Igualdade de género nos media portugueses revela “sinais de regressão”

Agência Lusa , AM
24 fev, 07:29
Jornalismo

Este retrato, relativo a 2025, ocorre após uma década de “evolução positiva” e revela “um recuo significativo face aos 34% registados em 2020”

A igualdade de género nos media portugueses não só se mantém “um objetivo distante”, como revela “sinais de regressão”, com as mulheres a continuarem a ser menos ouvidas nas notícias, segundo um estudo internacional.

O relatório nacional da última edição do Global Media Monitoring Project (GMMP), cujos resultados serão apresentados esta semana, esta terça-feira em Coimbra e quarta-feira em Lisboa, conclui que, “num dia rotineiro de notícias, as mulheres representam apenas 24% das pessoas visíveis no noticiário” em Portugal, percentagem abaixo da média global dos 94 países onde o estudo se realizou (26%).

Este retrato, relativo a 2025, ocorre após uma década de “evolução positiva” e revela “um recuo significativo face aos 34% registados em 2020”, data da anterior edição do GMMP.

Levado a cabo pela organização não-governamental World Association for Christian Communication, o GMMP, que se realiza de cinco em cinco anos desde 1995 (2005 em Portugal), é o maior e mais antigo estudo sobre disparidades de género nos conteúdos noticiosos.

Além do recuo global de Portugal para “níveis equiparados a 2015”, Rita Basílio Simões, professora universitária e coordenadora nacional do GMMP, destaca as mudanças “para pior” no digital, que em 2020 revelava uma “quase paridade” na produção informativa.

“Agora vemos justamente o contrário, vemos o digital, que foi sempre sendo entendido com esperança, (…) como uma forma de poder ajudar a superar uma série de desigualdades e, na verdade, fica bem saliente nesta edição que não é assim”, lamenta, em entrevista à Lusa, a coordenadora da Secção de Comunicação do Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

A par da menor presença nas notícias, as mulheres são no mínimo três vezes menos ouvidas enquanto fontes de informação e, quando o são, são-no por associação à política ou visibilidade enquanto figuras públicas, sendo “residual” a convocatória na qualidade de especialistas.

“As mulheres permanecem subrepresentadas enquanto produtoras de sentido, provedoras de interpretação e vozes de autoridade”, assinala o relatório, elencando que “a proporção de fontes femininas varia significativamente consoante o meio, oscilando entre 18% na rádio, 21% na imprensa, 24% nos ‘sites’ de notícias e 30% na televisão”.

A coordenação nacional do GMMP destaca o contraste entre a feminização da produção informativa e “a persistência de assimetrias” no tratamento noticioso dado a homens e mulheres.

Rita Basílio Simões lembra que há muito a investigação académica vem constatando que não basta haver mais mulheres para produzir uma mudança de paradigma no que diz respeito à igualdade de género.

Mesmo com quase 42% de jornalistas mulheres, “a verdade é que não há uma mudança estrutural no tipo de conteúdos que são produzidos, portanto, continuamos a verificar os mesmos desequilíbrios na eleição de fontes, na presença de mulheres e no próprio tratamento que é dado à realidade social”, constata.

Exemplo disso é, desde logo, a cobertura residual de tópicos ligados a violência de género (2%).

Neste cenário, sai reforçada “a necessidade de transformações estruturais nas práticas jornalísticas e nas condições de produção da informação”, conclui o relatório.

Nos temas, há uma diminuição de mulheres no noticiário político e económico, “naturalizando a ideia de que as ‘hard news’ se constroem predominantemente a partir da presença e da voz masculinas”, constata-se.

Rita Basílio Simões aponta que as mulheres têm maior visibilidade em “temas marcadamente periféricos”, como celebridades, artes e média, ou explicitamente marcados pelo género, como violência de género.

Assim, é preciso “compreender como, apesar dos progressos institucionais e normativos, as normas culturais persistem e continuam a influenciar as perceções sociais sobre o género, em particular no campo mediático”.

A resposta passa por uma “intervenção multissistémica”, juntando diversos atores – jornalistas, direções editoriais, órgãos de decisão dos órgãos de comunicação social, instituições que formam profissionais, reguladores e sociedade civil – “num ambiente de responsabilidade partilhada”, defende Rita Basílio Simões, propondo “ações mais continuadas” de monitorização.

“Não podemos responsabilizar só as redações, onde os jornalistas são meros peões, sem capacidade de decisão”, observa, notando que os órgãos de comunicação social “não estão maioritariamente despertos para reconhecer a importância de promover redações mais plurais”.

Além disso, os planos de ação estatais “têm eco, obviamente, nas instituições de natureza pública, mas pouco eco têm nas restantes [privadas], que são a maioria”.

