Zelensky já escapou a mais de 13 tentativas de assassinato. O que acontece se a Rússia tiver sucesso?

10 ago, 07:00
Volodymyr Zelensky (AP)

Moscovo já demonstrou querer livrar-se do líder ucraniano que insiste em resistir ao domínio russo. O governo ucraniano tem planos caso o Kremlin tenha sucesso, mas há a possibilidade de "eternizar o conflito" e torná-lo ainda mais complexo.

O objetivo era claro. Durante uma visita surpresa do presidente ucraniano à região de Mykolaiv, a suspeita ia fornecer a lista dos locais e dos horários onde Zelensky ia estar. De seguida, as Forças Armadas russas lançariam um poderoso ataque aéreo contra a região, com o propósito de tirar a vida ao líder ucraniano. A mulher foi apanhada e condenada a 12 anos de prisão, mas está longe de ser um caso isolado no que toca às tentativas russas de matar o líder da Ucrânia. O que pode acontecer se os espiões de Vladimir Putin tiverem sucesso? Os especialistas alertam que esse processo está em curso e que o resultado pode tornar o mundo um lugar ainda mais perigoso.

“É preciso compreender os fundamentos da propaganda russa. Sempre que a Rússia diz que não fará algo, é esse o primeiro sintoma de que o fará. A Rússia ao reiterar que não está interessada em eliminar Zelensky e o Governo de Kiev, é um grande sinal de que o quer fazer. Esta detenção é sinal de que o processo de eliminação de Zelensky está em curso”, sublinha o professor José Filipe Pinto.

A verdade é que, desde a madrugada de 24 de fevereiro de 2022, quando a Rússia começou a guerra na Ucrânia, várias tentativas foram feitas contra a vida do líder ucraniano. Segundo um dos principais conselheiros do presidente, Mikhail Podolyak, apenas nos primeiros dias da guerra, mais de uma dúzia de grupos de forças especiais penetraram o território da capital ucraniana com o objetivo de “decapitar” o regime ucraniano. Mas foram travados. 

É certo que o risco de um atentado contra a vida do presidente diminuiu significativamente com a retirada das tropas russas dos arredores da capital, mas o risco persiste. Na televisão russa e no próprio parlamento, é comum ouvir apelos à “eliminação de Zelelensky” e de ataques contra os “centros de governação”. Além disso, as forças de segurança ucranianas têm de ter em conta o longo historial da Rússia de Vladimir Putin no campo dos assassinatos políticos. Foi esse o caso do envenenamento de Alexander Litvinenko, um espião russo que fugiu para o Reino Unido, com um químico metálico e radioativo, conhecido como polónio-210. Mas também existem casos como o da explosão do carro que tirou a vida ao comandante das forças especiais ucranianas em 2017, Maksym Shapoval, ou o envenenamento do antigo espião Sergei Skripal, em 2018, com o químico Novichok. Para o especialista em Relações Internacionais José Filipe Pinto, o presidente ucraniano começa a ser visto, não só pela Rússia, “como um entrave à negociação de paz” e, como tal, um potencial “alvo a abater”.

Alexander Litvinenko (Alistair Fuller/AP)

Solução para o “vácuo de poder”

E o governo ucraniano está a preparar-se para esse cenário. De acordo com o Politico, caso a Rússia tenha sucesso em tirar a vida a Zelensky, o seu substituto será Ruslan Stefanchuk, o líder do parlamento ucraniano, o Verkhovna Rada. No entanto, este político não goza da popularidade nem do capital político que o presidente ucraniano possui. Meses de liderança em tempos de guerra tornaram Zelensky um símbolo da resistência ucraniana. "Mas isso não interessa", diz o investigador do 'think tank' Atlantic Council, Adrian Karatnycky. “O país está num ponto de solidariedade substancial e unidade nacional, se alguma coisa terrível acontecer a Zelensky não seria assim tão decisivo”, diz.

