‘Esta é a minha família, estas são as minhas crianças, preciso de ajuda para chegar a Portugal’: Nataliia

‘Esta é a minha família, estas são as minhas crianças, preciso de ajuda para chegar a Portugal’: Nataliia

Nataliia já venerou Putin mas agora despreza-o. Nataliia cresceu em Donetsk a ver de perto os russos como irmãos e agora vive como refugiada a amar a Ucrânia de longe. Nataliia perdeu momentaneamente as filhas durante a fuga desta guerra, temeu que as pisassem até à morte. Nataliia um dia recebeu uma mensagem da Rita, “Olá, eu sou a Rita, não precisas de te preocupar”, e tudo ficou um pouco menos pior. A história de Nataliia não é só a história dela – é a história de uma guerra que destrói de maneiras tão diferentes

Nataliia Ahasian está em Portugal há um mês mas parece que sempre viveu cá. Já tem uma rotina à qual não consegue escapar - quando tentamos marcar uma conversa ela avisa “vai ser difícil, tenho pouco tempo”. De manhã acorda e leva as filhas, Laliia, com seis anos, e Amaliia, com oito, para a escola. Depois vai para as aulas de português. À tarde segue para o escritório, trabalha numa empresa de relações públicas, um “escritório grande” onde está a coordenar alguns projetos. Às seis sai para ir buscar as filhas. Se for preciso vão ao supermercado, no regresso a casa ligam ao pai. Depois há o jantar para fazer, as miúdas para deitar. 

Não é fácil marcar um encontro com Nataliia mas quando encontramos uma janela horária ela é muito prática: a conversa vai decorrer neste jardim, entre esta e esta hora. Aos 34 anos, sozinha num país novo com as duas filhas, Nataliia não tem tempo a perder. E começa a contar a sua história.  

“Ninguém acreditava que a guerra ia mesmo acontecer.” Nataliia vivia em Kiev da segunda vez que a Rússia invadiu a Ucrânia. A ameaça estava lá mas ninguém imaginava que poderia ser real. Quando os Estados Unidos avisaram Volodymyr Zelensky, o presidente ucraniano, de que o "ataque terrrorista" poderia acontecer no dia 16 de fevereiro “nós rimo-nos". O dia passou e os ucranianos encolheram os ombros e disseram: “Vês? Está tudo bem. Não aconteceu nada”. 

No dia 23 de fevereiro, Nataliia teve um “dia normal”. “Nesse dia assinala-se o dia do homem na Ucrânia e eu fui aos correios enviar umas lembranças para os meus superiores.” O dia 23 de fevereiro foi o último dia normal da vida de Nataliia.

Nesse dia, a Ucrânia e a Rússia celebram o dia do homem, mais uma herança da cultura soviética entranhada na cultura ucraniana. Na Rússia é feriado desde 2002, oficialmente é o “Dia do Defensor da Pátria” e tem origem no Dia do Exército Vermelho e da Marinha. Começou como um dia em que se lembravam os veteranos de guerra e evoluiu para uma data em que as mulheres oferecem uma prenda aos homens. 

Na Ucrânia não é feriado mas é comum assinalar-se a data. Um terço dos ucranianos, sobretudo os do leste e sul do país, têm o russo como língua materna. Séculos de uma história em comum – a Ucrânia fez parte do Império Russo e da antiga União Soviética, tornando-se um país independente em 1991 – deixaram marcas na cultura ucraniana.

Um comício pró-independência em Kiev, no dia 30 de novembro de 1991. No dia seguinte realizou-se o referendo sobre a independência da Ucrânia e as primeiras eleições presidenciais do país. Foto: Sergey Supinski/AFP via Getty Images
A 1 de Dezembro de 1991, mais de 90% dos eleitores votaram pela independência da Ucrânia. No mesmo dia, Leonid Kravchuk, no centro da imagem, foi eleito presidente do país. Foto: Georges DeKeerle/Sygma via Getty Images

Com muitas tradições em comum, russos e ucranianos davam-se bem até recentemente. Há famílias com ligações dos dois lados da fronteira. Há famílias que são ucranianas mas que também são russófonas. Nataliia é ucraniana e cresceu em Donetsk, no leste da Ucrânia, a falar russo. 