Lusa revela “padrões de desigualdade acentuados” no noticiário

A agência Lusa, que pela primeira vez integrou um estudo internacional sobre disparidades de género nos conteúdos noticiosos, revela “padrões de desigualdade ainda mais acentuados do que a média nacional”.

Os dados nacionais da última edição do Global Media Monitoring Project (GMMP) – levado a cabo pela organização não-governamental World Association for Christian Communication e que é o maior e mais antigo estudo sobre disparidades de género na comunicação social – revelam que apenas 12% dos sujeitos nas notícias da Lusa recolhidas eram mulheres, metade do valor médio dos outros órgãos de informação analisados (imprensa, rádio, televisão e digital), já de si um resultado abaixo da média global (26%).

O GMMP fez a sua última monitorização a 06 de maio de 2025, recolhendo em 94 países 30.049 notícias, envolvendo 58.563 pessoas, feitas por 26.708 profissionais. Em Portugal, foram analisados 319 notícias.

As agências de notícias nunca fizeram parte da análise, mas, por sugestão da própria Lusa, a coordenação nacional do estudo – assegurada pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – aceitou incluir a única agência portuguesa na sua monitorização.

Rita Basílio Simões, professora universitária e coordenadora nacional do GMMP, reconhece que a amostra de notícias recolhida foi pequena – 14 peças, valor fixado para as notícias dos meios digitais (que a coordenação nacional entendeu adaptar-se melhor à agência) –, mas não deixa de valer “pela sua natureza exploratória”.

Além disso, a agenda do dia concentrou-se nos tópicos de economia, crime e violência e política e governo, tradicionalmente com menor presença de mulheres e a data escolhida para a monitorização foi marcada por acontecimentos tendencialmente mais masculinos, como a campanha para as eleições legislativas na Alemanha, os potenciais candidatos à sucessão papal e os conflitos em curso na Ucrânia e na Palestina.

Ainda assim, “a inclusão experimental” do noticiário da Lusa revelou “uma presença feminina particularmente enfraquecida no noticiário de agência”, conclui o relatório nacional.

A experiência permitiu ainda testar a aplicabilidade dos indicadores ao noticiário de agência: “Ficou à vista que é aplicável, mas não quer dizer que não possamos introduzir adaptações, que podem justamente incidir sobre os períodos de tempo em que a recolha é feita, tornando-a, por um lado, mais dispersa ao longo do dia e não concentrada apenas num único momento e, por outro lado, aumentando também o ‘corpus’ de análise, para que o conjunto de notícias analisadas possa refletir de forma mais fiel a produção da agência num único dia."

Focando a análise nas pessoas ouvidas enquanto fontes especializadas (e não apenas sujeitos de notícia), “a invisibilidade feminina” sai igualmente reforçada nas 14 peças da Lusa recolhidas.

O noticiário político revela-se o “mais masculinizado”, com 86% de presença de homens: “As fontes políticas privilegiadas pela Lusa são esmagadoramente masculinas, mesmo numa área marcada pela presença feminina, condicionando a agenda, as perspetivas apresentadas e a própria perceção de poder no espaço público.”

No relatório destaca-se “o facto de a agência noticiosa nacional – que funciona como fonte primária para um vasto conjunto de órgãos de comunicação social – reproduzir e amplificar enviesamentos de género”, o que deve levar a “interrogar, de forma crítica, práticas editoriais de uma redação estruturalmente influente”, apela Rita Basílio Simões, esperando que a Lusa esteja aberta a análises mais aprofundadas no futuro.

A coordenação nacional do GMMP observa ainda que a análise experimental “assume particular relevância” por a Lusa ter “uma cultura organizacional genericamente sensibilizada” para a igualdade de género, com “instrumentos internos muitíssimo valiosos que têm em vista garantir que a agência contribua para uma sociedade com menos desequilíbrios”, nomeadamente uma comissão para a igualdade e um plano de ação para a igualdade.

Considerando a experiência, que envolveu quatro jornalistas da Lusa, "muito profícua”, Basílio Simões diz que “faz todo o cabimento que [a agência, como meio] passe a integrar as operações de monitorização” do GMMP.

Os resultados da última edição serão apresentados hoje, às 14:30, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, no evento “Género em foco: retrato dos media portugueses pelo GMMP 2025”, do qual a Lusa é parceira.

Os dados serão também objeto de reflexão na quarta-feira, às 15:00, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com a conferência “Género e Media: evidências e tendências 30 anos depois”, organizada pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e pela equipa portuguesa do GMMP.

A operação portuguesa para o GMMP de 2025 reuniu docentes, investigadores e estudantes da Universidade de Coimbra, assim como de outras instituições académicas e científicas nacionais, na sua maioria membros do Grupo de Trabalho em Género e Sexualidades da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação, um dos parceiros da iniciativa, que contou com o apoio institucional da ERC.

País

Mais País