"A Rússia não vai ficar por aqui". Fantasma da sabotagem militar volta a pairar na Europa

18 abr, 21:00
Fábrica de munições do exército de Scranton, na Pensílvânia (Getty Images)

Uma série de explosões em fábricas que fornecem armamento à Ucrânia e a detenção de dois agentes russos na Alemanha que se preparavam para fazer explodir instalações militares e industriais fazem soar os alarmes

Uma explosão “no coração” da produção de munições britânicas e um incêndio na principal fábrica que fornece cartuchos de 155 milímetros para a artilharia da Ucrânia aconteceram num espaço de dias. Poucas horas depois, dois homens foram detidos pelos serviços secretos alemães por estarem a planear atos de sabotagem contra instalações militares e fábricas de armamento alemães. Os especialistas alertam que a Rússia tem uma vasta experiência em ações de sabotagem e que os serviços secretos russos devem aumentar as ações de sabotagem na Europa.

“A Rússia subiu de patamar e deixou as ações de propaganda e já começou as ações de sabotagem no terreno. Temos de ter algum receio e passar a estar muito atentos. O Kremlin investe muito nestas operações e não vai ficar por aqui”, alerta o major-general Isidro de Morais Pereira.

Esta quinta-feira, dois alemães com ascendência russa foram detidos na cidade alemã de Bayreuth. De acordo com o procurador alemão, os homens estavam preparados para atacar vários alvos militares e industriais com explosivos e estavam em contacto com uma pessoa ligada com os serviços secretos russos.

O objetivo da operação seria perturbar o fornecimento de ajuda militar à Ucrânia, numa altura em que Kiev enfrenta uma profunda falta de munições de todos os calibres e a Rússia está a procurar explorar essa vulnerabilidade, renovando as operações ofensivas.

Um dos suspeitos, Dieter S., tem historial na Ucrânia. Entre dezembro de 2014 e setembro de 2016, Dieter lutou voluntariamente por uma unidade militar separatista em Donetsk. Esta organização é agora considerada pela Alemanha uma organização terrorista, pelo que o suspeito é acusado de pertencer a uma organização terrorista no estrangeiro.

“Isto são ações que pretendem prejudicar o apoio à Ucrânia. Uma forma de atacar o complexo militar industrial ocidental, que é quem permite que a Ucrânia se aguente no campo de batalha”, insiste o especialista em assuntos militares.

Apenas um dia antes, uma fábrica “no coração da indústria de munições” do Reino Unido e que fornece armamento à Ucrânia sofreu uma misteriosa explosão. A instalação da BAE Systems em Glascoed, no País de Gales, é a última fábrica de munições de artilharia em funcionamento no Reino Unido.

A empresa garante que ninguém foi ferido e admite que uma investigação foi colocada em marcha para averiguar as causas do incidente. Habitantes locais citados pela imprensa britânica dizem que a explosão “parecia um terramoto”.

Munições produzidas pela BAE Systems em Glascoed (Barry Batchelor/PA Images via Getty Images)

Uma semana antes desta explosão, o ministério britânico da Defesa tinha assina um contrato com a BAE Systems para fazer a manutenção e a reparação dos canhões de artilharia ligeira L119, enviados pelo Reino Unido. Em 2023, esta empresa assinou um acordo com o governo de Kiev para apoiar as forças armadas ucranianas a criar a estrutura necessária para revitalizar o complexo industrial militar ucraniano, com a manutenção e produção de vários sistemas de armamento.

“O Ocidente tem de estar muitíssimo atento. Putin subiu de nível, é preciso colocar segurança física nas instalações senão vai continuar a acontecer. É preciso tomar medidas severas e assertivas”, insiste Isidro de Morais Pereira.

Um dia antes, novo incidente numa das principais fábricas que fornecem o tão necessário armamento para o esforço de guerra ucraniano. A Scranton Army Ammunition Plant, no estado americano da Pensilvânia, registou um incêndio. Numa publicação nas redes sociais, a fábrica garante que não houve feridos, mas admitem que ainda estão a averiguar a dimensão dos danos para poder determinar se existem potenciais impacto na capacidade de produção da fábrica.

Trabalhador da Scranton Army Ammunition Plant examina munição de 155 milímetros (Matt Rourke/AP)

Apesar de o gigante industrial garantir que se tratou de um incidente não relacionado com uma situação de segurança, a ameaça de sabotagem russa é real e a Rússia já fez questão de o demonstrar no passado. Em 2023, o ministro da Economia da Bulgária sugeriu que a Rússia era responsável por uma explosão numa fábrica de armamento em Karnobat. Foi o segundo ataque a esta instalação em menos de dois anos.

“Tomámos absolutamente todas as medidas… para garantir que as pessoas estão seguras e que a indústria búlgara não será afetada por este tipo de ataques”, disse Bodganov.

A Bulgária é um dos maiores produtores de armamento e tem exportado significativas quantidades de munições para a Ucrânia desde que começou a guerra. O comerciante de armamento Emilian Gebrev, que sobreviveu a um ataque de novichok em 2015, diz ter “100%” de certeza que agentes secretos russos estão por detrás do ataque.

“Não há como isso ter sido um acidente, não havia nada no prédio que pudesse ter detonado sem interferência externa”, disse Gebrev ao jornal The Guardian.

As autoridades acreditam que em causa está a ação de forças especiais do GRU, um grupo dos serviços secretos russos encarregado das operações mais arriscadas no estrangeiro. Em particular a Unidade 29155, responsável pelos assassínios na Europa e suspeita de estar por detrás do envenenamento de antigos espiões e de diplomatas americanos e canadianos.

“As operações de informações têm vindo recentemente a aumentar, depois de centenas de expulsões de oficiais de informações e agentes russos de países ocidentais entre 2018 e 2022. Muitos desses russos reaparecem nos Balcãs, na Áustria e na Suíça, e é a partir de tais bases que os russos montam operações de espionagem, subversão e de assassínios contra outros países europeus, incluindo Portugal”, explica Victor Madeira, um historiador especializado no estudo da contrainformação e subversão russa, a viver no Reino Unido.

Em 2014, ano em que rebentou a guerra no Donbass, duas explosões atingiram dois depósitos de munições da Chéquia. A primeira explosão aconteceu a 16 de outubro e a segunda a 3 de dezembro. Centenas de toneladas de explosivos foram destruídas e várias vilas nos arredores dos paióis tiveram de ser evacuadas.

De acordo com as autoridades locais, o ataque aconteceu depois da intervenção de dois agentes da unidade 29155, que tentaram travar o fornecimento de armamento para a Ucrânia.

“Temos de pôr em marcha medidas para evitar a sabotagem. Tudo o que são áreas sensíveis, têm de ser protegidas – barragens, centrais nucleares, fábricas de munições, centros de investigação e órgãos de governo, precisam não só de segurança eletrónica, mas segurança física. A Rússia não vai parar”, frisa o major-general Isidro de Morais Pereira.

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