me de num estágio ficar com a Susana no quarto e não conseguir dormir as primeiras noites, por estar a dividir o mesmo espaço com a Susana…» De ídolo, a antiga atleta passou a amiga: «Hoje é a pessoa com quem mais falo quando tenho alguma coisa. É uma grande pessoa, como atleta quis sempre ajudar tudo e todos e hoje noutro papel continua a fazê-lo. Escolhi bem a pessoa que em pequena quis ter como referência.»

De Pequim a Tóquio a viver o sonho olímpico

Ainda foram adversárias e também competiram lado a lado. Estiveram ambas nos Jogos Olímpicos de Pequim, na estreia de Ana Cabecinha na competição. Tinha 22 anos e terminou no oitavo lugar. Correu os 20km marcha em 1h27m46s, até hoje recorde nacional.

Voltou a terminar entre as oito primeiras em Londres 2012, subindo mais tarde ao sexto lugar por desqualificação de várias atletas por doping. No Rio de Janeiro marchou até à sexta posição final. Em Tóquio, terminou no 20º lugar. Cada um deles foi especial. «Estar na aldeia olímpica, aquela sensação de sonho realizado, acho que não há nenhum atleta que não sinta isso. Mesmo que já tenha três, quatro ou cinco Jogos Olímpicos. O sentimento é o mesmo, parece que são os nossos primeiros Jogos.»

Mas nada se compara ao deslumbramento da primeira experiência olímpica, conta. «Eu vivi muito os Jogos Olímpicos de Pequim. Tinha 22 anos, era das mais jovens da comitiva. Não fui para lá a pensar em resultado nenhum, eu queria era desfrutar dos Jogos, do espírito. Claro que isso veio também com um grande resultado. Oitavo lugar, diploma olímpico, recorde de Portugal… Foram os Jogos que guardo para sempre na minha memória. Vivi o espírito olímpico na sua totalidade. Nos Jogos seguintes já tinha outra responsabilidade, a exigência era maior. E no Rio de Janeiro mais ainda. Já não era aquela jovem que não tinha nada a perder.»

Os olhos de Ana iluminam-se quando recorda cada um dos Jogos Olímpicos que viveu, a contar histórias da aldeia olímpica. «Em Pequim nós já não sabíamos para onde havíamos de olhar com tanta gente que só víamos na nossa imaginação ou na televisão. Quando a equipa do Brasil de futebol entrou na aldeia olímpica foi uma loucura. Em 2012 lembro-me de ver o Rafa Nadal, também uma loucura. Ali estávamos todos de igual para igual. Somos todos atletas, cada um no seu desporto mas vive-se mesmo essa humildade. O que é magnífico. Toda a gente está ali para o mesmo, esse é o espírito que se vive dentro da aldeia olímpica», diz, a recordar ainda mais uma história: «No Rio de Janeiro havia muita gente a querer tirar fotografias com o Usain Bolt. Fazia fila. Mesmo malta do basquete queria tirar fotografia com o Bolt. E ele não dizia que não, estava sempre disponível.»

Os estudos que ficaram pelo caminho e os planos para o futuro

O foco de Ana Cabecinha no atletismo foi sempre prioridade, mesmo à custa dos estudos. «Eu comecei muito cedo, mas sempre conciliei a escola com o atletismo. Sempre tive a sorte de ter estatuto de alta competição e tive professores que sempre estiveram do meu lado, para eu poder estar semanas a estagiar, com faltas justificadas. Tinha a matéria para poder estudar, colegas que me ajudavam. Mas cheguei ao 12º ano e eu própria não quis seguir mais com o percurso académico.» A decisão não foi bem encarada pela família: «Fui contra a opinião do meu treinador e ainda mais dos meus pais, que queriam ter uma filha universitária e formada. Só que na minha cabeça na altura não era compatível.»

