Em imagens: A doçura amarga das vindimas durienses dos anos 50

Em imagens: A doçura amarga das vindimas durienses dos anos 50

Texto Carolina Figueiredo

Edição Teresa Abecasis

Com o início das vindimas do Douro, recordamos a tradição nos anos 50. Foram tempos difíceis e exigentes, em que quase todo o trabalho era exclusivo da mão humana, mas sempre pontuado por cantares, partilhas e celebrações. Quem os viveu recorda-os com um misto de saudosismo e pesar

A primeira nuance de claridade rompe pela tela sideral do Douro. Enquanto as ruas ainda exalam o aroma seco e ameno da madrugada, com notas a uva, um novo dia vai-se encetando discretamente. As fachadas das casas abrigam-se no brilho púrpura do mais primordial amanhecer, com o rio lá ao fundo por ora manso e preguiçoso. Pouco passa das cinco da manhã, e o Sr. Joaquim sai de casa inalando profundamente. Exalando. É uma vida inteira a conhecer o nascer do sol; a contemplá-lo como se ainda alguma novidade fosse surgir ali, no horizonte, para além do velho sol. Os candeeiros por fim quiescentes; os laivos românticos extinguindo-se no céu até toda a paisagem ser delirantemente áurea. No Alto Douro Vinhateiro, nasce Tabuaço, a vila de ouro.

As temperaturas são amenas ao raiar da manhã, e é por isso a hora mais propícia ao trabalho. O corpo mexe-se ainda sem o sufoco do sol, sem as arfadas desesperadas por ar fresco num ar estagnado sem brisas. No Douro, tudo é excessivo – quando o inverno traz o frio, o frio gela os pulmões e dissipa a paisagem em diante com nevoeiro espesso; quando o verão chega, o verão reina. A luz é intensa como se nada mais existisse no mundo para além de claridade, e o calor quase fumega da pele trigueira, das videiras pesadas, do solo xistoso. Em todo o lado, abunda cor: as uvas verdes e roxas, as encostas verdes moldadas em socalcos estendidas por aí além como mantos. O azul do rio que as atravessa, o azul do céu como cúpula. O azul-escuro do olhar do Sr. Joaquim, perdido a contemplar a paisagem que sempre conheceu – mas que por vezes não reconhece.

“Agora tudo é diferente”, repete, uma e outra vez. Dedica-se às vindimas aos 80 anos e desde os 12, quando terminou os estudos. É um trabalho de ano inteiro, bem o sabe, mas setembro é sempre incerto. Aprendeu a olhar para o céu, a ponderar os períodos de seca e pluviosidade das últimas semanas e a calcular a data provável – este ano, “para a semana já se vai começar a cortar o branco e depois para a outra é o tinto”. Já sabe o que esperar e conta-o numa tarde lenta de final de agosto, em 2022, mas reitera: tudo era diferente na década de 50, quando começou. Apoia-se na enxada como se lhe pesassem também as memórias da infância nas margens do Douro, por entre videiras e pés tingidos de escarlate. Os recursos eram diferentes, a remuneração era diferente, a vida era diferente. E tinha 12 anos: claro que tudo era diferente.

A roga, composta por homens, mulheres e crianças, parte em direção aos vinhedos do Alto Douro, em 1951. Foto: Hulton-Deutsch Collection/CORBIS/Corbis via Getty Images

Só as fotografias são a preto e branco, porque também há 70 anos a paisagem vibrava com cor e calor. Vinham mulheres, homens, e crianças, com a poeira a levantar-se com a passagem da multidão. As senhoras usavam lenços na cabeça e baloiçavam cestas de vime com mudas de roupa e alguma comida, o inevitável “mata-bicho”; os homens cantarolavam para amenizar o percurso; algumas crianças seguiam de perto a alçada da mãe e outras davam a mão e corriam descalças.

