Sou o Obi James: fugi da guerra na Ucrânia, escolhi o país do Nani. Quero jogar futebol: contratam-me?

Wilson Ledo , com David Félix (repórter de imagem) e Filipe Machado (edição de imagem)
3 set, 22:00

Há uma palavra portuguesa que Obi James, 19 anos, sabe de cor: passe. É um dos movimentos mais importantes para quem se habituou à posição de extremo

Na hora de fugir, Obi James escolheu Portugal. Queria ser alguém no futebol ucraniano, veio a guerra, teve de fugir. Portugal, com tantos clubes, tornou-se escolha provável - que passou a óbvia porque, afinal, é de Portugal a grande referência de Obi James: Nani. “É o meu ídolo. Sou um grande fã. Ele é alguém em quem me inspiro.”

O coreto vermelho no centro de Santarém serve de campo. A bola ajuda a esquecer a solidão de se estar num território desconhecido. Obi James, nigeriano, parece que dança: pés, joelhos, cabeça só param quando o seu pequeno mundo cai no chão. “Acredito que conseguirei encontrar um clube de futebol aqui. Percebi que é um país que ama todos, que aceita todos. Não é uma questão de cor mas de sermos humanos.”

Mas no momento da fuga de Kiev, a capital ucraniana onde Obi James vivia há menos de um ano, a sua cor negra importou. Primeiro num comboio até Lviv, onde tantos outros como ele lutavam por um lugar. Depois no autocarro até à fronteira polaca, onde cada assento disponível era uma raridade. “Havia uma fila. Ucranianos para um lado, negros para o outro. Grandes portas [de controlo] para ucranianos, pequenas portas para negros”.

O espaço para se passar era pequeno. E por isso, ao ver os outros, decidiu atirar também a pequena mala que trazia nas mãos para o outro lado da vedação. Havia a esperança de que assim o processo fosse mais rápido. Mas acabaria por perdê-la. “Não estava preparado para fugir. Deixei a Ucrânia sem a minha bagagem, sem as minhas coisas. Só trouxe algumas roupas.”

Obi James não se sente ucraniano. Lutar num país estrangeiro, para ele, nunca foi uma opção. Não teve tempo para aprender os hábitos do país que escolheu para ir atrás do futebol. “Disseram-nos que a guerra estava a chegar mas não acreditávamos. Depois acordei com o som das bombas. É assustador. Isso e as pessoas a correrem pelas suas vidas.”

Obi James sabe que é apenas um entre milhões de refugiados do conflito. Nos mais de 49 mil que receberam proteção temporária em Portugal encontram-se 101 nacionalidades diferentes. Segundo os dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, são 9625 os cidadãos de outras nacionalidades que fugiram do conflito na Ucrânia e encontraram abrigo em Portugal. Viviam, trabalhavam, estudavam no território invadido pela Rússia.

Este nigeriano passou por Cuba, no Alentejo. Mudou-se recentemente para Santarém. Em ambos, o calor português é difícil de suportar. Enquanto espera, debaixo da sombra de uma árvore, surge-lhe um parceiro para o campo. Uma criança com uma camisola de Cristiano Ronaldo. A bola ganha vida. Cada um a mostrar os dotes mas a jogar em equipa.

Voltar à Nigéria não é opção no curto prazo. Voltar implica desistir. “A minha família vendeu o que tinha para conseguir mandar-me para um país onde eu pudesse jogar futebol. Para mim, não atingir esse sonho é sentir que falhei. Aos meus pais e a mim.”

Obi James promete agarrar todas as oportunidades profissionais. À Ucrânia só quer voltar para férias. O caminho está em Portugal. E há um clube que prefere: o F.C. Porto. Porquê? “Por causa do Pepe. Gosto dele.”

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