"Responsáveis devem ser punidos severamente". O pai que luta “contra um muro de silêncio” sobre os jovens recrutas russos que não deviam estar a combater na Ucrânia

CNN Portugal , MJC
8 jun, 12:33
Dmitri Shkrebets com o filho, Yegor (Direitos reservados/ Twitter)

Ao início, a Rússia tinha negado as acusações de estar a enviar recrutas para a frente de batalha. Mas o Ministério Público já reconheceu que isso aconteceu "por engano" e promete apurar responsabilidades

Em meados de abril, Yegor Shkrebets morreu no naufrágio do navio Moskva, no Mar Negro. Mas o jovem estava a cumprir o serviço militar e, por isso, não deveria sequer estar naquele local. Agora, o seu pai insiste em apurar as responsabilidade e fazer justiça e esta terça-feira, finalmente, a sua luta deu alguns frutos: o Ministério Público de uma das secções em que o exército russo está dividido reconheceu que cerca de 600 recrutas participaram "por engano" nas hostilidades e vão ser retirados do serviço. Estão previstas punições para doze oficiais por esta ilegalidade, segundo a agência TASS. O presidente russo “emitiu ordens para encaminhar todos os casos para a Procuradoria Militar para punir os responsáveis.”

O serviço militar é obrigatório na Rússia entre os 18 e os 27 anos, mas apenas soldados profissionais, que assinaram um contrato de trabalho com as forças armadas, podem ser destacados para um conflito. No entanto, Yegor Shkrebets estava a cumprir o seu serviço militar quando o Moskva foi afundado. "Todos os responsáveis ​​[pelo naufrágio] devem ser despojados das suas insígnias e punidos severamente", exigiu o seu pai, Dmitri Shkrebets, repetidas vezes, nas redes sociais.

A sua luta para que se faça justiça, nestes últimos dois meses, deu-lhe alguma notoriedade na Rússia, conta o El Pais. Shkrebets não critica a ofensiva e mostra um respeito reverente pelas forças armadas como instituição. Mas as suas acusações deixam muitos comandantes numa situação desconfortável, já que ele está determinado em apurar as responsabilidades: "Mesmo no alto comando da frota do Mar Negro", afirma.

O pai do marinheiro perguntou às forças armadas o que tinha acontecido com seu filho. A resposta veio numa carta do Ministério Militar, que Shkrebets postou no início de maio no seu perfil do Vkontakte, o Facebook russo. “O navio em que Y. D. Shkrebets serviu não entrou nas águas territoriais da Ucrânia e não está incluído na lista de unidades e formações militares envolvidas na operação militar especial. Em 13 de abril de 2022, durante uma emergência que levou ao naufrágio, ele [Yegor] desapareceu. As buscas não obtiveram um resultado positivo e a localização do seu filho é desconhecida", dizia a carta.

O navio Moskva

Dmitri Shkrebets afirma estar a lutar “contra um muro de silêncio” nas Forças Armadas. Mas há cada vez mais testemunhos que corroboram a sua versão.

“Os recrutas não estão a participar e não participarão na luta. Também não haverá recrutamento adicional de reservistas", tinha garantido o presidente Vladimir Putin, numa mensagem para mulheres e mães de militares, emitida no Dia da Mulher, 8 de março. Dois dias depois, o porta-voz do Ministério da Defesa, Igor Konashénkov, admitiu ter detetado "vários casos" que contradiziam as palavras de Putin e que esses recrutas logo voltariam para casa. Alguns dos jovens foram identificados após a captura de alguns combatentes pela Ucrânia, segundo o ministério liderado por Sergei Shoigú.

Mas logo o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, sublinhou que se tal estivesse a acontecer, o presidente não era responsável. “Antes do início da operação militar especial, por instruções do presidente da Rússia, o comandante supremo em chefe Vladimir Putin, todos os comandantes das unidades das forças armadas foram instruídos a excluir a participação de recrutas de quaisquer tarefas em território ucraniano”, sublinhou o representante do Kremlin.

Embora o Governo tenha negado ao longo destes meses a participação do Moskva nos combates, esta terça-feira o canal Telegram do Provedor da Defesa da Rússia revelou que a mãe de um ferido a bordo do navio, Gulnaz Urazayeva, foi informada de que a tripulação foi incluída na lista de participantes da campanha militar para "proteger os seus direitos sociais e garantir que as famílias recebam os pagamentos" previstos.

Só esta terça-feira, a Procuradoria do Exército do Distrito Militar Ocidental da Rússia, uma das áreas em que as tropas do país estão distribuídas, estimou que cerca de 600 jovens foram destacados para a frente de combates. “Uma dúzia de comandantes foram responsáveis. Por essas violações da lei, medidas disciplinares serão tomadas e poderão ser demitidos”, explicou o representante do Ministério Público, Artur Yeguiyev.

A falta de preparação de muitos dos soldados enviados para a Ucrânia tem sido um dos focos de tensão entre os responsáveis russos. “O ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, declarou que os novos recrutas, durante o período de treino de Verão, serão treinados com atenção específica às lições aprendidas até agora na Ucrânia”, revela o relatório do Instituto para o Estudo da Guerrathink tank norte-americano sobre assuntos de defesa (ISW, na sigla inglesa), conhecido ontem à noite, referindo uma reunião com o Centro de Gestão da Defesa Nacional (NDCC) ocorrida nesse mesmo dia.

“Shoigu acrescentou que os recrutas de Verão irão aprender os primeiros socorros no campo de batalha, provavelmente respondendo às críticas dos membros da comunidade militar russa sobre táticas deficientes e falta de perspicácia nos primeiros socorros entre os soldados russos. No entanto, é pouco provável que os militares russos treinem e equipem adequadamente os recrutas russos enviados apressadamente para a frente de batalha como substitutos, e provavelmente procurem sobretudo apaziguar o descontentamento público”, lê-se no documento.

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