“Pensei que ia morrer naquele barco”: mãe recorda o horror de um mês à deriva no mar

“Pensei que ia morrer naquele barco”: mãe recorda o horror de um mês à deriva no mar

Paula Hancocks, Sandi Sidhu e Rhea Mogul

Hatemon Nesa chora agarrada à sua filha de 5 anos, Umme Salima, num centro de recolhimento na província indonésia de Aceh. Os seus rostos parecem sulcados, os seus olhos tristes, depois de terem estado à deriva durante semanas no mar, num barco com pouca comida ou água.

“A minha pele estava a apodrecer e os meus ossos ficaram visíveis”, conta Nesa. “Pensei que ia morrer naquele barco.”

Nesa também chora pela sua filha de 7 anos, Umme Habiba, que diz ter sido forçada a deixar para trás no Bangladesh - não podia pagar mais do que os mil dólares que os traficantes exigiam para a transportar a ela e ao seu filho mais novo para a Malásia. “O meu coração está a arder pela minha filha”, diz.

Nesa e Umme Salima estavam entre os cerca de 200 rohingya, membros de uma minoria muçulmana perseguida, que embarcaram na perigosa viagem em finais de novembro a partir de Cox's Bazar, um campo de refugiados em crescimento no Bangladesh, já lotado com cerca de um milhão de pessoas que fugiram do alegado genocídio levado a cabo pelo exército de Myanmar.

Mas, logo após a sua partida, o motor avariou, transformando o que era suposto ser uma viagem de sete dias numa provação de um mês no mar, expostos aos elementos da natureza no barco de madeira, sobrevivendo só com água da chuva e comida para apenas três dias.

Nesa diz ter visto homens famintos saltar borda fora, numa busca desesperada por comida, mas nunca mais voltaram. E viu um bebé morrer depois de ter sido alimentado com água salgada do mar.

Com o passar das semanas, as famílias dos passageiros e as organizações de ajuda humanitária pediram aos governos de vários países que os ajudassem - mas os seus alertas foram ignorados.

Depois, a 26 de dezembro, o barco foi resgatado por pescadores indonésios e por autoridades locais em Aceh, de acordo com a agência das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR). Das cerca de 200 pessoas que embarcaram, apenas 174 sobreviveram - cerca de 26 morreram no barco ou estão desaparecidas no mar, presumivelmente mortas.

Babar Baloch, um porta-voz da agência na Ásia, disse que, após uma pausa durante a pandemia, o número de pessoas em fuga voltou aos níveis anteriores à covid-19. No ano passado, cerca de 2.500 pessoas embarcaram em barcos não fiáveis para viajar, e cerca de 400 delas morreram, fazendo de 2022 um dos anos mais mortíferos numa década para os rohingya que fugiram de Cox's Bazar.

“São literalmente armadilhas mortais, quando se entra... acaba-se por perder a vida", disse ele.

Umme Habiba permanece em Cox's Bazar, onde não pode ir à escola. Cortesia: Mohammed Rezuwan Khan

“Estamos esfomeados. Estamos a morrer aqui”

A viagem de Nesa e Salima começou a 25 de novembro, a partir dos campos de refugiados superlotados em Cox's Bazar, onde, segundo diz, os seus filhos não podiam ir à escola, o que a deixava com pouca esperança no seu futuro.

Nesa conta que tinha carregado cerca de dois quilos de arroz para a viagem, mas pouco depois de o barco ter deixado o porto, o motor “morreu” e ficou à deriva.

“Com fome e sem comida, vimos um barco de pesca ali perto e tentámos aproximar-nos”, conta, chorando ao recordar o horror. “Saltámos para a água para nadar para perto daquele barco mas não conseguimos.”

O frágil barco de madeira que transportava Hatemon Nesa e a sua filha, Umme Salima, fotografado na província de Aceh, Indonésia. Foto CNN

Durante o mês de dezembro, enquanto se encontrava sem rumo na Baía de Bengala, o barco foi avistado perto da Índia e do Sri Lanka, segundo o ACNUR. Mas, segundo a agência, esses países “ignoraram continuamente” os pedidos de intervenção.

