Europa esquivou-se à “bala” de gás de Putin. Mas continua a ter sede de energia barata

CNN , Luke McGee
9 set, 15:00
Nord Stream 2 (AP Photo/Michael Sohn)

ANÁLISE || As reservas de gás da Europa já estão tão cheias este ano que é consensual que o Kremlin não conseguirá utilizar a energia como uma arma que altere a determinação europeia contra Moscovo e o apoio à Ucrânia. Mas há problemas no futuro.

A partir do momento em que a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia pareceu inevitável, a Europa soube que em breve teria de colocar-se a si mesma algumas questões muito complicadas.

Entre elas, a mais importante era saber se o continente conseguiria libertar-se do gás russo que consome avidamente há décadas - e evitar ficar à mercê do Presidente Vladimir Putin, caso este cortasse o fornecimento em resposta ao apoio à Ucrânia.

Para a Europa, a segurança energética sempre foi um compromisso: a energia barata e importada implica o risco de dependência dos países de onde ela provém.

No caso da Rússia e do seu gás natural, as autoridades especularam inicialmente que um inverno longo e frio em 2022-23 poderia forçar a Europa a moderar o seu castigo a Moscovo. Afinal, os países desenvolvidos, como os da União Europeia, não podiam razoavelmente deixar os seus cidadãos passar frio por causa da Ucrânia.

No entanto, uma combinação de sorte, planeamento e apoio dos europeus à Ucrânia tornou a guerra energética - outrora considerada o trunfo de Putin - redundante. A Europa teve um inverno especialmente ameno, enquanto os governos e os cidadãos fizeram um esforço concertado para consumir menos gás.

A combinação de um inverno quente e de um menor consumo de gás criou uma janela para a Europa se afastar da sua política de Wandel durch Handel (mudança através do comércio) - que partia do princípio de que a Rússia se alinharia com os valores ocidentais em troca de dinheiro.

A estação de receção do gasoduto Nord Stream 2 da Rússia, perto de Lubmin, na Alemanha, em fevereiro de 2022. AP Photo/Michael Sohn

O primeiro passo foi reduzir as importações da Rússia. Em 2021, o ano anterior à invasão em grande escala da Ucrânia, 45% de todo o gás importado pela UE provinha da Rússia. Na Alemanha, esse valor pesava 52%. Desde então, os números caíram a pique. De acordo com os dados da UE, no primeiro trimestre de 2023 a Rússia representava apenas 17,4% de todo o gás importado pelo bloco.

O segundo passo foi aproveitar o inverno quente e encher as reservas de gás para preparar a estação fria de 2023-24.

As reservas de gás da Europa já estão tão cheias este ano que é consensual que o Kremlin não conseguirá utilizar a energia como uma arma que altere a determinação europeia contra Moscovo e o apoio à Ucrânia. A UE, no seu conjunto, atingiu o seu objetivo de ter 90% das reservas em meados de agosto, meses antes do prazo de 1 de novembro.

Além disso, a Europa diversificou significativamente as suas fontes de energia.

Agora, as más notícias. Apesar destes esforços, funcionários oficiais e analistas receiam que, por muito impressionantes que tenham sido estes avanços, a energia da Europa esteja longe de ser segura a longo prazo.

O ponto mais imediato de preocupação é que, apesar de a Europa ter diversificado as suas importações de gás, grande parte do gás atualmente armazenado é gás natural liquefeito (GNL).

Tanques de depósito de gás natural no porto de Sines (Horacio Villalobo/Getty Images)

"O GNL é uma solução tão óbvia que se tornou a prioridade, mas como o GNL é também tão flexível e transacionável, é um pouco mais difícil rastrear a sua proveniência", diz Milan Elkerbout, investigador do Centro de Estudos de Política Europeia.

"Isso significa que, indiretamente, parte do GNL pode vir da Rússia e contribuir para as suas receitas", acrescenta.

Embora a UE afirme que a maior parte do seu GNL é comprada aos EUA, ao Qatar e à Nigéria, ele é frequentemente vendido em bolsas, onde os contratos são relativos a volumes sem qualquer referência à origem.

A segunda área de preocupação - e sem dúvida a mais importante - é a longo prazo.

Embora a Europa possa ter abandonado parcialmente a política de mudança através do comércio com a Rússia, continua a depender de outros para obter energia. E quando se trata de segurança energética, a dependência remete-nos, em última análise, para o clássico compromisso: economia versus risco.

Uma das formas como a UE espera libertar-se da dependência energética é através do seu Pacto Ecológico, um plano grandioso para tornar a Europa o primeiro continente com impacto neutro no clima até 2050. O projeto, que, de acordo com as projecções actuais, custará mais de 1 bilião de euros (o mesmo que um milhão de milhões de euros), será concretizado através de vários meios, desde a plantação de 3 mil milhões de novas árvores até à renovação de edifícios para que sejam energeticamente eficientes. Naturalmente, o investimento maciço em energias renováveis e transportes limpos também desempenhará um papel importante.

