Benfica-Sporting: quatro ideias táticas que explicam o resultado do dérbi

3 abr, 00:12
Nicolás Otamendi, Viktor Gyökeres e João Neves no Benfica-Sporting (Rodrigo Antunes/Lusa)

João Pacheco, treinador e analista de futebol, desmonta o jogo grande em momentos chave

Partindo para o terceiro confronto esta época, com um bom conhecimento do que o seu adversário é capaz e como costuma abordar estes jogos, Benfica e Sporting procuram normalmente pequenas nuances/ajustes táticos (sem grandes alterações de estilo e estrutura de jogo) de modo a conseguir domínio sobre o adversário. Tal como já referimos noutras análises, sendo duas equipas muito dominantes, esperam-se jogos muito disputados e intensos, em que um maior domínio normalmente acontece para a equipa mais capaz no momento pressão/construção.

1. Benfica entrou intenso na pressão coletiva, a empurrar o Sporting para as laterais

Ao contrário do último jogo, o Benfica apresentou-se muito mais eficaz no momento de pressão desde a saída de bola do adversário, usando esse momento para dominar e instalar-se no meio-campo ofensivo.  Neste aspeto, a equipa de Roger Schmidt mostrou a sua melhor versão. Partindo do seu habitual 4x4x2 no momento defensivo, usando uma pressão mais coletiva e organizada do que anteriormente (equipa mais próxima, pressionando junta e em bloco), conseguiu anular as ligações mais fortes do Sporting. Com um bom trabalho de Rafa e Tengstedt (e por vezes Di Maria), intensos na pressão e a controlar a construção a três do Sporting, o Benfica tentava orientar o jogo mais para a lateral e cortava linhas de passe para a bola circular por trás. Colava muitos jogadores na zona da bola e anulava muito bem a entrada a linha de passe para os médios do Sporting, sendo muito rápida a saltar na pressão. Florentino e João Neves fizeram um grande trabalho defensivo, sempre muito próximos, um pressionando o médio do Sporting no lado da bola o outro dando cobertura e fechando o centro, com grande capacidade de pressão e de cobrirem muito espaço. Corriam muito e bem os médios benfiquistas e conseguiam chegar a todo lado. Os laterais do Benfica, por outro lado, estavam muito intensos a pressionar Paulinho e Trincão, não os deixando virar. Com isto, anulava as ligações pelos médios do Sporting e as ligações nos alas entrelinhas. Não deixava o seu adversário pausar o seu jogo com bola, ter posses longas ou posicionar-se para encontrar homens livres, de forma a depois acelerar jogo. A partir deste momento o Benfica empurrava o Sporting para trás, conquistava muitas bolas em zonas altas, usando este momento para criar situações de perigo através de ataques rápidos. Encontrava espaços para acelerar sobre a linha defensiva do Sporting, que nunca esteve confortável, perante a mobilidade e velocidade dos atacantes benfiquistas. Di Maria, Rafa e Neres, com muito espaço para conduzir/driblar sobre os defesas sportinguistas, iam conseguido muitas aproximações à baliza adversária. 

2. Sporting deu espaços entre linhas e expôs a defesa demasiadas vezes

Do outro lado, o Sporting com uma forma de pressionar ligeiramente diferente do jogo da primeira mão. Paulinho mais próximo de Gyökeres, para pressionarem os centrais, Nuno Santos numa linha alta para pressionar Bah, aproximando-se de um 4-4-2 no momento de pressão à saída de bola do adversário. Bragança ia subindo para controlar Florentino (mais baixo na construção). No entanto, o Sporting teve muitas dificuldades em condicionar e recuperar bolas em zonas altas, dava espaços entre linhas, deixava a sua linha defensiva exposta e tinha de baixar para defender.

3. Amorim respondeu ao intervalo com revolução à direita e mais jogo nos apoios frontais

Com uma pressão intensa, ataques-rápidos e reação à perda muito forte, tirando o jogo entrelinhas ao Sporting e não o deixando ter a bola do modo que gosta, o Benfica controlava e dominava o jogo. Perante as dificuldades, Ruben Amorim fez três alterações ao intervalo, que acabaram por se revelar importantes no jogo. Mudando o corredor esquerdo, com Catamo e St. Juste, e com Paulinho muitas vezes a trocar com Trincão, Ruben Amorim conseguiu inverter a pressão. A partir daí passou a ser Catamo, pela direita, a pressionar mais alto, mas sobretudo a dar mais velocidade e criatividade a esse corredor, o que acabou por criar problemas no adversário: não é a primeira vez que o Benfica sente mais dificuldades em defender nessa zona, aliás. Desta forma o Sporting tentou entrar melhor na segunda parte e carregar desde cedo por esse corredor, acabando por fazer dois golos por aí, um após rutura para essa zona de Gyokeres, outro após lance individual de Catamo. Tentava também ter melhores saídas de bola, usando os típicos apoios frontais para fugir à pressão e depois ligar com jogadores livres. A cada golo do Sporting, o Benfica respondia também com golo. O jogo estava aberto e intenso, com mais chegadas as duas áreas. Por momentos o havia mais equilíbrio e o jogo mais repartido.

4. Benfica não conseguiu circular a bola com critério na fase fundamental do jogo

Com o tempo, porém, o Sporting passou a defender mais em bloco, menos pressionante e ajustando-se mais tempo em 5-4-1 em zona baixa. O Benfica tentou manter a intensidade de pressão e de ataques rápidos. Continuava a carregar sobre o adversário, portanto. Ainda que o Sporting fosse nesta fase controlando melhor, nunca ficou confortável. O Benfica tentava chegar ao golo com a mesma cadencia de ataques, alterou jogadores para dar mais energia, sem alterações ao estilo e à estrutura. Mas talvez tenha faltado nesta fase pausar um pouco mais os seus ataques. Perante um bloco mais baixo, talvez fosse importante aguentar mais a bola, circular com mais critério, ir aos dois corredores e não forçar sempre rápido. Procurar atacar de uma forma um pouco mais pensada, no fundo. O jogo acabou como começou, com o Benfica mais dominante, mais pressionante e a jogar no meio-campo adversário, mas sem conseguir chegar ao golo que lhe faltou para se apurar para a final.

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