A teia que liga a vice-primeira-ministra russa (e o dinheiro “sujo” de Moscovo) a Portugal

A teia que liga a vice-primeira-ministra russa (e o dinheiro “sujo” de Moscovo) a Portugal

Investigação Filipe Caetano e Helena Lins

Imagem Nuno Assunção

Imagem de drone Fábio Mestre

Edição João Ferreira

Texto e Multimédia Teresa Abecasis

Há uma praça em Londres, ou “Londongrado”, conhecida como a “Praça Vermelha”, pela quantidade de russos que ali têm propriedades de luxo. O Financial Times já classificou o Chipre como a “Moscovo do Mediterrâneo”. Até agora, Portugal não era conhecido como um destino preferido pelo grande capital russo, mas, na última década, o círculo próximo de Tatyana Golikova gastou milhões de euros no país, enquanto a situação de milhões de russos se deteriorava.

São milhões de euros encobertos atrás de uma rede de empresas ligada a amigos e familiares de Tatyana Gorikova, a governante que desde 1987 é funcionária pública e que nos últimos anos assumiu um papel de destaque no Kremlin: foi adjunta do ministro das Finanças, ministra da Saúde, e desde 2018 que é vice-primeira-ministra com responsabilidades nas áreas da Política Social, Trabalho e Saúde, entre outras. Há muitos anos que Tatyana Golikova tem direito a sentar-se na mesa pequena de Putin.

Durante a pandemia, Tatyana Golikova deu a cara pelo governo na luta contra a covid-19. No final de fevereiro de 2020, proibiu os russos de saírem do país a não ser em casos de extrema necessidade. Dois dias depois, o seu jato privado voou para Málaga, em Espanha.

A Rússia foi o primeiro país a registar uma vacina contra a covid-19, a Sputnik V, em agosto de 2020. O país só permite a distribuição de vacinas russas e uma das empresas que começou a fabricá-la em grande escala foi a Generium. Vladimir Khristenko, enteado de Tatyana Golikova, detém 8% desta empresa, onde também dois amigos de Viktor Khristenko, marido de Golikova e pai de Viktor, são acionistas.

Há muitos anos que Golikova tem direito a sentar-se na mesa pequena de Putin e decidir as políticas do país

Em maio de 2021, o Fundo Russo de Investimento Direto, uma das entidades que desenvolveu a Sputnik, tinha assinado um acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para o fornecimento de doses da vacina contra a covid-19 para 110 milhões de pessoas nos países em desenvolvimento. Quando a guerra começou, em fevereiro deste ano, estava em curso na Agência Europeia do Medicamento um projeto de avaliação da vacina que foi, entretanto, suspenso. Mesmo assim, ela já tinha sido aprovada em 71 países.

O negócio russo da vacina só foi travado com o início da guerra. A produção da Sputnik V diminuiu por causa das sanções impostas à Rússia que dificultam as transações com as empresas do país.

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O luxo português

Em 2008, a offshore Cokal Holding Limited, com sede no Belize, compra uma moradia de luxo na Figueira do Guincho, na costa do Parque Natural Sintra-Cascais. Um T6 com 916 metros quadrados inserido num lote de mais de quatro mil metros quadrados, com piscina interior e exterior, ginásio, um lago e uma vista privilegiada para o mar. O valor do negócio: 1,5 milhões de euros.

Quatro anos depois, a Evrica Management, compra a casa por apenas 360 mil euros. O administrador da empresa que compra a propriedade em 2012 é o mesmo que representa a Cokal na venda: o advogado russo Maxim Mukhovikov. O beneficiário direto da empresa compradora é Vladimir Khristenko, o mesmo enteado de Tatyana Golikova ligado à farmacêutica Generium.

Dez anos depois, e já com a guerra a decorrer, esta mesma casa é posta à venda por 10 milhões de euros. 

  • Casa do Guincho chegou, este ano, a estar à venda por 10 milhões. Foto: DR
    Casa do Guincho chegou, este ano, a estar à venda por 10 milhões. Foto: DR

Vladimir Khristenko está associado a todos os negócios da família que estão em Portugal pelo menos desde 2012. Para além da casa no Guincho, há também uma outra mansão em Cascais, comprada também em 2008 pela Cokal. A 300 metros da praia, com seis quartos e piscina, foi adquirida por 1,5 milhões euros e mais tarde vendida a outra empresa, administrada por Vladimir, por menos 340 mil euros.