O primeiro grande objetivo do Pacto Ecológico consiste em reduzir as emissões de gases com efeito de estufa da UE em 55% até 2030, em comparação com os níveis de 1990. Os críticos estão cada vez mais preocupados com o facto de a lentidão dos progressos para atingir este objetivo, além dos enormes custos para cada um dos Estados-Membros, levar a que alguns procurem outra fonte estrangeira para ajudar na transição energética: a China.

Poucos em Bruxelas dirão que a relação da UE com Pequim é atualmente satisfatória. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, mudou recentemente a sua visão da China para uma posição mais agressiva, falando com algum pormenor da necessidade de "reduzir o risco" da relação da Europa com o país. No entanto, também se admite que muitos dos planos a longo prazo da Europa seriam melhor realizados em parceria com a China, incluindo as suas ambições de uma Europa verde.

A posição de Von der Leyen reflecte a divergência de pontos de vista entre os 27 Estados-Membros da UE. Alguns são extremamente agressivos e vêem a China como um agressor autoritário e uma ameaça existencial à segurança; outros vêem-na como uma fonte óbvia de painéis solares, turbinas eólicas e baterias baratas. Outros não vêem alternativa a trabalhar com a China, mas querem avançar com cautela.

A ameaça, como alguns a vêem, é o facto de a China se ter tornado estrategicamente um ator-chave em muitas das tecnologias e matérias-primas essenciais para uma transição ecológica.

"A China iniciou a sua estratégia industrial para a energia verde há cerca de 15 anos. Fizeram-no muito bem, assegurando recursos naturais como o lítio para as baterias, o aço para as turbinas eólicas, e já construíram a capacidade de produção para fabricar todo este equipamento", diz Adam Bell, um antigo funcionário oficial do governo britânico para a energia.

"Entretanto, a Europa hesitou e agora é provavelmente inevitável que a China venha a desempenhar um papel significativo no futuro verde da Europa sem uma ação radical", acrescenta.

A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, com  Volodymyr Zelensky em Kiev, no início de fevereiro. Dias antes, tinha apresentado em Bruxelas o "Plano Industrial do Acordo Verde" da UE, para garantir que o bloco desempenha um papel de liderança na produção de tecnologia limpa. Foto Getty Images

O que é que tudo isto tem a ver com geopolítica e segurança?

"O capitalismo chinês subsidiado pelo Estado, juntamente com o controlo de uma quantidade significativa de matérias-primas essenciais, dá à indústria chinesa uma vantagem competitiva significativa, que as empresas europeias terão cada vez mais dificuldade em igualar", afirma Velina Tchakarova, uma das principais especialistas em segurança europeia.

"As tácticas da China para dividir e enfraquecer a unidade entre os aliados europeus dos Estados Unidos, juntamente com as suas ambições regionais em locais como Taiwan, podem tornar-se um ponto de pressão em que a China aproveita a sua influência geoeconómica através da dependência dos minerais e das terras raras para atingir objectivos geopolíticos", afirma Tchakarova.

Vários funcionários ocidentais apontaram ameaças de segurança mais directas colocadas por Pequim, caso a Europa acabe por depender dela para a sua transição ecológica. Essas ameaças vão desde as vulnerabilidades de fornecimento, como a Europa viu com a Rússia, até aos ciberataques directos através de tecnologia criada na China. Embora os funcionários europeus tenham muitas vezes vergonha de falar publicamente sobre o assunto, fontes de segurança seniores da UE já disseram à CNN que a China continua a ser a principal fonte de ciberataques na UE, a maioria dos quais centrados na espionagem empresarial.

A China tem negado repetidamente o seu envolvimento em ciberataques.

A China não é a única ameaça no que respeita à segurança energética na Europa. A UE importa energia de muitos países cujos objectivos democráticos e geopolíticos não coincidem com os de Bruxelas: Qatar, Arábia Saudita, Khazakstan, Líbia e, claro, Rússia.

A Europa tem envidado grandes esforços para resolver este problema e o ritmo a que respondeu à crise russa é impressionante, uma vez que outrora foi considerado impossível. No entanto, as grandes e envelhecidas populações da Europa - combinadas com as suas economias em estagnação - continuam a necessitar de enormes quantidades de energia para poderem manter o seu atual modo de vida.

Como disse um diplomata da UE: "É uma das ironias da vida que os países que detêm as cartas da energia sejam, por vezes, aqueles que são, na melhor das hipóteses, parceiros pouco fiáveis e, na pior, futuros inimigos."

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