A sensação de leveza e brincadeira não perdurava. Nas vindimas, até os mais pequenos tinham trabalho de gente crescida. O Sr. Joaquim recorda o corte das uvas, o carregar das cestas (e dos cestos, mais pesados) e reconhece, ainda assim, que era “trabalho mais leve” do que aquele que veio a conhecer em adulto. Mas não existe realmente trabalho leve nas vindimas para os corpos franzinos das crianças. Não é apenas a colheita de uvas – é a colheita de uvas em vertentes de vales encaixados onde o vento atlântico não visita, com muros de xisto a ferver nos pés. Algumas destas crianças, meninos e meninas, chegavam às quintas e acumulavam ainda mais horas de trabalho nos lagares, a pisar as uvas ao lado dos homens adultos, num turno total que ultrapassava os dois dígitos.

A multidão avança alegremente, cantando e dançando. Foto: Hulton-Deutsch Collection/CORBIS/Corbis via Getty Images

Sim, agora as coisas são diferentes: atualmente, a repartição de tarefas por sexos não é tão acentuada. O corte das uvas era feito tradicionalmente por mulheres, observadas rigorosamente pelo feitor e incentivadas a cantar, cantar, cantar: enquanto cantavam, não atrasavam o trabalho ao falar umas com as outras. E não comiam sorrateiramente uma ou outra uva apetitosa, tornada manjar dos deuses quando o suor deslizava pela testa.

As mulheres cortavam os cachos e despejavam-nos em pequenas cestas de vime, depois mudadas para cestos maiores e aí acumuladas, cada vez mais pesadas, até os homens as levarem para o lagar. O responsável pela supervisão dos trabalhos contabilizava com uma vara os cestos que dali partiam e ficava encarregado de informar o feitor ao final do dia. Cada risco na vara, um cesto.

O responsável usa uma vara para contar os cestos levados para o lagar. Foto: Hulton-Deutsch Collection/CORBIS/Corbis via Getty Images

A pisa de uvas era essencialmente masculina. “Havia lagares onde punham concertinas ou realejos lá fora a tocar” para animar a roga, já exausta ao final do dia, e outros usavam a própria voz. Improvisava-se e entoava-se cantigas muitas vezes inventadas no momento – “para animar e nos deixar mais contentes”, relembra o Sr. Joaquim, mas também para manter o ritmo da tarefa. Cantavam e, ao mesmo tempo, um pé esmagava as uvas, outro pé, um pé, outro pé, um pé, outro pé. Pisavam-nas como uma espécie de dança, com as sombras animadas refletidas nas paredes em frente, engrandecidas pela luz das velas. E o cheiro, o cheiro que se impregnava nos pés e nas pipas e na memória, intenso e persistente numa combinação de uva, açúcar, aguardente, fermentação.

Há relatos de uma e outra dissidente que se atrevia a sujar os pés na companhia dos homens, mas as convenções sociais ditavam que mulheres e homens se segregassem nas vindimas. Para evitar namoriscos, porque as diferenças entre os sexos assim o exigiam, porque a menstruação da mulher poderia comprometer a qualidade do vinho. As justificações eram várias, e quase todas se desmoronaram com o passar dos anos. As quintas de maior dimensão tinham dormitórios separados por sexo, mas nas “vinhas pequenas” onde o Sr. Joaquim amadureceu era tudo feito com trabalhadores locais que pernoitavam em casa e regressavam no dia seguinte. Melhor assim: os dormitórios eram quase invariavelmente montes de palha e farrapos improvisados no chão, amontoados, nunca se assemelhando ao conforto de uma boa cama.

A carga dos cestos era feita por homens, mais encorpados, embora as mulheres e crianças participassem por vezes em alturas de maior produção. Mas mais prático do que os cestos às costas, que chegavam a pesar 70 quilos, era o recurso aos animais. Carros de bois arrastavam balseiros, pipas e lenha e seguiam viagem penosa por colinas íngremes acima e estradas a perder de vista. “Agora já não há disso, nem cavalos – é tudo tratores e camionetas”, explica o Sr. Joaquim. “O meu pai às vezes, com três ou quatro cavalos, demorava meia hora a chegar ao destino. Agora vem uma carrinha e, em cinco minutos, põe-se tudo no sítio”.

