O diabo (da imigração) vem aí

27 fev, 11:44

Há políticos que tocam sempre o mesmo diapasão quando falam de imigrantes. Ora os perigos das portas abertas, ora a insegurança que instalam no país. Ao ouvir discursos como estes, é inevitável lembrar-me de quando Donald Trump classificou todos os mexicanos como “violadores” e pessoas que “trazem o crime” para os Estados Unidos. O antigo primeiro-ministro Passos Coelho alinhou por esta narrativa. Em plena campanha eleitoral, num discurso muito aguardado, referiu que “hoje as pessoas sentem uma insegurança que é resultado da falta de investimento e de prioridade que se deu a essas matérias”. Ainda rematou que “não é um acaso”. Ó diabo.

É recorrente alguns políticos enquadrarem as migrações apenas do ponto de vista securitário. Não será, por isso, natural que uma parte da população sinta que há um problema de segurança? Vem aí o diabo?

A plateia aplaudiu e Pedro Passos Coelho prosseguiu. “Lembro-me de uma intervenção que aqui fiz, em 2016, ainda no Pontal, em que disse: nós precisamos de ter um país aberto à imigração, mas cuidado que precisamos também de ter um país seguro”. O ex-primeiro-ministro faz aqui uma ligação direta entre imigração e insegurança, mas não apresenta dados. Vem aí o diabo?

Em Portugal não há informação que permita concluir que o aumento de imigrantes signifique um aumento da criminalidade. Aliás, a criminalidade violenta até diminuiu nos últimos anos e a percentagem de presos com nacionalidade portuguesa aumentou. Ou seja, não é verdade aquilo que diz Passos Coelho. Os dados do Relatório de Segurança Interna desmentem-no. Vem aí o diabo?

Recordo aqui uma entrevista de há dias, feita pela jornalista Amanda Lima, comentadora da CNN Portugal, ao coordenador da investigação criminal da Unidade Nacional Contra Terrorismo: “segundo as nossas estatísticas, 99% dos imigrantes vêm por bem”. David Freitas acrescenta ainda que “não tem havido nada de anormal, o perigo não aumentou, mas há uma deturpação dos factos e a realidade na corrobora minimamente isso”. Vem aí o diabo?

Esta ideia é popular: atenção, cuidado com os imigrantes! A securitização das migrações permite criar a ideia de uma ameaça existencial e ninguém gosta de estar sob ameaça. Enquanto português é natural que não queira perder a minha cultura, tal como um imigrante não quererá perder a sua. Até nas coisas mais supérfluas protegerei a minha identidade: defenderei ao milímetro aquilo que caracteriza o bairro onde vivo, do café da esquina à padaria. E depois lembro-me que nos últimos anos mais de um terço dos residentes do meu prédio passou a ser de nacionalidade estrangeira e que não perdi a minha identidade por isso; que vou recorrentemente à mercearia ao fundo da rua e que não me sinto inseguro porque o proprietário é estrangeiro; e que até tenho amigos que emigraram durante a crise de 2011 e que também eles, por estrangeiros que são em país alheio, não são vistos como um assunto de segurança nacional. Então, o diabo vem ou não vem?

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