Entre Varandas e Borges, o que aconteceu aos valores do desporto?

Há 57 min
Rui Borges renova contrato (LUSA/Manuel de Almeida)
Rui Borges renova contrato (LUSA/Manuel de Almeida)

Artigo de opinião de João Rodrigues dos Santos, professor de Economia do Desporto

O despedimento de Rui Borges do Sporting é muito mais do que uma decisão técnica. É um retrato de uma tendência que se tem vindo a instalar no futebol moderno, marcada pela crescente desvalorização da dimensão humana.

Há poucos meses, Rui Borges era apontado como o homem certo para liderar o projeto leonino. Tinha conquistado títulos, valorizado o clube e recebido sucessivos elogios. Chegou mesmo a renovar contrato até 2028.

Hoje, parece ter-se tornado descartável.

Frederico Varandas pode até vir a ser recompensado desportivamente pela aposta em Paulo Fonseca. O futuro dirá se a decisão foi acertada em termos competitivos. Mas existe uma diferença entre tomar uma decisão de gestão e tratar uma pessoa como facilmente substituível quando a pressão dos resultados aumenta.

Este tipo de gestão reflete uma lógica cada vez mais presente no desporto profissional, segundo a qual a perceção de ação imediata é mais importante do que a estabilidade, a confiança e, sobretudo, o respeito pelas pessoas. Muda-se para mostrar iniciativa. Substitui-se para transmitir controlo. Procura-se um novo rosto para recuperar rapidamente a narrativa.

Mas o futebol não é apenas uma indústria de resultados.

O futebol é um espaço de educação, de referências e de valores.

Quando um presidente toma decisões, não influencia apenas acionistas, sócios ou adeptos. Influencia milhares de jovens que observam o comportamento dos seus ídolos e das instituições que admiram.

No final, a questão não é apenas o que aconteceu a Rui Borges. É o que estamos dispostos a fazer aos outros quando os resultados deixam de aparecer.

No desporto, o respeito pelo próximo é um dos valores mais importantes a cultivar. Não pode ser um princípio invocado nas campanhas institucionais e esquecido quando surgem momentos de pressão.

O futebol precisa de vencer jogos. Mas precisa também de preservar aquilo que o torna socialmente relevante: a capacidade de promover integridade, lealdade e respeito humano.

Quando esses valores são sacrificados em nome da urgência, todos perdem mais do que imaginam. Mesmo quando ganham dentro de campo.

João Rodrigues dos Santos, Professor de Economia do Desporto e Coordenador Científico da área de Economia e Gestão da Universidade Europeia.

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