Liderado por Stefanchuk, este governo contaria com a presença de algumas das principais figuras do executivo liderado por Zelensky. Andrii Yermak, chefe de gabinete do presidente, o ministro Dmytro Kuleba e o ministro da Defesa Oleksii Reznikov, entre outros. Para os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, este cenário, apesar de assegurar que não existe “vazio de poder”, pode colocar a negociação de paz mais longe.

“A morte de Zelensky não favorece minimamente uma negociação de paz. Zelensky é um moderado. O seu desaparecimento físico abriria a porta a pessoas mais extremas, basta olhar para o discurso de pessoas como o Secretário do Conselho de Segurança e Defesa Nacional da Ucrânia, Oleksiy Danilov. Isto iria complexificar a guerra”, refere o major-general Agostinho Costa.

O especialista acredita também que um possível assassinato teria sempre um impacto “muito limitado” no campo de batalha, uma vez que o governo ucraniano “deixa a liderança militar para as chefias militares”. Nesse sentido, é possível que figuras como o general Valery Zaluzhny, Oleksandr Syrski e o líder da espionagem militar ucraniana Kryrylo Budanov, mantenham a sua influência no decorrer das ações de combate ucranianas. E este é um dos pontos fortes do sistema democrático montado por Zelensky: as figuras podem alterar-se, mas as instituições continuam a funcionar.

E a história corrobora a resiliência das democracias a potenciais assassinatos. Um estudo conduzido por dois investigadores do National Bureau of Economic Research analisou o impacto político em instituições e guerras de líderes nacionais, entre 1875 e 2004. A conclusão é de que, quando um líder autocrático é assassinado, as instituições do país enfrentam “mudanças substanciais”. O mesmo não acontece com os assassinatos em nações democráticas.

Zelensky: um entrave para a paz?

Apesar de tudo, para vários países do chamado “Sul Global” e para cada vez mais pessoas no Ocidente, já não olham apenas para Vladimir Putin como o principal entrave nas negociações de paz. Muitos começam também a olhar para Zelensky como alguém que se apresenta incapaz de ir para a mesa de negociações. E o próprio Zelensky pode estar bem ciente desta mudança. Para José Filipe Pinto, isso ficou claro nas declarações do líder ucraniano acerca de Lula da Silva, que acusou de ter “pensamentos que coincidem com os do presidente Putin”.

“O cenário da paz – cada vez mais distante - tem dois oponentes: Putin de um lado e Zelensky do outro. O conflito ameaça eternizar-se, ficando apenas pelo armistício. Quando Zelensky fala nos termos em que fala para Lula da Silva, na Arábia Saudita, significa que se sente abandonado. Percebeu que o seu caminho não terá futuro. Aquele projeto de paz que ele idealizou não será exequível. Uma parte do mundo cansou-se”, afirma o professor.

Outro fator a ter em conta é o impacto das eleições norte-americanas, que se aproximam, estando agendadas já para o próximo ano. Do lado oposto ao presidente Biden, uma parte significativa dos candidatos do Partido Republicano opõem-se ao apoio à Ucrânia. O candidato mais provável, o antigo presidente Donald Trump, diz mesmo que acabaria com a guerra em “dois tempos”, sentando-se à mesa com Putin. E este cenário pode não estar tão distante da realidade quanto isso, uma vez que o esforço de guerra ucraniano depende muito do armamento ocidental.

“Não se vislumbra uma solução política para esta guerra, porque o conflito tornou-se existencial para os dois lados. Se a Ucrânia perder, é o ocidente que perde. Atualmente, as negociações são sinal de fraqueza, mas um assassinato de Zelensky levaria a uma escalada do conflito. No entanto, estamos a valorizar em excesso o papel da Ucrânia numa possível negociação de paz. Esta guerra termina quando os Estados Unidos assim o entenderem”, sublinha o major-general Agostinho Costa.

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