No ano novo brindava duas vezes. Primeiro em russo, às 23 horas na Ucrânia e meia-noite na Rússia. Depois, à hora certa, em ucraniano. 

Mas agora chegou a guerra e Nataliia não sabe como vai brindar no próximo ano novo. A guerra trouxe divisões profundas.

A rotina da guerra

Nuvem de fumo em Kiev na madrugada de 24 de Fevereiro. Foto: DR

Naquele dia 23 de Fevereiro, Nataliia ficou a ver um filme até tarde e deitou-se por volta da uma da manhã. De madrugada foi acordada com o barulho dos bombardeamentos.

“Quando acordei estava cheia de medo.” Reconheceu logo o barulho das explosões pois tinha vivido três anos no meio desta guerra, em Donetsk, mas nessa altura era “apenas” o leste da Ucrânia. Desta vez teve mais medo.

“As explosões em Donetsk eram sobretudo de ataques ucranianos porque Donetsk [neste momento] não é ucraniana. Na minha cabeça, a Federação Russa é muito mais poderosa. Eu tive muito medo.”

Em abril de 2014, já depois da anexação da Crimeia pela Rússia, separatistas pró-Rússia invadiram edifícios governamentais nas cidades ucranianas de Donetsk, Lugansk, Horlivka e Kramatorsk. Os rebeldes estavam armados com equipamento militar russo, apesar de vestirem uniformes sem qualquer insígnia. O governo ucraniano, então liderado pelo presidente interino Turchynov, ameaçou com uma intervenção militar caso os separatistas não se retirassem, mas, passado o prazo dado pelo governante, nada aconteceu.

Batalhas dispersas foram travadas nas semanas seguintes entre o exército ucraniano e as forças separatistas. A Crimeia foi a primeira a ceder: foi lá que Putin celebrou o Dia da Vitória, a 9 de maio do mesmo ano.

Putin celebrou o Dia da Vitória na cidade portuária de Sevastopol, na Crimeia, no ano em que anexou a península ucraniana. Foto: Sasha Mordovets/Getty Images 
Desde o acidente com o avião da Malaysia Airlines que os aviões comerciais evitam passar pela zona da Crimeia. Agora, todo o espaço aéreo sobre a Ucrânia está inacessível. Foto: Evgeniy Maloletka/AP 

 

Em junho de 2014, a Ucrânia conseguiu recuperar o controlo de algumas cidades na região, entre elas Kramatorsk. Em julho, um avião da Malaysia Airlines com 298 pessoas a bordo foi atingido com um míssil na região de Donetsk. 

No Donbass, o conflito acabaria por perdurar durante os oito anos seguintes. Luganks e Donetsk transformaram-se em repúblicas independentes, largamente apoiadas pela Rússia económica e militarmente. Os aviões passaram a dar uma volta para evitar aquele espaço aéreo. O conflito continuou e, além de algumas sanções à Rússia, a comunidade internacional não se comoveu como em 2022. Durante esse período, o governo ucraniano estima que 14 mil pessoas tenham sido mortas e mais de dois milhões acabaram por sair da região. Essa foi a primeira vez que a Rússia invadiu a Ucrânia. 

“Todos estavam bem na Ucrânia. Ninguém quis saber, nem Portugal, nem a Alemanha, era um problema pequeno. E agora cresceu.”

A cidade de Donetsk em 2012, dois anos antes dos rebeldes separatistas terem tomado a cidade. A região do Donbass, onde estão as cidades de Donetsk e de Lugansk, tinha uma forte tradição industrial antes da guerra. Anos de conflito destruíram o seu tecido socioeconómico. Foto: Anthony Devlin/PA Images via Getty Images
Estima-se que entre seis a sete milhões de pessoas vivessem nas regiões ocupadas pelos separatistas pró-russos antes de 2014. Até fevereiro deste ano já seriam cerca de quatro milhões. Foto: Anthony Devlin/PA Images via Getty Images

 

Nataliia vivia em Donetsk em 2014 quando a guerra realmente começou. Com uma bebé de três meses nos braços, fez as malas e fugiu para Kiev. Partiu com bagagem para 15 dias com a esperança de que o conflito fosse rapidamente resolvido mas não foi isso que aconteceu. Passado um ano voltou e por ali viveu durante três anos, no meio da guerra. 

