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Dois anos depois, Cruijff continua a fazer-nos pensar

24 mar 2018, 19:24
Johan Cruijff (Lusa)

No aniversário da morte do número 14, algumas ideias retiradas da sua autobiografia

Há precisamente dois anos Johan Cruijff deixava-nos, vitimado por um cancro. As reações à sua morte, de Maradona a Beckenbauer, de Pelé a Platini, deram uma ideia aproximada da dimensão da figura. Somando as várias facetas de jogador excecional, treinador visionário e ideólogo polémico, ninguém influenciou tanto como ele o futebol dos últimos 50 anos: mesmo o que não foi feito de acordo com as suas ideias foi, em larga medida, feito contra elas.

Ninguém como ele: as etapas que definiram o génio

Sem Cruijff não teria havido Ajax, nem a Holanda dos anos 70, nem os seus antídotos alemães, nem a tentação europeísta da seleção brasileira, nem o novo Ajax dos anos 80, nem o Milan de Sacchi, nem o dream team do Barcelona de 90, nem a transformação ideológica do futebol espanhol para o século XXI. Nem, muito menos, o Barcelona liderado por Guardiola, e a série de equipas que se organizaram tentando replicar-lhe os métodos ou derrotá-lo pelo contraste. Sim, mesmo um ano depois da sua morte, e mais de 20 anos após o final de carreira como treinador, o futebol atual é ainda, em larga medida, herdeiro dos debates em torno das ideias de Cruijff, o homem que um dia definiu a tática como «a arte de fazer o adversário jogar mal».

E foi isso mesmo que Pep Guardiola - porventura o seu discípulo mais direto e mais ilustre - fez questão de lembrar, em outubro de 2016, por ocasião do lançamento póstumo de «My Turn», a autobiografia que o holandês vinha escrevendo nos meses que antecederam a sua morte: «A influência de Cruijff foi enorme e incrível. Tentamos fazer apenas o que ele nos ensinou. Não é comparável a nenhum outro, independente de títulos e conquistas. Eu não sabia nada sobre futebol, quando o conheci abriu-se um novo mundo. Ele ensinou duas gerações no mundo do futebol a compreender o jogo. Foi o treinador mais corajoso que conheci.»

O título do livro, «My Turn» (tradução livre do holandês Mijn Verhaal) tem um óbvio duplo sentido: é o my turn de «A minha vez», mas é também o turn alusivo à famosa reviravolta, a finta que Cruijff patenteou com nome próprio, em 1974:

Dividido em 14 capítulos (adivinhem porquê…) foge, em larga medida, à biografia que os adeptos poderiam esperar. Como o próprio Cruijff assume, logo nas linhas iniciais, este não é um livro que se detenha muito nos jogos mais marcantes da carreira, ou nas anedotas dos balneários onde impunha a sua personalidade: «Pormenores acerca dos jogos que joguei já foram contados, e melhor, por outras pessoas. O que me interessa é a ideia acerca do jogo. É ao olhar para a frente que me torno melhor naquilo que faço, seja isso o que for. Olhar para trás só me serve para perceber o que posso aprender com os erros», avisa à entrada.

Por isso, desengane-se quem pensa saciar a curiosidade com análises cuidadas sobre a maior parte dos jogadores que Cruijff treinou ou com quem se cruzou nos relvados – isso já o tinha feito num livro publicado em 1997, chamado «Mis futbolistas y yo». Ainda assim, a exceção acontece no capítulo 13, aquele onde pormenoriza com mais minúcia alguns conceitos chave e onde aceita fazer um breve who's who dos melhores jogadores com quem se cruzou.

Tipicamente, Cruijff faz a equipa de trás para a frente. Começa nos extremos (Garrincha à direita e Keizer à esquerda), prossegue com os médios ofensivos (Bobby Charlton e Di Stéfano), baixa para os laterais (Carlos Alberto e Krol) e completa a equipa com Lev Yashin, Beckenbauer, Guardiola, Pelé e Maradona. Não adianta tentar perceber como se arrumariam eles em campo: Cruijff acredita que daria certo, e isso é quanto basta. Afinal, citando uma das suas frases mais famosas, «se eu quisesse que entendesses tinha explicado melhor».

Como Madjer ajudou a criar o novo Barcelona

Também não adianta ler o livro à procura de pormenores saborosos acerca dos duelos com equipas portuguesas que marcaram pontos de viragem na sua carreira: não estão lá. A referência mais relevante ao futebol português acontece por volta do sexto capítulo, quando revela como, enquanto técnico do Ajax, no verão de 1987, esteve perto de contratar o argelino Rabah Madjer, então estrela do campeão europeu FC Porto e nome cobiçado pelos grandes clubes do continente.