As pipas eram levadas em carros de bois até às margens do rio Douro. Foto: Hulton-Deutsch Collection/CORBIS/Corbis via Getty Images

Grande parte do que constituía as vindimas dos anos 50 viu-se substituída por processos mecânicos. Talvez menos mágicos, místicos; algo empalidecidos quando comparados com o fascínio das fotos e testemunhos históricos do que foi outrora esta tradição. Mas a tecnologia é bem-vinda, sobretudo no que respeita aos barcos que percorriam a distância entre a zona produtora e o destino final, as caves. A enorme espadela, quase tão comprida como o próprio barco, originou uma designação mais arcaica, “rabudos”, que posteriormente evoluiu para “rabelos”. Eram barcos instáveis e com poucas condições de segurança, que o Sr. Joaquim conheceu apenas por testemunhos de outrem. Em meados da década de 60, os caminhos-de-ferro e o transporte rodoviário ditaram a sua extinção.

A tripulação era de número variável, com uma hierarquia bem definida que ia desde o cozinheiro ao dono do barco, passando pelos bravos marinheiros a quem incumbia a árdua tarefa de estabilizar a embarcação ao descer e remar contra a corrente na subida do rio. As velas e os remos nem sempre ajudavam a fazer frente a estas condições; quando tal acontecia, recorria-se à força humana ou animal para puxar o rabelo e prendê-lo à sirga. Era um Douro hostil, de disposição instável, com Adamastores em cada troço e passagens tão difíceis que alguns juravam, em sussurros, estar amaldiçoadas. Nesses locais, construíam-se pequenas capelas de devoção a santos como Nossa Senhora de Cardia e que são ainda hoje testemunhos estáticos, imortalizados em pedra, do terror que aquelas águas invocavam. Os naufrágios aconteciam, vidas perdiam-se. O risco era conhecido e os rabelos preparavam-se desde o início da viagem com esta ideia de esperança cautelosa. Nada a fazer quanto aos tripulantes naufragados e às embarcações para sempre perdidas; as baixas mais evitáveis eram as pipas de vinho. Assim, jamais se enchiam até à totalidade – bastava até meio, para conseguirem flutuar se as águas indisciplinadas voltassem o barco. Em caso de naufrágio, caso não conseguissem ser recuperadas imediatamente nas margens do rio, haveriam de desaguar em qualquer outro ponto do Douro, em qualquer outro momento.

Homens carregando os barcos rabelos com pipas de vinho. Foto: Hulton-Deutsch Collection/CORBIS/Corbis via Getty Images

Se a vinicultura e o cheiro persistente a álcool adocicado nas plantações do Tabuaço remontam ao culto a Dionísio, o que dizer das celebrações finais? Durante meses, a alimentação era insuficiente tanto em quantidade como em qualidade nutricional. O “mata-bicho” pretendia, quase somente, enganar o bicho: aquietar a fome e manter o corpo oleado. “Naquele tempo, já se sabe como era: ou uma lasca de bacalhau, ou sardinha”, suspira o Sr. Joaquim. “Era o que calhava”. De resto, as calorias necessárias ao esforço físico do dia eram obtidas com o que mais havia em abundância: vinho, vinho, vinho.

