De local passou a regional e há o perigo de um "conflito mundial". Entrada do Irão na guerra "muda muita coisa"

14 abr, 18:00
Iranianos celebram ataque contra Israel nas ruas de Teerão (EPA)

Envolvimento, ainda que indireto, de um número cada vez maior de nações, aumenta significativamente o risco de escalada. Há interesses de Estados Unidos, Rússia, China e até Índia pelo meio

O que era um conflito local, entre Israel e o Hamas, está a alastrar e a tornar-se num conflito regional. Mas pode não ficar por aqui. O governo de Netanyahu prometeu retaliar contra o ataque iraniano que, na noite de sábado, disparou mais de 300 projéteis contra território israelita. Os especialistas alertam que a dinâmica desta guerra está a mudar e pode tornar-se num conflito mundial.

“Esta guerra deixou ontem de ser uma guerra local e já é regional. A entrada do Irão na guerra muda muita coisa e pode mesmo tornar-se um conflito mundial. Para isso basta Israel conseguir aquilo que quer, que é arrastar os Estados Unidos para o conflito”, explica o major-general Agostinho Costa.

Para o especialista em assuntos militares, Israel só tem de retaliar “com toda a força” contra alvos militares no interior do Irão, obrigando o regime iraniano a retaliar com ainda mais violência para demonstrar força perante a sua própria população. Neste cenário, admite Agostinho Costa, os Estados Unidos vir-se-iam obrigados a intervir para defender Israel.

O conflito, que começou no dia 7 de outubro de 2023 com o ataque do Hamas a Israel, está mesmo a expandir-se territorialmente. Neste momento, as forças armadas israelitas atacam sucessivamente as posições do Hezbollah, organização apoiada pelo Irão, no sul do Líbano. Ao mesmo tempo, rebeldes Houthis interferem com o comércio mundial no Mar Vermelho e um navio com bandeira portuguesa é capturado pelo Irão junto ao estreito de Ormuz.

"Esta é uma guerra regional, uma vez que já tem um nível de disseminação significativo, mas tem um impacto mundial. Veja-se o ataque de ontem a um navio de bandeira portuguesa, que, apesar de não ter tripulação portuguesa, é português. De acordo com o direito internacional, um ataque contra um navio com uma determinada bandeira é um ataque a esse país. Formalmente, de acordo com o direito internacional, Portugal está envolvido", admite Ana Miguel dos Santos, especialista em Assuntos de Segurança e Defesa.

A natureza dos conflitos armados é hoje diferente daquela que existia durante a Segunda Guerra Mundial ou até mesmo durante os vários conflitos que ocorreram durante a Guerra Fria. Hoje, uma ameaça convencional não se restringe à ameaça territorial e um ataque aos interesses económicos de uma nação constituem uma ameaça real.

"Existe um conjunto de países que estão geograficamente afastados, mas que têm interesses nesta zona. Nós estamos necessariamente envolvidos. Apesar de estarmos mais afastados geograficamente da guerra no Médio Oriente, estamos a ser envolvidos", insiste Ana Miguel dos Santos.

Este envolvimento, ainda que indireto, de um número cada vez maior de nações aumenta significativamente o risco de escalada. Países como Reino Unido e França, que apoiam abertamente Israel e os Estados Unidos, participam em ações defensivas e têm interesses comerciais na região são alguns dos mais prováveis aliados a serem atraídos para um conflito no Médio Oriente. “Israel é essencialmente apoiado pelas antigas potências coloniais, mas se eles entrarem já ”, refere Agostinho Costa.

Países como a Alemanha também têm prestado apoio político significativo ao governo israelita, mas Israel tem aliados menos prováveis que teriam tendência para apoiar o país de Netanyahu em caso de um conflito mais alargado. É esse o caso da India de Narendra Modi. O gigante asiático é dos principais parceiros comerciais de Israel e é o maior comprador de tecnologia militar israelita.

Mas o Irão é um país de grande dimensão e com um poderio militar significativo, com capacidade comprovada de conduzir ataques de longo alcance. Além disso, está longe de estar isolado no campo diplomático. Na região conta com vários grupos paramilitares capazes de criar dificuldades e conduzir uma “guerra assimétrica”. Além dos Houthis no Iémen, do Hamas na Faixa de Gaza, o principal grupo armado apoiado pelo Irão é o Hezbollah, um grupo paramilitar bem equipado e bem treinado, que muitas dores de cabeça dá a Israel, nomeadamente a partir do Líbano.

Mas há dois atores internacionais que têm todo o interesse em que o Irão se mantenha desafiante dos Estados Unidos da América: a Rússia e a China. O regime de Vladimir Putin tem contado com o apoio do Irão para fornecer os drones que estão a ser utilizados para destruir infraestruturas na Ucrânia. E a China tem no Irão um dos seus principais fornecedores de petróleo. Apesar de ambos apelarem à paz, estas duas potências têm interesse em que o regime dos Aiataolas continue a desviar as atenções de Washington D. C. para outros lados.

“O Irão fornece armas à Rússia, que está em luta com a Ucrânia. China está em silêncio e apela à paz, sublinhando que o mundo harmonioso não pode passar por uma escalada. No fundo, estamos perante a formação de um mundo de múltiplas ordens, em que o Irão ambiciona liderar a ordem islâmica”, explica o professor José Filipe Pinto, especialista em Relações Internacionais.

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