Estes dois negócios da Cokal acontecem um ano depois de Viktor Khristenko, marido de Tatyana Golikova e pai de Vladimir, visitar Portugal, em outubro de 2007, inserido na comitiva que participou na cimeira UE-Rússia. Viktor chegou a ser número dois de Putin, o cargo hoje ocupado pela mulher, e, depois, ministro da Indústria e Comércio russo, até janeiro de 2012. Só depois de abandonar a função pública é que o nome do filho, Vladimir, aparece ligado aos negócios em Portugal, como beneficiário de várias empresas.

Viktork Khristenko visitou Portugal em outubro de 2007. Esteve na Cimeira UE-África, em Mafra, e sentou-se ao lado de Putin, Durão Barroso e José Sócrates. Imagens: União Europeia
A casa de Cascais também chegou a estar à venda no Idealista. Imagem gravada em Outubro. DR

A ligação da vice-primeira-ministra russa a Portugal foi desvendada por uma investigação da equipa do opositor russo Alexei Navalny, da Fundação Anti-Corrupção. “Esta investigação começou por levar-nos a Espanha, onde descobrimos uma villa de luxo que pertence a Tatyana Golikova. A dona desta villa é uma empresa portuguesa e foi isso que nos levou até Portugal, onde descobrimos inúmeros ativos”, conta Georgy Alburov, um dos envolvidos no trabalho.

“Foi uma surpresa para nós porque, normalmente, os oficias corruptos russos registam os seus ativos em nome de familiares ou em empresas offshore. Neste caso, as propriedades de um oficial russo num país europeu estavam registadas numa empresa de outro país europeu. É algo pouco habitual.”

Vladimir Khristenko é o beneficiário de várias empresas. Na imagem o registo da Mian - SGPS, S. A. Imagem: DR
A Mian serve de empresa-mãe para várias outras empresas. Imagem: DR
A Evrika Management foi criada no mesmo dia do que a Beco da Avenida. Ambas têm o mesmo beneficiário. Imagem: DR
Registo da Beco da Avenida. Imagem: DR

Para além das propriedades com ligação direta a Vladimir Khristenko, a teia que liga Golikova a Portugal é ainda mais vasta. Ao lado de cada uma das casas do Guincho e de Cascais estão outras duas com ligações a um velho amigo de Viktor Khristenko, Andrey Dementiev, que foi adjunto de Khristenko no ministério da Indústria.

A mulher de Dementiev, Margarita Kislitsyna, vive na Casa do Barco, no Guincho, que é sede de várias empresas das quais Margarita é a beneficiária. A poucos metros da casa em Cascais de Vladimir está outra que tem servido de ninho para empresas portuguesas de capital russo há mais de uma década.

Há ainda dois hotéis de cinco estrelas – o Senhora da Guia Cascais Boutique Hotel, onde estão dos melhores campos de golfe do país, e o Farol Hotel, propriedade de Markos Leivikov, sogro do empresário português Marco Galinha – nesta longa teia que liga Portugal a Golikova.

 

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"Este dinheiro está encharcado em sangue”

É a partir de 2012 que João Paulo Batalha, antigo presidente da associação Transparência e Integridade, situa o início da transferência de capital russo para Portugal de forma significativa. Numa primeira fase, através dos vistos gold, e depois através de outros mecanismos, como a naturalização por ascendência sefardita utilizada por Roman Abramovich para obter a cidadania portuguesa. “Vem a partir do momento em que Portugal começa a abrir portas para o investimento. Coincide com a nossa crise e com a chegada da troika, numa altura em que os incentivos políticos eram todos para abrir os braços e fechar os olhos, ou seja, captar dinheiro, viesse de onde viesse, sem fazer muitas perguntas.”

Perante esta teia de ligações a Tatyana Golikova, João Paulo Batalha não tem dúvidas: “este dinheiro é, de certeza absoluta, sujo. Na Rússia, ninguém enriquece com um salário de político. É seguramente da rapina do povo russo protagonizada pelo estado russo e liderada pelo presidente Putin”.