Parecia tardar, mas finalmente chegava a época de festejo. O final das vindimas traduzia-se no alívio unânime pelo encerrar da parte mais dura de todo o processo, no direito da pele enrugada por banhos de sol e vinho à merecida sombra. Conhecia-se os proprietários da quinta e fazia-se “um símbolo, uma cortesia, uma coisa à antiga”: a entrega do ramo, oferecida à mulher do proprietário pela rapariga mais formosa da roga. Bastava “ir a uma oliveira, cortar um ramito, pôr lá um cacho”, já está. Mas o expoente dos festejos era mesmo o jantar, irrigado em comida, álcool e música. Tocavam-se instrumentos musicais e cantava-se à desgarrada, de faces ruborizadas pelo vinho produzido e consumido. Uma euforia de barriga cheia pelo repouso que tardara em vir, e pela remuneração que sabiam estar iminente. Era uma verdadeira festa de homenagem à divindade grega do hedonismo, antes de se limpar o rosto e começar a preparar o ano seguinte. Porque, como diz o ditado popular, até ao lavar dos cestos é vindima.

As celebrações que finalizam as vindimas incluem cantares e dançares. Foto: Hulton-Deutsch Collection/CORBIS/Corbis via Getty Images

“Anda aqui alguém que ganha sete euros por hora”, confidencia o Sr. Joaquim, de leve sorriso no rosto. “Naquele tempo era uma semana para ganhar este dinheiro em escudos”. Faz cálculos rápidos e constata, de ironia triste acentuada na voz: “não, nem numas semanas se ganhava isso”.

O regresso ao tempo presente, agosto de 2022, meio da tarde, quase que é vertiginoso. O menino de 12 anos está ali, tornado adulto, caminhando pelas mesmas ruas onde se apaixonou, trabalhou, construiu a sua existência. “A minha vida sempre foi isto”, entre cachos de uvas e solos tão quentes que a linha do horizonte parece pairar e estremecer. Agora, dedica-se em exclusivo à sua vindima – “não é que me dê muito lucro, mas pronto, ando cá entretido”. E entretém-se, dentro e fora das vindimas. Ergue-se cedo, mas não se deita cedo: às 5:00 da manhã está fora de casa, mas só regressa para dormir quase no limiar do dia seguinte. Faz sempre “qualquer coisa” até às 11:00, e com a chegada do calor pausa para almoçar. De barriga satisfeita, após o meio-dia, deita-se na cama com a janela aberta e pingos de sol derramados sobre os lençóis de agosto. O jantar é em casa da filha, onde prolonga o serão a conversar e a ver programas de televisão até retomar o caminho para casa às 23:00. Entretém-se, numa vida que sempre foi isto. E arrependimentos, tem? Hesita.

As vindimas dos anos 50 foram a principal fonte de sobrevivência da população rural do Douro e (ainda) o maior motor da vida económica da região. Mas como falar de prosperidade? “Eram tempos difíceis, para esquecer. Poderia ter ido para outro lado. Andei na tropa, lá fora, em Moçambique. Quando vim meti o requerimento para os correios, mas afinal não quis ir, e olhe…” Os olhos estreitam-se, talvez por culpa do sol. “Agora, passou, passou. Já tenho 80 anos.” Di-lo como se fosse uma sentença, condenando-o a um eterno repetir de amanheceres indiferenciáveis. As videiras enredadas a si desde os 12 anos, sem outra opção. “Passou, passou”.

Videiras em folha, cuidadosamente plantadas ao longo do terreno. O solo do Douro é pobre em água e pouco propício ao florescimento de vida, apesar da sua produção vinícola incomparável e mundialmente renomeada. São os interstícios dos pedaços laminados de xisto que permitem a absorção de humidade suficiente à cultura da vinha, apesar das condições hostis dos verões quentes e secos do microclima duriense, à qual poucas espécies sobrevivem. Mas a videira, planta resiliente de raízes profundas, consegue cavar até dezenas de metros no solo em busca de água e sobreviver à aridez que prevalece no verão. Raízes que penetram, fortificam-se debaixo do solo, perenemente enterradas no sítio a que chamam lar apesar das vicissitudes. O Sr. Joaquim também o sabe. E faz notar, consciente ou inconsciente do paralelismo entre si e as folhas que acaricia com um dedo: é esta resiliência perante a adversidade que dá origem às uvas intemporais dos vinhos do douro.

Sr. Joaquim, Tabuaço, agosto de 2022. Foto: DR