Desempregados na indústria do couro disparam mais de 80% no último ano

Agência Lusa , MM
6 abr, 11:11
Mercedes-Benz aposta na sustentabilidade (Foto: Ranurte/Unsplash)

A indústria do couro e dos produtos do couro é, aliás, de longe, a atividade económica onde o desemprego registado mais aumentou no mês de fevereiro em termos homólogos

O número de desempregados registados no IEFP com origem na indústria do couro e produtos de couro, onde se inserem os setores do calçado e curtumes, aumentou mais de 80% no último ano, passando de 2.455 para 4.435.

Segundo os dados mais recentes do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), relativos ao mês de fevereiro, os trabalhadores desta indústria correspondiam, há um ano, a 0,9% do total de desempregados inscritos, mas já pesam atualmente 1,5%.

A indústria do couro e dos produtos do couro é, aliás, de longe, a atividade económica onde o desemprego registado mais aumentou em termos homólogos – 80,7% - seguida, a larga distância, pelas atividades de informação e comunicação, com uma subida de 16,4% entre fevereiro de 2023 e o mesmo mês de 2024, e pela indústria do vestuário, com um incremento de 12,3%.

Em finais de março, o secretário-geral da Associação Portuguesa dos Industriais de Curtumes (APIC) afirmou que o setor está a atravessar dificuldades devido à crise no setor do calçado, mas manifestou-se confiante na retoma das encomendas já em 2025.

Em declarações à agência Lusa no âmbito da mais importante feira asiática de couro, acessórios e componentes para calçado – a Asia Pacific Leather Fair (APLF) 2024, que decorreu de 19 a 21 de março em Hong Kong e onde participaram cinco empresas portuguesas – Gonçalo Santos disse que muitas não marcaram presença no certame “porque estão a ter algumas dificuldades financeiras resultantes da falta de encomendas”.

O principal destinatário da produção da indústria portuguesa de curtumes, com uma quota de cerca de 50%, é o setor do calçado, sendo que as exportações nacionais de calçado recuaram 11,3% em quantidade e 8,2% em valor em 2023, face ao ano recorde de 2022, com 66 milhões de pares de calçado vendidos por 1.839 milhões de euros.

“Infelizmente temos já várias empresas de calçado que apresentaram falência. O mercado colocou as empresas em Portugal em dificuldade e depois, naturalmente, nós também ficamos em dificuldade”, lamentou o secretário-geral da APIC.

Contactado pela Lusa, o diretor de comunicação da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS) diz estar em curso um “reajustamento” no setor face ao “ano completamente extraordinário” de 2022, em que “as exportações aumentaram mais de 20% e a fileira criou praticamente 4.000 postos de trabalho”.

“Em 2022 estávamos numa situação de pleno emprego no setor do calçado em Portugal, de tal forma que as nossas empresas estavam a recrutar trabalhadores nos concelhos limítrofes, porque em algumas das zonas de forte concentração da indústria de calçado esgotámos a mão de obra disponível”, enfatizou.

“O movimento era de tal ordem – acrescentou – que, pela primeira vez, fizemos missões empresariais ao exterior, no sentido de perceber se tínhamos alternativas para as nossas empresas caso quiséssemos subcontratar a produção de gáspeas, por exemplo, no norte de África”.

Segundo a APICCAPS, o “reajustamento” a que se tem vindo a assistir desde 2023 “tem a ver com a dinâmica que aconteceu na indústria do calçado a nível internacional”, fruto da conjuntura económica, e que se traduziu numa quebra de 11% das importações europeias e de 30% nas importações americanas, sendo que estes dois mercados representam, juntos, mais de 90% das exportações do calçado português.

“Aliás, todos os grandes ‘players’ internacionais tiveram quebras superiores a dois dígitos em 2023 porque, de facto, o setor do calçado a nível internacional abrandou de forma muito significativa”, salienta, concretizando que, por exemplo, em Espanha – um dos grandes concorrentes de Portugal – a situação levou à perda de 14.000 postos de trabalho.

Afirmando não ter números relativos aos encerramentos de empresas da fileira em Portugal, Paulo Gonçalves acredita que estes “não chegarão às duas dezenas”. E, embora reconheça que “é uma situação muito preocupante”, considera que os dados “não são alarmantes”.

“De vez em quando ainda vamos sendo surpreendidos, mas os números não são alarmantes. Naturalmente que qualquer empresa, quando fecha, traz alarme social e é uma situação muito preocupante, nomeadamente porque há pessoas que perdem postos de trabalho e vão ter de ir para o desemprego. Ainda na semana passada, [o caso de] uma empresa como a de Felgueiras [Rolando da Cunha Melo (RCM), que pediu a insolvência após mais de 60 anos de atividade], naturalmente que nos preocupa e nos deixa muito tristes, mas os casos, ainda assim, são não são alarmantes”, sustentou.

Neste momento, a expectativa da APICCAPS é que 2024 “já seja de alguma recuperação, mas fundamentalmente centrada no segundo semestre”: “Já tínhamos sinais anteriores que nos levavam a concluir que, até abril/maio, o setor ainda estaria numa fase de alguma contenção. Mas, nos próximos meses, a expectativa é que já comecemos a ter uma dinâmica positiva no nosso setor, quer ao nível das exportações, quer da produção e emprego”, afirmou o diretor de comunicação.

Paulo Gonçalves salienta que o essencial é que, “de facto, se comece a efetivar alguma recuperação económica”, uma vez que o setor “depende em mais de 90% das exportações”.

A fileira do calçado e artigos de pele assegura cerca de 40.000 postos de trabalho em Portugal, das quais 32.000 no setor do calçado. Juntando o setor dos curtumes, perfaz um total de 45.000 empregos.

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