“Este tipo de negócio tem todas as marcas de um negócio de lavagem de dinheiro pelos montantes envolvidos e pela maneira como o dinheiro circula, por termos as mesmas pessoas a comprar e a vender. São simulacros de negócio, na verdade fictícios, com recurso a muitos mecanismos de dissimulação ou offshores e exatamente com o objetivo de lavar dinheiro”.

A presença de grandes investimentos russos em território europeu é uma tática comum entre os bilionários do Kremlin. “Infelizmente para aqueles que pagam impostos na Rússia, este é o modus operandi típico dos oficiais do país”, explica Giorgy Alburov, da Fundação Anti-Corrupção. “Eles fazem o dinheiro na Rússia, mas eles não querem ligar o seu futuro ou os seus anos de reforma à Rússia. Eles querem reformar-se noutro lado onde não estejam sob influência de outros oficiais russos ou de Putin.”

E nem o próprio presidente russo é inocente neste esquema. Em agosto, uma investigação da mesma fundação revelou um património da ex-mulher de Putin, Lyudmila Ocheretny, e do seu novo marido fora da Rússia valorizado em vários milhões de euros e que inclui dois apartamentos de luxo em Málaga (Espanha), em Davos (Suiça), e uma villa perto de Biarritz (França). Apesar de as propriedades não terem o nome de Putin, especula-se que ele seja a fonte destes avultados rendimentos. Porque é assim que estes esquemas de lavagem de dinheiro são montados.

Lyudmila Ocheretny separou-se de Putin em 2014, mas acredita-se que continua a gerir alguns dos seus bens em nome do presidente russo. Foto: Alexei Nikolsky/Ria-Novosti/AFP via Getty Images

Maria Pevchikh, diretora do departamento de Investigação da fundação de Alexei Navalny, trabalha sobre a corrupção na Rússia há mais de uma década. “Esta é a forma habitual utilizada pelos oficias russos para este tipo de negócios”, explica. “Apesar de a Rússia ser um estado bastante corrupto, finge que não o é. Ainda há as leis, mas ninguém as segue e todos procuram uma forma de contornar as leis anti-corrupção. A forma mais comum de esconder os teus ativos é registá-los em nome de outra pessoa.”

Reino Unido, Itália, França, Espanha e agora Portugal. O dinheiro russo tem-se espalhado pela Europa há décadas, praticamente sem barreiras. Até chegar a guerra na Ucrânia e as sanções a vários milionários russos. “Penso que agora é bastante óbvio porque é que o dinheiro russo não devia circular livremente na Europa. Porque é que este fluxo tem de ser travado e o que tem de mal. Este dinheiro está encharcado em sangue.”

Numa estimativa que considera conservadora, a investigação da Fundação Anti-Corrupção estimou a fortuna que Tatyana Golikova e o marido acumularam ao longo dos anos em mais de 809 milhões de euros.

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Portugal, um porto seguro?

Após a descoberta do património europeu de Tatyana Golikova, a Fundação Anti-Corrupção escreveu aos governos de França, Espanha e Portugal apelando a que estes sancionem o património da governante russa e da sua teia de amigos e familiares. É que Tatyana não está na lista de sancionados até agora por causa da guerra iniciada por Moscovo em território ucraniano.

“Eu não quero tentar adivinhar porque é que isto acontece. O que eu quero é que este problema seja resolvido”, argumenta Maria Pevchikh.

Carta enviada pela Fundação Anti-Corrupção aos governos francês, espanhol e português. DR

João Paulo Batalha vai mais longe e acusa o governo português de “inércia”. “Tem tido uma atitude de uma enorme complacência que eu não sei se é fruto de cumplicidade ou de mera incompetência, mas que tem como resultado Portugal ser um porto seguro para lavagem de dinheiro de oligarcas de muita natureza, incluindo de oligarcas russos, incluindo pessoas que estão politicamente e, eventualmente, até militarmente empenhadas na guerra da Ucrânia.”