Os barulhos das explosões nos arredores da cidade passaram a fazer parte do dia a dia. Assim como o recolher obrigatório de noite ou a visão de soldados armados nas ruas e cafés da cidade. O primeiro ano foi mais duro. Os soldados faziam operações aleatórias e podiam, de um momento para o outro, ficar com os bens de alguém. “Já era muito bom se não te acontecesse nada.” Depois a situação acalmou, os soldados deixaram de espalhar terror mas o resto (explosões e forte presença militar) tornou-se rotina.

Um estudante descreve armas numa aula numa escola na vila de Sartana, numa região de Donetsk controlada pelos militares ucranianos. Fotografia tirada a 2 de outubro de 2018. Foto: Aleksey Filippov/AFP via Getty images 
Exercícios de preparação para a guerra numa escola do Donetsk numa região controlada pelos ucranianos, a 2 de outubro de 2018. Naquele ano, a Unicef estimava que cerca de 200 mil crianças ucranianas estavam a ter aulas em escolas marcadas pela guerra. Foto: Aleksey Filippov/AFP via Getty Images 

 

Como a República de Donetsk não é reconhecida internacionalmente, os documentos oficiais, como a carta de condução, requeriam uma viagem à Ucrânia não ocupada. Não havia sistema bancário - “os nossos filhos não sabem o que é pagar com cartão”.  

Mesmo no meio da guerra é possível criar uma rotina. Nataliia teve outra filha dois anos depois e, apesar da aparente normalidade, estava a preparar a saída dos territórios ocupados, onde “as crianças brincavam ao som de explosões e já nem ligavam”. 

Em 2019 mudou-se para Kiev. Os pais ficaram em Donetsk. “A minha mãe nasceu em 1951. A mãe dela em 1916. Elas eram da União Soviética e quando a Ucrânia se tornou independente elas só ouviam notícias da Federação Russa.” Sempre falaram russo e ainda hoje é a língua em que Nataliia fala com as filhas. 

Quando era mais nova chegou a desejar um líder para a Ucrânia que fosse como Putin. Tudo mudou quando a guerra chegou à porta de sua casa. Começou a preparar um plano para fugir. 

Nataliia culpa os russos pela situação no Donbass mas também os ucranianos por o terem permitido. “Eles tinham de defender o seu território e não o defenderam.” Viver nos territórios ocupados era como “viver numa prisão”. Alguns conseguiram fugir, outros continuaram a viver a vida possível.

Nos últimos anos, para ir a outras cidades da Ucrânia, Nataliia tinha de passar por postos fronteiriços como este, na região de Lugansk, fotografado no dia 6 de novembro de 2020. Depois de mudar a morada oficial para Kiev, deixou de poder visitar Donetsk. Foto: Oleksii Kovaliov/ Ukrinform/Future Publishing via Getty Images
Inaugurado em 2009, o Donbass Arena, casa do Shakhtar Donetsk, chegou a ser um dos estádios utilizados durante o Euro 2012, cuja organização foi dividida entre a Polónia e a Ucrânia. Desde 2014 que o estádio deixou de ser usado pela equipa, agora instalada em Kiev. Fotografia tirada em 18 de abril de 2017. Foto: Aleksey Filippov/AFP via Getty Images

 

Uma sondagem publicada pelo Washington Post em 2021 revela que quase metade dos residentes das autoproclamadas repúblicas do Donetsk e de Lugansk preferiam que os territórios se juntassem à Rússia, com ou sem alguma autonomia. Menos de um décimo preferiam a independência e apenas 12% queriam ser reintegrados na Ucrânia. 

Quando Zelensky foi eleito presidente em 2019 prometeu recuperar a região e a perspetiva deixou Nataliia contente. Ela deseja a reintegração na Ucrânia. “Eu nunca quis viver na Rússia, queria viver em Donetsk. Era uma boa cidade, tinha uma boa economia. Quando os russos vieram nós não percebemos porque é que eles precisavam de vir.” 

