Queiroz Pereira. Como a vontade de proteger três irmãs levou a uma gestão independente

13 ago, 08:00
Pedro Queiroz Pereira

OS HERDEIROS || Durante o mês de agosto, todos os domingos, contamos-lhe o que estão a fazer os herdeiros dos homens e das mulheres mais ricos de Portugal com o património que receberam

O desfecho foi inesperado. Em agosto de 2018 chegava a notícia: Pedro Queiroz Pereira morria aos 69 anos, na sequência de uma queda no seu iate, após ter tido um ataque cardíaco. Estava em Ibiza de férias.

Mas, apesar da morte repentina, a sucessão daquele que era considerado um dos maiores industriais portugueses estava assegurada. O empresário tinha criado um fundo privado fechado subscrito apenas pelas três filhas – Filipa, Mafalda e Lua – para garantir que o império não se desmembrava e continuava nas mãos da família.

Enquanto isso, e tendo consciência das limitações das herdeiras na gestão e do seu afastamento quanto à indústria, foi selecionando gestores profissionais, fora da família, para ir desenvolvendo as empresas. Na altura, as escolhas foram João Castello Branco para a Semapa e Diogo da Silveira para a Navigator.

Entretanto, já depois da morte de Queiroz Pereira, estas cadeiras ganharam novos ocupantes. Em 2020, António Redondo assumiu a liderança da Navigator, após um processo de seleção assumido por uma consultora externa. A escolha acabou por ficar num homem da própria casa, com forte experiência na administração.

Já a substituição na Semapa dá-se em 2022, com João Castello Branco a renunciar ao cargo e a ceder o lugar a Ricardo Pires. Também uma escolha que valorizou o conhecimento interno do grupo, já que era administrador e líder da Semapa Next, empresa dedicada ao investimento com capital de risco em novos projetos.

“Esforçou-se muito nesse sentido [de deixar uma gestão independente da família]. Há muito tempo que andava a trabalhar nisso, para deixar uma estrutura preparada”, confirma um amigo de Pedro Queiroz Pereira à CNN Portugal, optando pelo anonimato.

Mas havia receios de que existissem conflitos entre as três herdeiras no momento das partilhas de uma fortuna avaliada, à altura, na ordem dos 800 milhões de euros, assente na pasta de papel e no cimento? “Não, esse receio ele não tinha”. Embora as relações familiares nos Queiroz Pereira não primem propriamente pela harmonia. Já lá vamos.

Como foi feita a divisão e se assegurou o controlo

Um dos desenvolvimentos na herança de Pedro Queiroz Pereira é bem recente, de maio de 2023. As três irmãs avançaram com a divisão do património, herdando um terço cada. Com este passo, viram o regulador dos mercados, a CMVM, dispensá-las de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA).

Juntas, depois de terem assinado acordos parassociais nas sociedades Vértice e Sodim, passaram a deter mais de 83% dos direitos de voto na Semapa e praticamente 70% no caso da Navigator.

Segundo as regras da bolsa, a situação teria obrigado ao lançamento de ofertas para adquirirem todas as ações da Semapa e Navigator, já que as herdeiras ultrapassavam as fasquias de um terço e de metade dos direitos de votos correspondentes ao capital destas sociedades.

Contudo, uma alteração recente, dispensa desta obrigação “quando a aquisição de valores mobiliários resulte da herança ou legado”.

As três sentam-se no conselho de administração da Semapa, que é dona da papeleira Navigator e da cimenteira Secil. E, embora não tenham funções executivas, confiando nas equipas de gestão, têm amplo poder de decisão, garante o amigo da família ouvido pela CNN Portugal. “Participam na decisão como membros do conselho de administração. As pessoas que estão na direção profissional da empresa são da sua confiança”, diz.

Estas são as herdeiras do império de Queiroz Pereira, que se sentam no conselho de administração da Semapa (Página oficial da Semapa)

Quem é quem? Quem faz o quê?

Filipa, a irmã mais velha, começou por ter uma carreira ligada à informática, mais especificamente nas soluções para a criação de sites, mas dedica-se hoje à administração do Hotel Ritz em Lisboa, uma das joias da coroa do império Queiroz Pereira, que chegou a descrever como “património sentimental”.

Mafalda, na foto do meio, sempre esteve mais ligada ao mundo do desporto, seguindo uma faceta também cultivada pelo pai, dedicando-se não às corridas de alta velocidade, mas ao esqui acrobático – tendo ido ao Japão, em 1998, para os Jogos Olímpicos de Inverno. Da mãe, puxou o gosto pelas artes, com projetos de decoração de interiores. Agora, nesta arquitetura, é responsável pela gestão dos negócios imobiliários do grupo, como a Herdade dos Fidalgos. Já o conhecido Costa Terra, projeto turístico localizado em Melides, acabou por sair das mãos da família, vendido à Discovery Land Company em 2019.

Por sua vez, Lua, a mais nova, também é uma mulher de negócios, gerindo a sua empresa dedicada a atividades equestres. Era, na altura em que o pai morreu, a herdeira que mais estava presente no dia a dia da Semapa, contribuindo para o arranque da Semapa Next, a área dedicada aos investimentos em novos projetos com recurso a capital de risco.

A CNN Portugal contactou a assessoria de imprensa da Semapa, procurando a participação de pelo menos uma das três herdeiras neste artigo, algo que não se mostrou possível.

Queiroz Pereira contra Espírito Santo

Quando Pedro Queiroz Pereira, também conhecido pelo nome de corridas “PêQuêPê”, preparou a sucessão, não tinha apenas a intenção de que o património se mantivesse na família. Queria também protegê-lo da própria família, em especial da irmã Maude, com quem se incompatibilizara.

Recuemos a uma das suas frases mais marcantes. “O Dr. Ricardo Salgado tem um problema: não lida maravilhosamente com a verdade”, afirmou em 2014, na comissão de inquérito sobre o Grupo Espírito Santo (GES), que ele ajudou a derrubar.

Isto porque, em 2013, teve de lutar pelo controlo das suas próprias empresas. O gestor não gostou quando Ricardo Salgado tentou assumir a Semapa, aliando-se à sua irmã Maude. E decidiu então criar uma equipa para investigar as contas do GES, cujas conclusões seriam decisivas para a queda do clã Espírito Santo.

Quando Queiroz Pereira criticou Salgado no Parlamento (Lusa)

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