Ricardo Leão inaugurou o Parque Papa Francisco. Terra árida, onde a semente de Francisco não pegou – refiro-me ao parque e ao autarca. O homem que ataca os mais pobres “sem dó nem piedade” não ouviu o Papa falar sobre “fazer juntos o bem, agir no concreto, e estar perto dos mais frágeis”
Há menos de um mês, Ricardo Leão, o presidente da Câmara de Loures, meteu literalmente mãos à obra. Com pá e tudo. Mandou uma pazada de terra, tão seca que mais parecia areia, para o buraco onde foi plantada uma oliveira. Ao lado do autarca, o Patriarca de Lisboa cumpriu o mesmo ritual, num ato simbólico de inauguração do novo Parque Papa Francisco, em Loures. Foi o espaço que recebeu milhão e meio de peregrinos para ouvir o chefe da Igreja Católica que deixou uma marca na instituição que dirigiu, no mundo, em Portugal e nas cidades de Lisboa e Loures durante a Jornada Mundial da Juventude.
No dia da inauguração, o Patriarca, Rui Valério, olhou em volta e viu a mensagem de Francisco materializada no reino dos homens. “Aquilo que nós vemos aqui é a inclusão na sua plenitude e no seu todo”, como defendia o falecido Papa. “E, claro”, o novo espaço verde também era “a marca da presença e da vinda do Papa Francisco, que é toda uma evocação de valores, de perspectivas, de esperança, de horizontes de vida.” Por isso parabenizou a autarquia de Loures.
O legado
Há uma placa evocativa da abertura do parque, com uma imagem de Francisco acenando, e a imortalização dos nomes dos inauguradores: “Parque Papa Francisco. Inaugurado pelo presidente da Câmara Municipal de Loures, Ricardo Leão, na presença do Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, e do Cardeal D. Américo Aguiar.” O novo espaço público, explica a mesma placa, é “o legado da Jornada Mundial da Juventude 2023 em Loures.” Que pena. Tanto legado que podia ficar – tanto ensinamento, tanto humanismo, tanta esperança na humanidade que Francisco trouxe consigo – e o legado é um descampado árido à beira-rio.
Suponho que em terra ruim nem a boa semente pegue. A semente da palavra de Francisco claramente não pegou em Loures. No edil local não ficou nem sombra de raiz.
Foi em Loures que esta semana Ricardo Leão mandou demolir barracas onde viviam 62 famílias. Não é preciso ser sociólogo, assistente social, especialista em pobreza ou ativista de direitos humanos para perceber que viver numa barraca, sozinho ou com cônjuge, filhos e meia dúzia de tarecos, não é um plano de vida, é uma decisão de fim de linha. Umas tábuas mal amanhadas, umas folhas de zinco, uns plásticos, umas pedras, pregos estrategicamente distribuídos, e eis um teto que só é melhor do que a alternativa: não ter teto nenhum.
Olhar de cima para baixo sem ajudar a levantar
Mas não na opinião de Ricardo Leão. Sim, o mesmo que sempre que pôde se meteu na foto ao lado do Papa que nos disse que “a única situação em que é lícito olhar de cima para baixo uma pessoa é para a ajudar a levantar-se”. O mesmo Leão que, durante anos, passeou a sua ociosidade pelo Parlamento como deputado socialista, e por artes insondáveis foi subindo na escadinha partidária até ser candidato a Loures (e vencedor, por 2 mil votos, num universo de 170 mil eleitores) e, já feito autarca, chegou a líder da Federação de Lisboa do PS.
Teve de abdicar desse cargo depois de defender o despejo “sem dó nem piedade” dos inquilinos de casas camarárias que tivessem participado nos distúrbios que abalaram a Área Metropolitana de Lisboa no final do ano passado. Para essa demissão foi preciso o ex-líder socialista António Costa vir à liça, lembrar os princípios, os fundamentos e a história do partido, e acusar Leão, sem o nomear, de “ofender gravemente os valores, a identidade e a cultura do PS”, sem “calculismo tacticista que o possa desvalorizar”. Pedro Nuno, por si, desvalorizava. Desvalorizou. Leão era um dos seus. Demitiu-se do cargo federativo, mas não desistiu da recandidatura autárquica, nem do discurso da força, da ameaça e da “lei e ordem”, como os bons populistas de direita.