“A minha mãe é pró-russa. Ela não tem Instagram, não tem YouTube”. As redes sociais são um escape à propaganda russa. Mesmo assim, alguns amigos a quem enviou “imagens e sons dos bombardeamentos” continuam a apoiar a “operação especial militar” que Putin diz estar em curso na Ucrânia. 

Nataliia deixou de falar com alguns amigos de Donetsk. Fala com a mãe, que aceita a decisão da filha, mas desistiu dos outros. Diz que lhe falta a energia para mais. 

Desde o início da guerra, no final de fevereiro, 12 milhões de ucranianos tiveram de abandonar a sua casa, 5,7 milhões saíram do país. Nataliia e as filhas são um pequeno número nesta gigante crise humanitária. O marido é um entre os milhares de homens entre os 18 e os 60 anos que estão obrigados a ficar na Ucrânia para lutar. 

“Eu tenho de pensar na paz mas estou tão zangada que às vezes penso que eles têm de perceber aquilo por que estamos a passar.”  A viver num quarto com as duas filhas a 3359 quilómetros de casa, Nataliia pede desculpa por não compreender como é que alguém pode justificar a guerra. A Rússia está a destruir o seu país, a matar civis, a provocar terror. E, pela segunda vez, obrigou-a a refazer a vida.

A mãe de Nataliia com as netas numa visita a Kiev. Ao longe, vê-se o Arco da Amizade entre os povos ucraniano e russo. Foto:DR

 

O pior dia da vida dela

Quando acordou com o estrondo das explosões na madrugada de 24 de fevereiro deste ano, Nataliia voltou a lembrar-se do pesadelo de que tinha fugido. “O país todo tinha-se transformado em Donetsk.” O primeiro impulso foi fugir outra vez. Mas para onde? E como? 

Nos primeiros dias continuaram em Kiev mas o barulho era ensurdecedor e Nataliia deixou de dormir. Chegaram a estar num bunker mas também não se sentia segura. “Em Donetsk vimos muitas situações em que não é seguro ficar no bunker porque, se houver uma explosão, podemos ficar soterrados. Têm de ser apenas lugares com grandes estruturas, como os parques de estacionamento dos centros comerciais. Fui para o nosso apartamento, num 7º andar. Tinha medo de estar no bunker e no apartamento.” 

Começou então a planear a fuga da cidade. Fez duas malas grandes, algo que diz ter aprendido da primeira vez que fugiu apenas com uma mala pequena. “Não se trata apenas de documentos, esses já estavam de lado. Eram roupas para elas, sapatos. E medicamentos. Toda a gente me disse que eu estava louca porque eu devia levar apenas a roupa do corpo e uma mala pequena. Eu disse que era refugiada pela segunda vez e já sabia o que precisava de ter comigo. Eu comprei estas coisas para as minhas filhas e agora tenho de deixar tudo para trás?” 

Nataliia foi com as filhas para a estação tentar apanhar um comboio para Varsóvia. O marido ficou para trás pois estava impedido de sair do país por causa da lei marcial. A situação era caótica. 

“Era de noite, estávamos às escuras porque na Ucrânia, à noite, agora não podemos ligar as luzes. Era muita gente. Era suposto ser um comboio com três carruagens mas estavam muitas pessoas a tentar apanhá-lo. Não apenas mulheres e crianças - havia homens, mulheres sem crianças e com recém-nascidos. Eram mesmo muitas pessoas. Foi horrível, foi algo que eu nunca tinha sentido.” 

“Foi muito perigoso. Todos perceberam que eram poucos lugares e muitas pessoas e por isso tinham de chegar lá primeiro. E as minhas filhas perderam-se. Eu perdi as malas, perdi tudo. Gritava os nomes delas porque não as conseguia encontrar. Depois disso começaram os bombardeamentos e ouvimos as sirenes. O comboio fechou as portas e seguiu caminho. A multidão acalmou e dispersou. Alguns foram para dentro da estação e eu finalmente vi as minhas filhas. Elas estavam juntas, de mãos dadas, junto ao cais, a chorar. Estavam com medo, não sabiam da mãe delas. E eu esqueci-me de que estávamos numa guerra, esqueci-me de tudo.” 

“O dia na estação foi o pior dia da minha vida. Naquele momento eu pensei que tinha perdido as minhas crianças. E não é só perder. Havia uma multidão enorme e elas podiam estar no chão. E as pessoas podiam ter corrido por cima delas. Quando as vi... foi uma alegria imensa.”

