O que aconteceu nos 2,5 segundos em que Shinzo Abe podia ter sido salvo?

20 jul, 05:13
Assassinato de Shinzo Abe

A análise detalhada das imagens do assassinato do ex-primeiro-ministro japonês revela a inoperância dos seus seguranças e mostra que Abe podia ter sido salvo entre o primeiro e o segundo disparo

Desde o atentado que matou Shinzo Abe, não havia dúvidas de que o dispositivo de segurança montado em torno do antigo primeiro-ministro japonês falhou. Se fosse eficaz, o assassino de Abe não teria conseguido chegar tão facilmente até tão perto do político, tendo disparado o primeiro tiro a cerca de sete metros do alvo, e o segundo a pouco mais de cinco metros de distância. Mas a análise cuidada dos vídeos do atentado mostram mais do que um dispositivo de segurança mal concebido: revelam que os guarda-costas presentes falharam na sua missão de proteger a vida de Abe imediatamente após o primeiro tiro.

Os dados revelados ontem são concludentes: “A morte de Shinzo Abe podia ter sido evitada se os seus seguranças tivessem agido mais depressa”, titulou o South China Morning Post, a partir das análises feitas por oito peritos em segurança individual contactados pela agência Reuters.

Em causa estão 2,5 segundos. Dois segundos e meio podem parecer quase nada, mas é muito tempo quando está em causa um político de topo, supostamente protegido por guarda-costas de elite, treinados para agir de imediato e, se for caso disso, dar a vida para salvar a daquele que protegem.

Dois segundos e meio foi o tempo que mediou entre o primeiro tiro disparado contra Shinzo Abe, que falhou o alvo, e o segundo tiro, que atingiu o ex-governante japonês de forma fatal.

O que se passou nessa fração de tempo? Do lado do atirador, muita coisa; do lado dos seguranças, quase nada. 

Nesses 2,5 segundos, Tetsuya Yamagami, o homem de 41 anos que foi detido em flagrante depois de ter disparado sobre Abe, recarregou a arma de fabrico artesanal, avançou cerca de dois passos em direção ao alvo, afinou a pontaria pelo meio do fumo provocado pelo primeiro tiro, e voltou a disparar. Nos mesmos 2,5 segundos, os quatro guarda-costas de Abe ficaram praticamente paralizados - um deles levanta o que parece ser um saco para proteger o político conservador (seria um colete à prova de bala), e outro movimenta-se para se interpor entre o atirador e a vítima, mas de forma hesitante. 

Na mesma fração de tempo, Abe interrompe o seu discurso, sem largar o microfone, e olha para trás, sobre o seu ombro esquerdo, em direção ao local de onde lhe chegara o som do primeiro tiro. É possível que o ex-chefe do governo nipónico ainda tenha visto o seu assassino a caminhar em direção a si e disparar o tiro fatal.

Entretanto, outros dois seguranças precipitam-se em direção a Yamagami, que é imobilizado imediatamente a seguir ao segundo tiro, quando tenta fugir do local. Mas já era demasiado tarde.

Prioridade: proteger o alvo

O que se devia ter passado nesses 2,5 segundos? Apesar da rapidez com que dois dos seguranças se atiraram sobre o agressor após os tiros, essa foi a "resposta errada", garantem os especialistas em segurança ouvidos pela Reuters. Mitsuru Fukuda, professor da Universidade de Nihon especializado em gestão de crises e terrorismo, aponta o erro decisivo: concentrar a atenção no atirador em vez de se moverem de imediato para proteger Abe. "Todos ficaram assustados e ninguém foi para onde Abe estava", reitera Yasuhiro Sasaki, polícia reformado da prefeitura de Saitama, perto de Tóquio, que ao longo da sua carreira tratou da segurança de VIPs. Havia segurança suficiente, diz este especialista depois de analisar as imagens, "mas sem sentido de perigo".

O que mandam as regras de ação imediata em caso de atentado contra um VIP? Que os guarda-costas se lancem de imediato, não sobre o atirador, mas sobre o alvo, obrigando-o a baixar a cabeça, ou deitar-se no chão, ficando escudado pelo corpo dos próprios seguranças. Ou, em alternativa, que o agarrem e retirem de imediato do local, protegendo-o com os seus corpos. Era isto que devia ter acontecido e não aconteceu nos dois segundos e meio entre o primeiro e o segundo tiro.

Dois segundos chegam

Mas todo o dispositivo de segurança em torno do antigo primeiro-ministro não parece ter sido concebido para prevenir uma ação como aquela que acabou por acontecer. Os muitos vídeos feitos pelas câmaras de televisão que cobriram o comício, mas também pelo público que assistia e filmou com telemóveis, deixam à mostra as falhas de segurança que os responsáveis admitiram logo no dia a seguir à morte de Abe.

O pequeno comício em que o ex-líder do PLD participou, perto da estação de comboios de Nara, aconteceu no meio de um cruzamento, com os oradores completamente expostos de todas as direções. Dentro da “ilha” demarcada por rails rodoviários, onde Abe discursou, havia apenas quatro seguranças. Nenhum estava posicionado suficientemente perto para impedir um disparo pelas costas, ou para proteger ou afastar Abe de imediato caso surgisse uma situação de perigo. 

Deveria haver pelo menos um guarda-costas de proteção próxima com a missão de o afastar, segundo um membro do Serviço de Segurança Diplomática dos EUA, citado pela Reuters. "Agarrá-lo-íamos pelo cinto e pelo colarinho, protegê-lo-íamos com o nosso corpo e afastar-nos-íamos", diz o mesmo agente, cuja missão é proteger altos dignitários e diplomatas.