A informação sobre o congelamento de bens de cidadãos russos em Portugal é escassa. Em março, quase um mês depois do início da guerra, uma conta com 242 euros foi congelada na sequência de uma lista de alvos a sancionar da União Europeia com cerca de 700 entidades e pessoas. E, afinal, foi engano.

Esta quinta-feira, o Ministério Público e a Polícia Judiciária realizaram buscas na casa de Lisboa de Yulia Aleksandrovna Sereda, antiga vice-presidente do banco russo Gazprombank, bloquearam uma transferência de 800 mil euros e arrombaram um cofre pessoal no banco. Yulia Sereda terá dado entrada no país através de um visto gold e é suspeita do crime de branqueamento de capitais, avançou a revista Sábado.

Questionado pela CNN Portugal sobre a existência de novas sanções ou de congelamento de bens russos em território português, o Ministério dos Negócios Estrangeiros não respondeu em tempo útil para esta reportagem.

Para além da lista europeia, o país pode, a nível individual, sugerir outros nomes para serem sancionados e pode também tomar a iniciativa de escrutinar e aplicar medidas aos cidadãos russos com bens em território nacional que considere terem um papel ativo no regime russo. É uma decisão política.

“É um país muito apetecível por ser uma porta de entrada na União Europeia e com toda a segurança bancária, financeira e jurídica. Mas onde não se fazem perguntas à entrada e, portanto, Portugal torna se um país muitíssimo atrativo para todo o tipo de dinheiro sujo”, conclui João Paulo Batalha.

O apelo da Fundação Anti-Corrupção de Navalny ainda não teve resposta. Maria Pevchikh espera que os governos interpelados tomem ações concretas nas próximas semanas para interceptar os bens da teia de Tatyana Golikova. Caso contrário, ela, os seus amigos e os seus familiares terão tempo para vender os seus ativos ou esconder a sua propriedade por trás de novos nomes e empresas. De salvar este “dinheiro sujo” desviado dos contribuintes russos.

Esta não é a primeira vez que a Fundação Anti-Corrupção revela a existência de propriedade ligada a figuras proeminentes do regime russo em território europeu. No final março, uma investigação do grupo mostrou como um superiate de luxo atracado em Itália pertenceria a Putin. Menos de dois meses depois, no início de maio, as autoridades italianas apreenderam o Scheherazade, o iate avaliado em 662 milhões de euros, invocando "vínculos económicos e comerciais significativos entre a pessoa que possui oficialmente o Scheherazade e membros célebres do governo russo".

O superiate chama-se "Scheherazade", está avaliado em 662 milhões de euros e foi impedido de deixar a Marina di Carrara, em Massa, na Toscânia, por suspeitas de pertencer a Vladimir Putin.

Quando a CNN começou a investigar as propriedades portuguesas ligadas a Golikova, as casas do Guincho e de Cascais encontravam-se à venda. Pouco depois, a agência imobiliária informou-nos de que as casas tinham sido retiradas do mercado, sem mais explicações.

Maria Pevchikh recorda que a batalha contra a ditadura de Putin e a sua rede afeta não só os russos, mas o mundo inteiro, como a guerra na Ucrânia veio demonstrar.

“Enquanto Vladimir Putin estiver no poder, o mundo inteiro está em perigo. É errado pensar que, vivendo em Portugal, estamos longe desse perigo. Nós não conseguimos prever a forma como o comportamento incontrolável e caótico de Putin vai influenciar as nossas vidas. É uma batalha que temos em comum.”

No dia 4 de novembro de 2022, recebemos o seguinte Direito de Resposta:

MARCO GALINHA NÃO TEM LIGAÇÃO À VICE-PRIMEIRA MINISTRA RUSSA

Sou referenciado na reportagem A TEIA QUE LIGA A VICE-PRIMEIRA MINISTRA RUSSA (E O "DINHEIRO SUJO" DE MOSCOVO) A PORTUGAL, onde a minha imagem surge no diagrama da alegada rede de ligações que envolverá a vice-primeira ministra russa, sendo mencionado apenas por ser genro de um cidadão nascido na Rússia. Não tenho ligações à vice-primeira ministra russa ou a pessoas com ela relacionadas. A menção ao meu nome é injustificada, despropositada e leviana, merecendo o meu repúdio.

Marco Galinha