As imagens das casas precárias deitadas ao chão, das crianças desoladas entre os destroços, de mães desesperadas por perderem o pouco que tinham, perante a brutalidade das escavadoras e a impassividade dos polícias com equipamento reforçado que faziam cumprir a lei, passaram a ser a imagem de marca do autarca de Loures. Condenado pelo Instituto de Apoio à Crianças e outras ONG que se dedicam a ajudar os mais frágeis da sociedade, criticado por camaradas de partido, atacado por juristas que lhe imputam o descaso pela Constituição, pelas obrigações da autarquia e pela mera decência, Ricardo Leão defendeu-se com a lei.
“Não permitimos que se viva em condições desumanas, ilegais e perigosas. Não permitimos no concelho de Loures a construção de barracas, não por falta de empatia, mas porque é única forma de garantir a segurança e justiça para todos”, disse. Em que medida as famílias que perderam o seu único teto ficaram a viver em condições mais humanas e menos perigosas? Em que medida transformar habitantes de habitações precárias em sem abrigo contribui para uma comunidade mais justa e mais segura?
Que voltem para o concelho deles
“A ideia de que basta construir uma barraca, ocupar ilegalmente um terreno ou instalar sem regras para ter de imediato uma casa é profundamente desonesta para com as mais de mil famílias que estão em espera por habitação municipal, mas também para as que cumprem, que aguardam com dignidade e confiam nas regras e nas instituições”, disse Leão. Em que medida a ruína literal de umas dezenas melhorou a situação das “mais de mil famílias” que esperam por habitação social, cumprem as regras e acreditam nas instituições? Ficaram mais perto de receber casa? Ou Leão supõe que os pobres sem casa se sentem melhor ao ver que há outros, ainda mais pobres, ou igualmente pobres, que tinham um abrigo que nem casa era, e o viram terraplanado? Talvez seja esse racional por detrás das demolições: inveja, lei da selva.
A crítica que tem sido feita à autarquia não tem a ver com legalidade. As barracas eram ilegais. Tem a ver com a falta de alternativa: tirou-lhes o pouco que tinham sem lhes dar nada em troca. Deste ponto de vista terá a ver com legalidade, porque a Lei da Habitação proíbe expressamente o que Loures acabou de fazer. Falamos de famílias sem condições de pagar as rendas que se praticam na Área Metropolitana de Lisboa apesar de ser gente que trabalha e desconta. A conversa de que a câmara as ajudaria a pagar a caução e a primeira renda de casas no mercado de arrendamento é conversa para boi dormir. Nem paliativo seria.
Numa típica inversão de papéis, Ricardo Leão fez das vítimas culpados. Aparentemente, “nenhuma das pessoas abrangidas pediu ajuda antes” à câmara, não estavam inscritas “em qualquer programa”, “43% tinham morada oficial fora do concelho” e depois das demolições “só 29 famílias” recorreram “ao atendimento social”. Que a demolição lhes sirva de lição. Ou que vão de volta para a sua terra (neste caso, o concelho de onde vieram).
O pároco que entendeu Francisco
Sem respostas da autarquia para o problema que criou, alguns sortudos conseguiram pernoitar em tendas montadas por voluntários ou abrigados na Igreja de Talude. Bendito pároco. Conhece, ao contrário de outros, o louvor que o Papa Francisco fez aqui, em Portugal, às “mãos sujas por tocarem a realidade da miséria dos outros”. E a exortação para que todos tenham “a preocupação de ir ao encontro das carências concretas”.
Do Patriarca Rui Valério, curiosamente, nem um suspiro. Até teve ocasião para isso, pois recebeu na quarta-feira o candidato presidencial António José Seguro. Após o encontro, Seguro disse obviedades que por vezes são necessárias: “Há determinadas políticas e decisões de natureza social que precisam de ser decididas com a cabeça, mas executadas com o coração. E, portanto, as pessoas precisam de um teto, elas não podem ser deixadas ao abandono”.
De Rui Valério, silêncio. Na minha pesquisa encontrei teorias gerais sobre migrações e, até, uma nota em que o Patriarca mostrava “solidariedade e preocupação” com um sismo que aconteceu em agosto passado e não afetou absolutamente ninguém. Sobre o sismo que derrubou esta semana o teto de dezenas de famílias, nada…
Entretanto, os desalojados poderão desfrutar do Parque Papa Francisco. É verdade que o autarca que o inaugurou não percebeu nada da mensagem papal. Não ouviu a parte sobre “fazer juntos o bem, agir no concreto, e estar perto dos mais frágeis”. Mas podem passear, fazer jogging, apanhar sol no parque à beira-rio. Até podem dormir, se for de dia e levarem tapetes de ioga e roupa da Lululemon (ou, vá lá, da Decathlon…). Mas não se atrevam a montar lá barracas, que aquilo está tão lindo, mesmo como o Papa queria.
