Nem Portugal escapou: o que se passou no dia em que os supermercados europeus foram alvo de um ciberataque em "grande escala"

12 out, 23:16
Pessoas fazem compras num supermercado no bairro de Manhattan, em Nova Iorque, a 20 de fevereiro de 2025. Charly Triballeau/AFP/Getty Images
Pessoas fazem compras num supermercado no bairro de Manhattan, em Nova Iorque, a 20 de fevereiro de 2025. Charly Triballeau/AFP/Getty Images

Relatos de falhas nos sistemas de refrigeração multiplicaram-se esta segunda-feira por toda a França. Ministério Público de Paris anunciou a abertura, por iniciativa própria, de uma investigação sobre o ataque que afetou frigoríficos “ligados à internet”. Espanha, Polónia, Alemanha e Bélgica foram outros alvos

Centenas de supermercados franceses viram a temperatura dos seus frigoríficos e congeladores subir até aos 50 graus Celsius na noite de domingo. O aumento descontrolado dos valores foi provocado por uma ataque informático, que visou sobretudo as instalações frigoríficas.

O resultado estava à vista na manhã seguinte: produtos frescos e congelados destruídos. À Sky News, um residente em Paris diz ter visto funcionários do Intermarché a deitar carrinhos cheios de alimentos descongelados para um enorme contentor do lixo.

A Les Mousquetaires, proprietária da cadeia de supermercados Intermarché, deu conta de que aproximadamente 150 das suas lojas foram afetadas, tendo o grupo de distribuição sido obrigado a deitar fora todos os alimentos.

A Carrefour também relatou falhas nos seus sistemas de refrigeração, tendo sido afetados 80 supermercados da cadeia, enquanto a Monoprix, que opera cerca de 490 lojas em França, declarou que 5% das suas lojas foram atingidas pelo ciberataque, o que dá qualquer coisa como 25 lojas.

O diretor-executivo da Coopérative U, Dominique Schelcher, informou que o seu grupo de supermercados também foi alvo do ataque, classificando-o como um ato “extremamente grave e sem precedentes”.

Felix Aime, analista sénior de informações sobre ciberameaças da Sekoia Threat Detection and Research, acrescentou à agência Reuters que Espanha, Portugal, Polónia, Alemanha e Bélgica também foram visados pelos hackers, embora não haja relatos de problemas maiores registados no nosso país.

Todas as lojas se viram obrigadas a "deitar fora a totalidade dos produtos" frescos e congelados afetados, para evitar riscos para a saúde, precisou a cadeia Intermarché, onde as arcas frigoríficas terão sido aquecidas durante seis horas ao longo de toda a noite

Segundo a estação de televisão BFMTV, também foram afetados estabelecimentos Leclerc. O grupo, contactado pela AFP, não respondeu ao pedido de comentário. A mesma suspeita recai sobre o Auchan, que também não prestou esclarecimentos.

Em declarações àquela estação televisiva, Thierry Cotillard, diretor-executivo do Intermarché, estimou as perdas totais do setor em “dezenas de milhões de euros a nível nacional num único dia”, de acordo com a Reuters.

O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, encarregou a Agência Nacional de Cibersegurança de França (ANSSI, na sigla em francês) de investigar o incidente, tendo o Ministério Público de Paris anunciado a abertura, por iniciativa própria, de uma investigação sobre o ciberataque “em larga escala” que afetou frigoríficos “ligados à internet”.

Temperaturas reguladas através da internet

As temperaturas terão sido "alteradas remotamente, provocando a destruição de ‘stocks’ de produtos frescos e congelados”. O golpe foi possível porque os corredores de refrigeração dos supermercados são normalmente geridos por painéis de controlo que regulam todos os frigoríficos e congeladores de uma loja, aos quais é possível ter acesso através da internet.

Isto permite às empresas de manutenção ajustar o sistema a partir de qualquer lugar.

A ANSSI terá identificado uma vulnerabilidade num software fornecido pela empresa dinamarquesa Danfoss, que “equipa um grande número de lojas francesas” e foi a principal visada dos ataques.

Enquanto a associação francesa do setor da distribuição, Federação do Comércio e da Distribuição (FCD, na sigla francesa), exigiu “total transparência” à Danfoss, a empresa explicou que as unidades afetadas “estavam a utilizar firmware desatualizado”, frisando que “aconselha há muito os clientes a manter os sistemas suportados atualizados com o firmware mais recente e a migrar os sistemas antigos para soluções da geração atual”.

"Incidente de cibersegurança" na Bélgica e nos Países Baixos

No rescaldo do ataque cibernético, França “coordenou-se com os seus homólogos europeus”, uma vez que “outros países também podiam ter sido afetados”, afirmou fonte do gabinete do primeiro-ministro francês.

Esta segunda-feira, os supermercados belgas e neerlandeses Delhaize e Albert Heijn detetaram irregularidades nas suas plataformas digitais, nos sites e nas aplicações. A empresa responsável pela operação de ambos os estabelecimentos, Ahold Delhaize, justificou os problemas com um “incidente de cibersegurança” e viu-se obrigada a retirar vários sistemas de funcionamento por precaução.

Não é claro se existe uma ligação entre os dois incidentes. Para a empresa-mãe não há mesmo motivos para se relacionar o ciberataque nos supermercados franceses com o problema de segurança nos Países Baixos e na Bélgica.

A aplicação e o sistema de entregas da Albert Heijn ficaram indisponíveis. Funcionários não conseguiam efetuar verificações nas caixas automáticas. Teme-se até o pior: que as prateleiras estejam vazias na terça-feira, devido à paralisação de vários centros de distribuição. 

Um porta-voz da Delhaize, da Bélgica, explicou que a maior parte do impacto se fez sentir nos sistemas informáticos internos e não nas ferramentas acessíveis ao cliente.

Os sites das cadeias de supermercados norte-americanas Stop&Shop, Giant, Hannaford e Food Lion também apresentavam mensagens a informar que a plataforma estava “temporariamente indisponível”.

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