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Mário Branco: «Paus, facas e até o espigão da bandeira de canto apontado aos meus jogadores»

18 mar, 17:30
Mário Branco, diretor desportivo do Fenerbahçe (DR)

Diretor desportivo do Fenerbahçe recorda, em exclusivo ao Maisfutebol, os incidentes ocorridos, na noite deste domingo, após o triunfo na casa do «rival» Trabzonspor (2-3). Do «camarote privado» ao relvado, Mário Branco sublinha que o futebol espelha a sociedade «exacerbada».

A noite deste domingo perdurará na memória de Mário Branco como «perturbadora». Isto porque o diretor desportivo do Fenerbahçe assistiu, na primeira pessoa, à confusão que «engoliu» a sua equipa após o triunfo no reduto Trabzonspor (2-3), em encontro da 30.ª jornada da Liga.

«As imagens são elucidativas da gravidade dos incidentes, mas parecia que estava a adivinhar este desfecho, porque na segunda parte praticamente não se jogou. O encontro foi interrompido duas ou três vezes, por arremesso de garrafas, caixas de plástico e isqueiros, que atingiram o Fred, o Tadic ou o Samuel Osayi», começa por descrever, em entrevista ao Maisfutebol.

Mário Branco, que assistiu à maioria da partida no camarote privado, reservado à comitiva visitante, diz-se «surpreso» por o encontro ter sido disputado até ao fim.

«A área lateral do campo estava cheia de plástico, o que dificultava a ação dos jogadores. Para nós foi uma surpresa o jogo não ter terminado mais cedo. Na segunda parte sofremos dois golos, o primeiro na sequência de um livre que demorou quatro minutos para ser marcado, uma vez que o nosso guarda-redes foi molestado pelos adeptos. Só a interferência ilegal do público permitiu ao adversário repor a igualdade», argumenta.

Em todo o caso, a ira proveniente das bancadas não visava apenas quem vestia de amarelo e azul dentro de campo: «Estive no camarote [privado] e houve tentativas de agressão, com o arremesso de objetos. Aliás, uma garrafa vinha em direção à minha cara, mas consegui agarrá-la».

Longe de imaginar o que se seguiria, o diretor do Fenerbahçe desceu ao relvado nos últimos minutos, a fim de evitar qualquer desaguisado. Aquando do derradeiro apito de Halil Humut Meret – árbitro agredido em dezembro – Mário Branco dirigiu-se ao juiz, trocou algumas impressões sobre as peripécias da partida, e juntou-se às celebrações no meio-campo.

«Fomos superiores e tivemos coragem para ganhar o jogo, porque foi muito difícil, sobretudo em termos psicológicos. A deslocação mais complicada, precisamente pelo ambiente no estádio, é o Trabzonspor. Festejamos no centro de campo, tal como eles fizeram na primeira volta, sem que nada lhes tenha acontecido», conta o português, de 48 anos.

 

Todavia, a frustração dos adeptos da casa estendeu-se ao relvado quando um solitário «ultra» escapou aos seguranças e, de punhos cerrados, enfrentou jogadores e dirigentes do Fenerbahçe. A resposta de Samuel Osayi – que agrediu o adepto em causa – agravou os ânimos, sendo o mote para a batalha campal.

«Vi paus, facas e até o espigão da bandeira de canto apontado aos meus jogadores. Tiveram a integridade física em causa, defenderam-se e corremos para o túnel. E, lá, ainda houve algumas agressões, de alguns jogadores [do Trabzonspor] que não se comportaram à altura e não percebiam o sucedido», recorda Mário Branco.

Seguiram-se duas horas no balneário, sucessivas chamadas das famílias dos jogadores e o rebobinar de momentos inéditos.

«Foi a primeira vez que vi adeptos saltarem das bancadas e armados. O que me mais me perturbou foi o ódio nos olhares. Agora, tenho jogadores estrangeiros que, antes de viajarem para as respetivas seleções, puseram em causa regressar à Turquia. São reações a quente, mas estes incidentes em nada abonam a favor do futebol turco. Há jogadores com escoriações e arranhões», lamenta.

 

«Fomos atacados e tentámos nos defender»

Na manhã desta segunda-feira, o presidente da FIFA recorreu às redes sociais para repudiar estes atos de violência. Questionado sobre eventuais castigos a aplicar a Samuel Osayi ou Michy Batshuayi, por agredirem adeptos, Mário Branco argumenta que os jogadores agiram em «legítima defesa».

«A nossa comitiva conta com cerca de 50 elementos e estávamos perante um estádio com 40 mil pessoas. Fomos atacados, em todas as direções, e tentámos nos defender. As imagens são esclarecedoras. Os atletas, depois de 100 minutos intensos, tiveram de usar o corpo para se protegerem, enquanto defendiam o símbolo e a instituição que representam», riposta o português.

Por isso, Mário Branco aguarda as providências da justiça turca, enquanto 12 adeptos já foram detidos e outros cinco permanecem em custódia policial. Em simultâneo, revela o português, a direção do Fenerbahçe reunirá esta segunda-feira.

Este não é o primeiro embate entre a equipa do Fenerbahçe e os adeptos do Trabzonspor. Em 2015, enquanto se deslocava para o estádio dos «rivais», o autocarro do emblema de Istambul foi alvejado, a tiro, sem que nenhum suspeito tenha sido identificado. Desde então, conta Mário Branco, a tensão e a rivalidade agravaram-se.

«Focado em terminar a minha missão»

Na Turquia desde junho de 2022, depois da passagem por Famalicão, Mário Branco integrou a equipa técnica de Jorge Jesus e foi responsável pelas contratações sonantes de Bonucci, Fred, Dzeko e Tadic. Pouco, ou nada, intimidado pelos incidentes relatados, afirma estar de pé e cale no Fenerbahçe, pelo menos até 31 de maio.

«Estou focado em terminar a minha missão. Estamos no segundo lugar da Liga, vamos disputar a Supertaça [a 7 de abril, frente ao Galatasaray], e estamos nos “quartos” da Liga Conferência. Tenho contrato e não é esta situação que me vai fazer desistir», reitera.

Ainda que tenha exercido o cargo de diretor desportivo nos gregos do PAOK e nos croatas do Hajduk Split, Mário Branco garante que nunca viveu um descalabro deste nível. Mas, sublinha, este problema não é sinónimo de «recuo no tempo».

«É o reflexo da sociedade, cada vez mais exacerbada, em todas as atividades, como a política e a economia. E não é só na Turquia, também em Portugal já aconteceram incidentes semelhantes. Portanto, este é um problema transversal e algo que devemos erradicar», conclui.

 

Mário Branco, outrora «scout» em Espanha, Polónia e Roménia, exerceu a função de diretor desportivo no Leixões e Estoril. Pelo meio, trabalhou com os romenos do Astra Giurgiu.

Quanto ao Fenerbahçe, os comandados de Ismail Kartal são segundos na Liga, com 79 pontos, menos dois face ao Galatasaray, e mais 30 para o Trabzonspor.

Nesta Liga – destino frequente entre os portugueses – atuam jogadores como Sérgio Oliveira (Galatasaray), Gedson Fernandes (Besiktas), Rochinha (Kasimpasa), Sequeira (Pendikspor) ou Nani (Adana Demirspor). Além disso, Fernando Santos é, desde janeiro, timoneiro do Besiktas (4.º).

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