Alojamento local: por cada fecho em pandemia, houve duas aberturas. Só Lisboa contraria tendência

13 dez 2021, 07:00
Lisboa é a cidade portuguesa com mais restaurantes vegan e vegetarianos
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Em 20 meses de pandemia, registaram-se 4.936 pedidos de cessação de atividade e 11.752 novos registos. O turismo de cidade, mais dependente dos estrangeiros, sofreu a maior quebra. Já o interior, com ofertas adaptadas a uma vida sem grandes contactos, ganhou novo fôlego.

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Foi o desemprego que levou Vanessa Rola ao alojamento local. “O sonho de me dedicar a uma coisa deste género já o tinha há muitos anos”. Em 2016, deu o primeiro passo. Tinha já três apartamentos na zona da Graça, em Lisboa, quando a pandemia lhe tirou o som dos turistas a bater à porta.

“Fiquei sem rendimento de um dia para o outro. Ainda tentei os alojamentos em reservas de média e longa duração. Mas não era viável continuar assim. Tive péssimas experiências com as pessoas que lá estavam”, conta a empresária de 41 anos.

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Estragos e problemas na hora de receber fizeram-na optar pelo ponto final em junho deste ano. “Não era possível voltar a fazer o esforço de aguentar até à primavera do ano que vem. Esgotei todos os balões de oxigénio possíveis e imaginários”. As poupanças que havia esgotaram-se. Os apoios não foram suficientes. Vanessa Rola devolveu as casas que explorava aos proprietários. E voltou para a carreira antiga, como “copywriter”.

A história de Vanessa Rola integra a lista dos 4.936 pedidos de cessação de atividade que o setor do alojamento local protagonizou desde o início da pandemia, em março do ano passado, até outubro de 2021. Mas, mesmo num contexto de dificuldades, os números mostram uma realidade diferente: por cada fecho, surgiram dois novos registos. Foram 11.752, segundo os dados do Turismo de Portugal cedidos à CNN Portugal.

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Zonas históricas de Lisboa dependem fortemente do turismo (Foto: Reuters)

Lisboa, a única com mais fechos do que aberturas

O caso de Vanessa Rola ajuda a comprovar uma outra realidade: o alojamento local de Lisboa, muito dependente dos turistas estrangeiros, foi o que mais sofreu com a pandemia. O distrito é o único a nível continental, no período analisado, a ter um número maior de fechos do que de novos registos: 1.397 contra 1.349.

Trata-se de uma diferença mínima, mas a comparação com o destino mais semelhante, o Porto, ajuda a mostrar como a pandemia abanou com mais força a dinâmica da capital e seus arredores: o distrito do Porto teve mais novos registos (1673) e menos cessações de atividade (964).

“Há uma diferença enorme se olharmos apenas para a cidade de Lisboa. Fizemos o acompanhamento das plataformas [de reserva] e, durante todo o período da pandemia, tivemos mais de 2100 anúncios que desapareceram”, explica Eduardo Miranda, presidente da Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP).

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Na prática, aqueles que deixaram de promover “online” os seus espaços são mais do que os empresários que deram baixa dos seus negócios no registo nacional do setor. “É o problema das zonas de contenção: as pessoas não querem perder o registo. Muitas vezes, o que fazem é não dar baixa”, explica.

A este balanço, diz a ALEP, há a juntar outros 1500 “registos fantasmas, que nunca foram ativados”. A maioria foi feita na véspera de novas barreiras ao negócio nas zonas históricas da cidade de Lisboa. Numa altura em que a oposição quer travar novos alojamentos locais na capital, a associação pede à autarquia um “levantamento a sério”.

“É preciso um trabalho de limpeza de base de dados, antes de tomar qualquer tipo de postura. A Câmara de Lisboa tem um outro recurso que não utiliza, que são os dados da taxa turística”, diz Eduardo Miranda. O setor sente-se usado no meio de uma “guerra política” e, por isso, diz-se disposto a ajudar em todo e qualquer levantamento que ajude a fazer o (verdadeiro) retrato do setor e a tomar decisões.

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Segurança do interior levou portugueses para estes territórios

A descoberta do interior e dos nómadas digitais

Em 20 meses de pandemia, os indicadores foram-se mantendo relativamente estáveis ao longo do tempo. Em apenas dois meses – abril de 2020 e janeiro de 2021 – houve mais registos de fechos do que de aberturas, segundo os dados do Turismo de Portugal. Importa explicar que estes meses correspondem aos períodos mais críticos da covid-19 em Portugal, com o país em confinamento.

Confinamento, isolamento ou teletrabalho foram, precisamente, três das palavras que passaram a fazer parte do dia a dia de todos. Também do alojamento local. Prova disso são os números dos novos registos em distritos do interior do país. Os dados mostram que, por cada fecho, houve 20 a 40 vezes mais aberturas em Bragança, Guarda, Portalegre ou Vila Real.

“É a prova de que, durante o período da covid-19, o interior foi um mercado com um saldo positivo. Não só porque o alojamento local se encaixa com a ideia de uma casa própria, isolada. Foi também por as pessoas não estarem a viajar para o estrangeiro- Cresceu o turismo nacional. Muitos descobriram cá coisas espetaculares”, reforça Eduardo Miranda.

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Em qualquer ponto do país, seja litoral ou interior, os empresários viram despertar um novo segmento: os nómadas digitais. “Virei-me para os nómadas digitais, como tanta gente, com estadas mais longas. A procura é imensa. A rentabilidade é menor mas acaba por compensar. No inverno, para me defender, peço que me paguem a conta da energia á porta”, conta Elsa Bastos, que gere quatro apartamentos em Lisboa.

Na capital, o mercado dos estudantes e das pessoas que têm de fazer tratamentos mais prolongados em hospitais ajudou a compor o quadro.

Veja os números distrito a distrito

  Cessados Novos
Globais 4.936 11.752
Aveiro 83 310
Beja 26 179
Braga 90 430
Bragança 3 123
Castelo Branco 16 118
Coimbra 71 300
Évora 24 138
Faro 1.547 4248
Guarda 8 145
Leiria 210 607
Lisboa 1.397 1.349
Portalegre 5 108
Porto 964 1.673
Santarém 28 164
Setúbal 169 661
Viana do Castelo 34 360
Vila Real 5 118
Viseu 21 166

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