Cruijff conta que chegou a um acordo verbal com os responsáveis do FC Porto, sob a condição de que a transferência permanecesse em segredo até ser jogada a Supertaça europeia, precisamente entre a equipa portuguesa e o Ajax. «Só dois dirigentes do Ajax sabiam do negócio e um deles divulgou a notícia à imprensa antes do tempo». Por causa disso, Cruijff conta que um furioso Pinto da Costa lhe garantiu que a transferência tinha caído por terra. «Foi a gota de água», escreve, a propósito dos conflitos crescentes com os dirigentes do Ajax. No final dessa época, 14 anos depois de o ter feito como jogador, rumou novamente a Barcelona, para mudar (outra vez) a história do clube catalão.

A ausência no Mundial da Argentina

Outra memória relevante tem a ver com as razões que levaram Cruijff, no auge da popularidade, a recusar-se a jogar no Mundial da Argentina, em 1978. Em discurso direto, o melhor jogador holandês de todos os tempos desmonta o mito – muito vulgarizado - de que o teria feito por razões políticas e não, como assume, por preocupações com a segurança da família.

«Depois da deceção do Europeu de 1976 as minhas dúvidas acerca da seleção começaram a crescer. Mas em 1977 recuperei sentimentos positivos, quando a equipa fez uns jogos brilhantes com a Inglaterra e a Bélgica. Comecei a pensar seriamente em aproveitar a oportunidade de ir à Argentina. Mas então algo horrível aconteceu»

A descrição minuciosa da tentativa de sequestro à mão armada de que foi vitima em sua casa, juntamente com toda a família chegada, em setembro de 1977, abre a porta a seis meses de instabilidade emocional que lhe acabaram com as dúvidas. «Depois disto não se vai para o outro lado do mundo, abandonando a família durante oito semanas. Não havia a menor possibilidade de eu viajar para a Argentina» assume. E isto apesar dos esforços do selecionador Ernst Happel e da campanha de apelo popular lançada pela imprensa, nos meses anteriores ao Mundial.

Ainda assim, avesso a pensar «como teria sido se…», Cruijff não esconde uma ponta de amargura, ao revelar o que lhe passou na cabeça quando, aceitando um convite da BBC, foi a Londres comentar a final entre Argentina e Holanda, de que era o grande ausente: «Passei um momento difícil no estúdio. Ao ver um jogo daqueles, é inevitável pensar que a minha carreira poderia ter terminado no topo, com um título mundial»

«Por que discutem? Ouçam-me e aprendam comigo»

Esse tipo de reminiscências e de pormenores são, como já se disse, relativamente raros ao longo das 299 páginas de «My Turn». Cruijff dedica grande parte das energias – que na etapa fnal do livro já não deveriam ser muitas – a tentar explicar as suas ideias acerca do futebol e também – num grau desproporcionado em relação à importância dos factos na sua trajetória, a acertar contas com os processos que o levaram a entrar em conflito com as direções de Barcelona e Ajax, os seus clubes de toda a vida.

Mas o livro vale pelo que releva da personalidade – teimosa, obstinada, viosonária, curiosa e aberta para o mundo – de Cruijff, que atribui essas características às dificuldades que sentiu na infância e adolescência, na Amesterdão do pós II Guerra - e, muito cedo órfão de pai - à procura de uma figura paterna, que viria a encontrar no Ajax. Vale, também, por alguns Cruijffismos deliciosos, espalhados ao longo das páginas. Como a distinção que fazia entre as pessoas que sabiam realmente do que falavam e as que apenas fingiam saber. Essas, notava, eram as que mais insistiam em discutir futebol com ele:

«Ninguém no futebol sabe mais de táticas, técnica ou treino de jovens do que eu, por isso por que discutem? É inútil, o melhor que têm a fazer é ouvir-me e aprender com isso».

No último capítulo, antes de um emotivo posfácio do seu filho Jordi Cruijff, Johan deixa, ainda assim, de forma bem clara, aquilo que considera serem as 14 regras fundamentais de conduta, no futebol e não só.

  1. Joga em equipa
  2. Assume responsabilidades
  3. Respeita os outros
  4. Envolve os outros naquilo que fazes
  5. Ousa tentar coisas novas
  6. Ajuda sempre os elementos da equipa
  7. Sê tu próprio
  8. Interação é fundamental, no futebol e na vida
  9. Domina as bases da técnica
  10. Sabe o que deves fazer taticamente
  11. Usa o desporto para desenvolver o corpo e o espírito
  12. Tenta aprender algo novo todos os dias
  13. Joga em conjunto
  14. Sê criativo, acrescenta beleza ao desporto

Um conjunto de ideias que, aplicadas em movimento, poderia dar qualquer coisa como isto. É ver e continuar a aprender.

[artigo escrito originalmente a 24 de março de 2017]

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