Katsuhiko Ikeda, ex-superintendente geral da polícia de Tóquio que dirigiu a segurança das cimeiras do G8 no Japão em 2000 e 2008, chama a atenção para o deficiente posicionamento dos seguranças dentro do perímetro de segurança. Tendo em conta que o primeiro tiro falhou, tudo poderia ter sido diferente se os guarda-costas estivessem suficientemente perto para o alcançar num segundo ou dois.

Koichi Ito, antigo responsável da Polícia Metropolitana de Tóquio, que atualmente tem uma empresa de segurança privada, não tem dúvidas: na “janela de mais de dois segundos” entre o primeiro e o segundo tiros, os guarda-costas “poderiam definitivamente ter evitado isso". "Se Abe tivesse sido devidamente protegido, [o assassinato] poderia ter sido evitado", assegura este antigo operacional da equipa especial de assalto da Polícia Metropolitana da capital.

Caminho aberto nas costas de Abe

O facto de Tetsuya Yamagami não ter acertado no seu alvo à primeira tentativa torna mais flagrantes as falhas no dispositivo de segurança e os erros dos seguranças que o protegiam. Mas nem o primeiro tiro deveria ter acontecido. O mero facto de Yamagami ter conseguido disparar sobre o político mais importante do Japão num evento público que nem tinha uma multidão muito assinalável foi, desde o início, reconhecido como uma falha de planeamento, cujas razões e responsabilidades ainda estão a ser investigadas.

Os guarda-costas de Abe não pareciam ter "anéis concêntricos de segurança" à sua volta, denuncia John Soltys, ex-membro da força de operações especiais da Marinha dos EUA, hoje vice-presidente da empresa internacional de segurança Prosegur. Para além disso, "eles não tinham qualquer tipo de vigilância na multidão", disse à Reuters. 

A operação de segurança era da responsabilidade das autoridades policiais de Nara, e envolvia agentes locais e um agente da Polícia Metropolitana de Tóquio, que normalmente é responsável pela segurança pessoal de individualidades com o alto perfil de Shinzo Abe.

Conforme foi revelado entretanto pela polícia de Nara, a presença de Abe na ação de campanha da estação de Nara, na manhã de sexta-feira, dia 8, foi anunciada apenas na tarde da véspera. E o dispositivo de segurança só ficou aprovado poucas horas antes de se realizar o comício. Apesar disso, os responsáveis pela Polícia de Nara admitiram que tiveram “tempo suficiente” para preparar o evento.

Essa preparação é que terá sido deficiente. Os vídeos mostram um grande espaço vazio nas costas de Abe, sem seguranças que fizessem a vigilância dessa área ou tapassem o acesso ao político pela retaguarda. Foi precisamente por aí que o atirador se aproximou, calmamente, transportando um objeto volumoso que se revelaria ser uma arma de fabrico doméstico.

"O problema é que os guardas permitiram que uma pessoa com um objeto suspeito se aproximasse", já reconheceu o chefe da polícia de Tóquio. "O que devia ter acontecido, era verificar onde poderia estar o ponto cego à volta do local do discurso [de Abe], e verificar os locais onde alguém poderia colocar objetos suspeitos [como bombas]", acrescentou o mesmo responsável.

O facto de Abe já não ser um governante em funções, com um estatuto de ex-primeiro-ministro que impunha menos aparato policial do que em relação aos membros do governo, pode ter aligeirado as preocupações. Por outro lado, as campanhas eleitorais no Japão costumam ser feitas com grande proximidade aos eleitores (literalmente), sobretudo as campanhas a nível local, como era a ação em que Abe participava.

Pequenos comícios em esquinas e cruzamentos são muito comuns no Japão, precisamente para dar a ideia de que os políticos estão perto do dia a dia dos eleitores - e isso acontece mesmo com políticos de primeira linha a nível nacional. O facto de serem espaços abertos e acessíveis a qualquer transeunte, sem controlo de quem assiste, tem sido apontado como um dos problemas de segurança destes eventos. É possível que as campanhas eleitorais no Japão não voltem a ser tão próximas como até agora.

Muitas vezes, o anúncio destas ações é feito de véspera, através das redes sociais, como aconteceu neste caso. Na quinta-feira antes, Abe tinha participado num outro comício do mesmo género, em Okayama - e há suspeitas de que Yamagami também lá terá estado. A ser assim, não terá agido porque o dispositivo de segurança talvez o tenha impedido de se movimentar de forma tão descontraída como em Nara.

“A resposta imediata é crucial”

Ainda se aguardam as conclusões da investigação que as autoridades japonesas estão a fazer sobre as falhas de segurança, que foram de imediato reconhecidas pelo chefe da Política de Nara. Mas, para Koichi Ito, o antigo operacional da equipa especial de intervenção da Política Metropolitana de Tóquio, por muitos erros que tenham sido cometidos a nível de planeamento, o problema mais grave foi o que aconteceu naqueles 2,5 segundos entre o primeiro e o segundo tiros. Ou melhor: o que não aconteceu. 

Os seguranças não se precipitaram sobre Abe, não o cobriram com os seus corpos, não o forçaram a baixar a cabeça, não o retiraram do local. Para isso, bastava que tivessem sentido que havia perigo, e atuado em conformidade. 

“Mesmo que depois se perceba que era falso alarme, a resposta imediata é crucial para qualquer guarda-costas”, disse Ito ao Nikkei Asia. Neste caso, até já se sabia que não era falso alarme. Já tinha sido disparado um tiro.

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