Um glaciar na Antártida encolheu quase 50% em apenas dois meses, o recuo mais rápido já registado na história moderna, de acordo com um novo estudo — e a forma como recuou pode ter grandes implicações para a subida global do nível do mar.
O glaciar Hektoria, aproximadamente do tamanho da cidade de Filadélfia, fica na Península Antártica, uma cadeia de montanhas estreitas que se projeta do continente como um polegar apontando para a América do Sul. É uma das regiões de aquecimento mais rápido da Terra.
Glaciares ancorados como o Hektoria, que repousam no fundo do mar e não flutuam, geralmente recuam no máximo algumas centenas de metros por ano. Mas entre novembro e dezembro de 2022, o Hektoria recuou oito quilómetros, de acordo com o estudo publicado no início deste mês no periódico Nature Geoscience.
“Isto é surpreendente; a taxa de recuo é simplesmente insana”, diz Ted Scambos, um dos autores do estudo e investigador sénior do Centro de Ciências e Observação da Terra da Universidade do Colorado em Boulder.
Compreender melhor porque é que isto aconteceu é vital; se os glaciares maiores recuarem em taxas semelhantes, tal poderá ter "implicações catastróficas para a elevação do nível do mar", escrevem os autores num comunicado que acompanha o relatório. A Antártida contém gelo suficiente para elevar o nível global do mar em cerca de 58 metros.
A quase extinção do Hektoria foi descoberta por acaso. Os investigadores estavam a monitorizar a baía onde o glaciar está localizado para um estudo distinto. Estavam de olho no "gelo fixo" da área — gelo marinho preso à terra que não se move com o vento ou as marés — acreditando que estava prestes a desprender-se e a flutuar para o mar.
Enquanto Naomi Ochwat, coautora do estudo e pós-doutoranda da Universidade do Colorado em Boulder, analisava os dados, percebeu que o Hektoria havia perdido uma enorme quantidade de gelo num período muito curto. "Percebi que, ok, algo especial estava a acontecer", diz Ochwat à CNN.
Ela e os coautores do estudo começaram a investigar o que estava a acontecer, analisando imagens de satélite e dados de sobrevoos.
Eles identificaram várias etapas que levaram ao rápido recuo do Hektoria. Em 2011, a baía encheu-se de gelo fixo, estabilizando os glaciares ao redor, permitindo que avançassem para a baía e formassem línguas de gelo espessas e flutuantes. Em 2022, esse gelo flutuante desprendeu-se da baía, desestabilizando os glaciares, fazendo com que eles perdessem as suas línguas de gelo e recuassem.
A razão pela qual o Hektoria se desfez muito mais rapidamente do que os glaciares vizinhos deve-se ao que está debaixo dele, descobriram os cientistas.
O Hektoria repousa sobre uma planície de gelo, onde o gelo deslizante se move sobre sedimentos planos no fundo do mar. As planícies de gelo podem provocar um recuo rápido porque, à medida que o glaciar se torna mais fino, o gelo começa a subir e a água penetra por baixo, nas suas fendas, exercendo pressão e fazendo com que grandes placas se desprendam — um processo chamado de desprendimento de icebergues.
Quando um icebergue se desprende, expõe o glaciar atrás dele sobre as mesmas pressões e o desprendimento ocorre novamente. Scambos compara o processo a "dominós a cair para trás, com as suas bases a escorrer, um depois do outro".
Este tipo de derretimento de planície de gelo já aconteceu antes. Modelos mostram que, entre cerca de 15.000 e 19.000 anos atrás, durante um período de aquecimento que encerrou a última Era do Gelo, glaciares com planícies de gelo recuaram centenas de metros por dia. Mas “nunca tínhamos visto isto acontecer ao vivo antes, certamente não a este ritmo”, aponta Ochwat.
O recuo do Hektoria foi fortemente influenciado pelas mudanças climáticas, acrescenta a especialista. A perda de gelo marinho no oceano próximo ao Hektoria, que se acredita ter sido causada pelo aquecimento do oceano, permitiu que as ondas atingissem o gelo fixo e o quebrassem, deixando o glaciar exposto às forças oceânicas.
Com a aceleração das alterações climáticas, “é provável que vejamos mais reduções no gelo marinho nesta região”, aponta Bethan Davies, geóloga glacial da Universidade de Newcastle, que não participou no estudo. Isso pode resultar na perda do gelo marinho que atualmente sustenta outros glaciares, adianta à CNN.
O Hektoria é um glaciar relativamente pequeno para os padrões da Antártica, e o seu desaparecimento parcial não custará muito ao planeta em termos de elevação do nível do mar, refere Scambos.
No entanto, “ela é uma prima menor de alguns glaciares verdadeiramente gigantescos — quero dizer, do tamanho da ilha da Grã-Bretanha — na Antártica, que poderiam passar pelo mesmo processo, à medida que toda essa evolução das camadas de gelo na Terra ocorre com o aquecimento global”, acrescenta.
A próxima etapa é estabelecer melhor quais as áreas da Antártica que são vulneráveis ao mesmo processo. Se um enorme glaciar se desintegrasse rapidamente, “isso significa que poderíamos ter uma mudança drástica na elevação do nível do mar”, diz Ochwat.
Rob Larter, um geofísico marinho do British Antarctic Survey, que não participou na investigação, diz que as novas descobertas "elevam o nível da nossa compreensão sobre a velocidade a que os glaciares da Antártida podem recuar".
Estes glaciares, especialmente as cavidades sob as suas plataformas e as línguas de gelo, são alguns dos ambientes mais inacessíveis da Terra, adianta à CNN, mas saber mais sobre eles é crucial para projetar melhor como responderão às mudanças climáticas. O estudo aumenta os temores de que o degelo da Antártica, que contribui para a subida do nível do mar, "possa ocorrer mais rapidamente do que o projetado", diz ele.
É mais um sinal de que a humanidade ainda tem muito a aprender sobre este vasto continente isolado. "Estamos numa posição em que ainda estamos a descobrir processos que não conhecíamos", diz Ochwat.