«Hoje em dia vejo que foi a pior asneira que fiz, porque dava para conciliar. Não fazia em três ou quatro anos fazia em mais. Mas eu não queria estar a prolongar a minha carreira universitária durante tantos anos, ou então não era atleta. Era assim que via o desporto. Então, terminei o 12º ano e não quis seguir. Houve ali uns tempos que os meus pais foram muito contra e ficaram muito chateados. Depois aceitaram. Quer dizer, não aceitaram, mas apoiaram.»

Prosseguiu um percurso de formação mais tarde, que já lhe permite fazer planos para o pós-carreira. «Tirei um curso na altura da pandemia e quero fazer ainda o estágio, na área de nutrição e dietética», explica. Mas há mais planos no horizonte: «Quero tirar também um curso de massagem para ajudar na clínica de fisioterapia que abrimos há um ano. O meu esposo tem muito trabalho mas precisa de umas mãos extra. E vou continuar federada, vou continuar a fazer ao fim de semana as minhas provas, a divertir-me. Tirei também o curso de treinadora e hoje em dia treino os miúdos aqui do Lusitano do triatlo, na parte do atletismo. Vou continuar a treinar os jovens, porque também me dá um gozo grande estar do lado de fora.»

Foto António Fernandes

Uma família inteira e um padrinho especial nos planos para Paris

Antes disso, Ana Cabecinha quer construir uma última memória associada à sua carreira de alta competição. «Eu já tinha no pensamento acabar a carreira em Paris. Fazer estes últimos três anos foi muito por causa do meu treinador, porque eu já queria ter acabado em Tóquio. Estava mesmo muito cansada, mental e fisicamente. São quase 30 anos de carreira, chega a um ponto em que já começa a custar um bocadinho mais a cada época. Já são mesmo muitos quilómetros nas pernas. Ele disse-me: ‘Então vamos terminar em Paris.’ ‘Está bem, então vamos a isso.’»

O objetivo original era competir em Paris e conseguir «um grande resultado». «Eu tinha feito duas épocas muito boas, 2022 e 2023, e este ano queria estar muito bem quer no Campeonato da Europa quer nos Jogos.» A gravidez mudou todo o foco. «O simples facto de conseguir recuperar, tentar estar em Paris e terminar a prova já será a meta que eu me propus. É a isso que vou tentar agarrar-me para tentar recuperar o melhor possível para estar em Paris.»

Dependerá da forma como Ana conseguir recuperar em dois ou três meses e, claro, de aval médico. Se tudo correr como previsto, Ana vai a Paris com o bebé e muito apoio familiar. «Juntamente com o Comité Olímpico, já temos isso mais ou menos planeado. Vai o meu esposo comigo para poder ficar com o bebé enquanto eu ainda vou fazendo um ou dois treinos antes da competição.»

Mas há mais «amas» disponíveis. «Os meus irmãos já tinha comprado o bilhete no ano passado, assim que eu fiz mínimos em Budapeste. Nas duas semanas a seguir já tinham comprado bilhete de avião, já estavam a ver hotéis. Quando eu contei em dezembro que estava grávida foi muito complicado, porque eu sabia o dinheiro que eles investiram para estar em Paris. Quando decidi que ia tentar ir na mesma eles disseram: ‘És maluca! Mas vamos lá tentar, vamos a isso.’»

E há também Paulo Murta, o treinador que fez todo este percurso ao lado de na Cabecinha e que será o padrinho de Lourenço. «Não fazia sentido convidar mais ninguém», diz Ana. «Então, o bebé tem sempre o padrinho, ou o pai ou os tios para ficar com ele, por isso sei que posso competir e estar descansada que ele está bem entregue.»

Ana emociona-se quando imagina esse momento. «O simples facto de ter o meu bebé lá é a minha medalha de todos estes anos. Não há melhor forma de acabar a carreira do que ter um bebé tão pequenino à minha espera. É para isso que eu me levanto todos os dias para treinar.»

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