A CNN contactou as marinhas da Índia e do Sri Lanka para obter um comentário, mas não teve resposta. No mês passado, a Marinha do Sri Lanka afirmou num comunicado que as suas tripulações tinham feito um “esforço extenuante” para resgatar outro barco com 104 rohingya, incluindo muitas mulheres e crianças, que tinham fugido do Bangladesh.

A 18 de dezembro, o irmão da Nesa, Mohammed Rezuwan Khan, que se encontra no Cox’s Bazar, partilhou com a CNN um áudio de uma chamada telefónica que recebeu de um dos refugiados a bordo do barco da Nesa.

“Estamos a morrer aqui”, dizia o homem via telefone por satélite, de acordo com a gravação. “Há oito a dez dias que não comemos nada. Estamos esfomeados.”

Hatemon Nesa e a sua filha de 5 anos, Umme Salima, num abrigo na província de Aceh, na Indonésia. Foto: CNN

Segundo Nessa, o homem que ia ao leme do barco e outro membro da tripulação saltaram para o oceano para procurar comida, mas nunca regressaram. “Penso que foram comidos pelos peixes no mar”, diz.

Outros 12 homens entraram na água, enquanto se agarravam a uma longa corda presa ao barco, para tentar apanhar algo para comer, mas quando outros no barco tentaram puxá-los de volta, a corda partiu-se, conta Nesa. “Eles não conseguiram regressar ao barco.”

Embora todos os países estejam obrigados pelo direito internacional a salvar pessoas em perigo no mar, nem sempre há uma ação rápida - particularmente no que diz respeito aos refugiados rohingya, de acordo com Baloch, do ACNUR.

“Penso que todos concordarão como seres humanos que temos a responsabilidade de querer salvar uma vida em perigo, quanto mais quando são centenas de pessoas que morrem”, diz Baloch. “(Os estados próximos) têm de agir para salvar estas pessoas desesperadas. Tem de ser uma ação coletiva, em coordenação com todos os estados da região".

Um futuro incerto

Nesa e Umme Salima encontravam-se entre os 174 magros sobreviventes que foram filmados no final de dezembro a pôr os pés em terra pela primeira vez em semanas, alguns dos quais desabando imediatamente na areia de uma praia de Aceh, demasiado fracos para continuar de pé.

Eles estão entre os mais afortunados - o ACNUR acredita que outros 180 estão presumivelmente mortos, perdidos no mar noutro barco desde o início de dezembro, quando os ocupantes deixaram de comunicar com as suas famílias.

Os sobreviventes do barco da Nesa estão agora a receber cuidados médicos em Aceh. No entanto, ainda não é claro o que lhes poderá acontecer nas próximas semanas e meses.

Os refugiados Rohingya descansam depois de serem transferidos para um abrigo temporário, após a sua chegada de barco a Laweung, na província de Aceh, a 27 de dezembro de 2022. Chaideer Mahyuddin/AFP/Getty Images

A Indonésia não faz parte na Convenção das Nações Unidas sobre Refugiados e carece de uma estrutura nacional de proteção de refugiados, de acordo com o ACNUR.

Para as pessoas refugiadas, o ACNUR começará a procurar uma de várias soluções, incluindo a relocalização num país terceiro ou o repatriamento voluntário, se uma pessoa for capaz de “regressar em segurança e dignidade”.

Isto marca o início de um novo capítulo para o grupo de passageiros, que vivem há anos em campos de refugiados sobrelotados, insalubres e inseguros no Bangladesh, após terem fugido a décadas de discriminação sistemática, brutalidade generalizada e violência sexual no seu país de origem, Myanmar.

“Sem Estado, perseguidos, estes refugiados rohingya têm conhecido pouco a paz”, declara Baloch, do ACNUR. A comunidade internacional precisa de fazer muito mais pelo grupo perseguido, que sofre a uma escala que a maioria das pessoas nem consegue imaginar, acrescenta.

Para Nesa, resta a esperança de que um dia ela possa reunir-se com a sua outra filha.

“Eu estava prestes a morrer (no Bangladesh)”, diz. “Alá deu-me uma nova vida... Os meus filhos deveriam receber uma educação adequada. Era só isso que eu queria".