O Tejo coberto por um manto verde. "A água não corre praticamente nunca" às portas de Portugal

20 jul, 21:37

Isidro Garcia é guia em Alcântara, um município espanhol a 15 quilómetros da fronteira portuguesa, onde se situa uma ponte romana com quase dois mil anos de história logo abaixo da maior barragem do rio Tejo.


Os poucos turistas que aparecem para ver a ponte rapidamente se espantam com o estado do rio, coberto por um espesso manto verde, sem sinal de qualquer movimento de água.


Isidro não é biólogo, mas teve de procurar uma explicação para algo que antes era raro e que agora acontece com cada vez mais frequência, prolongando-se por cada vez mais tempo no verão.


"Choca muito. Visualmente é muito chamativo. É como se o rio fosse radioactivo", descreve.


O verde são algas, sinal daquilo a que os peritos chamam eutrofização, quando uma massa de água com pouco ou nenhum movimento acumula uma grande quantidade de matéria orgânica e poluição que provoca um crescimento excessivo de algas.


Depois de ver uma fotografia, António Gonçalves Henriques, antigo vice-presidente do Instituto da Água e ex-diretor-geral da Agência Portuguesa do Ambiente, confirma que tudo indica que aquilo que acontece em Alcântara será mesmo um processo de eutrofização, sinal de uma má qualidade da água, com maus cheiros e mau aspecto, além de prova de que a água está demasiado tempo estagnada.


"Espanha tem uma agricultura muito desenvolvida, com aplicação intensiva de fertilizantes, e existe uma degradação da qualidade da água do Tejo pelas águas residuais de grandes cidades como Madrid. Essas águas vêm todas até Portugal", explica o antigo responsável do Instituto da Água e hoje professor no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa.


António Gonçalves Henriques lamenta que Portugal e Espanha estejam há décadas para definir os chamados caudais ecológicos e contínuos que garantam que a água nunca para de correr nas barragens.


Aliás, este mesmo fenómeno de eutrofização já tinha acontecido em 2021 nesta mesma albufeira e chegou, em outubro, à parte onde o rio Tejo toca na fronteira portuguesa, motivando um comunicado da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).


Este ano o verde começou a acumular-se em Alcântara mais cedo, antes do verão, e Isidro Garcia garante que mais tarde ou mais cedo chegará a Portugal – a tendência é para que as algas cresçam com o tempo quente e a falta de corrente no rio.


"A água não corre praticamente nunca", refere quem vê o rio quase todos os dias. "É um sentimento de pena ver como um rio que foi fundamental para a história e o desenvolvimento desta zona de Portugal e Espanha se transformou nisto...", conclui.

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