  • Na estação de comboio em Kiev, o início de uma viagem atribulada até Portugal. Foto: DR
    Na estação de comboio em Kiev, o início de uma viagem atribulada até Portugal. Foto: DR
  • Depois do susto, Nataliia e as filhas ainda passaram uma noite na estação. Foto: DR
    Depois do susto, Nataliia e as filhas ainda passaram uma noite na estação. Foto: DR
  • Na estação, Amaliia desenhou um rocket e escreveu por cima "não nos atingiu". Foto: DR
    Na estação, Amaliia desenhou um rocket e escreveu por cima "não nos atingiu". Foto: DR
  • Foto: DR
    Foto: DR

A vida normal

Uma semana depois, Nataliia chegou com as filhas a Portugal. Pelo meio ainda passou uma noite na estação de Kiev na esperança de apanhar outro comboio no dia seguinte, mas a confusão mantinha-se. Foram para casa de uma amiga e dali partiram juntas para Lviv, de carro. Na cidade próxima da fronteira oeste com a Europa, apanharam um autocarro de voluntários que as levou para a cidade polaca de Rzeszow.  

Durante todo o caminho, Nataliia ia escrevendo várias mensagens em diversos grupos do Telegram e do Facebook. “Eu não me lembro bem do que escrevi, algo assim: ‘Esta é a minha família, estas são as minhas crianças, preciso de ajuda para chegar a Portugal’.” Pensou em Espanha ou em Portugal porque tinha uma boa ideia destes países no sul da Europa mesmo sem nunca lá ter estado. 

Procurava novos grupos, pedia ajuda. Nesta busca desesperada encontrou grupos como “Ukrainians in Portugal” ou “From Ukraine to Portugal” e um dia recebeu uma mensagem de um português a dizer que podia ajudar. As filhas adoeceram nos primeiros dias de viagem, mas Nataliia não quis arriscar e fez a viagem de três dias com elas sempre a vomitar. 

Com o transporte garantido continuou a escrever em vários grupos, agora à procura de alojamento. A mensagem era sempre a mesma. “Esta é a minha família, estas são as minhas crianças.” Até que recebeu um telefonema: “Olá Nataliia. Eu sou a Rita, esta é a minha família, este é o meu filho. Nós vamos ser a tua família durante os primeiros dias, não precisas de te preocupar”. 

“Foi algo maravilhoso para mim. E eu nem tentei procurar mais nada sobre eles. Nem sequer pensei se seria perigoso ou não. Quando cheguei ela pegou nas minhas malas, fomos ao hospital e, quando as minhas filhas ficaram melhor, fomos para casa dela”. 

Já passaram mais de dois meses desde que Nataliia chegou a Portugal. Entretanto mudou-se para um quarto no centro de Lisboa, onde partilha a casa com um casal mais velho.

Laliia e Amaliia num passeio em Lisboa. Foto: DR

 

“Os meus dias agora são os de uma vida normal de qualquer pessoa”, diz Nataliia, sentada num banco do jardim em frente ao Liceu Camões, em Lisboa. Repete várias vezes a palavra “normal” como se precisasse de sublinhar que nunca quis outra coisa. Mas há muito pouco de normal na vida desta mãe de 34 anos obrigada a refazer a vida pela segunda vez. 

Em Donetsk, Nataliia “normalizou” viver em guerra. “Tínhamos uma vida normal mas com o barulho constante das explosões.” Quando se mudaram para Kiev foi em busca de uma “vida normal, simples, com um bom emprego”. Agora, em Portugal, encontrou uma nova vida “normal”. Normal. Normal: ela repete “normal”. 

Nataliia sai de casa de manhã para levar as filhas à escola – Laliia, de seis anos, vai para uma creche, Amaliia, com 8, para uma escola primária – e o resto do dia passa a correr. Tem aulas de português durante a manhã. À tarde trabalha numa empresa de relações públicas, um “escritório grande”. Às seis sai para ir buscar as filhas. No regresso a casa ligam ao pai. Depois há o jantar para fazer, as miúdas para deitar. 

Parece normal.