Bolhão, a pérola está de volta à cidade. A alma do Porto está “mais bonita” e tem agora um pouco de tudo (até café a dois euros)

Bolhão, a pérola está de volta à cidade. A alma do Porto está “mais bonita” e tem agora um pouco de tudo (até café a dois euros)

Texto Sofia Santana

Fotografia Rui Oliveira

“É uma maravilha. Está tudo bonito, está tudo como eu e até a gente está mais nova. Estamos ou não estamos, minhas jóias?”, solta a peixeira Alice Ferreira, entre gargalhadas, enquanto duas clientes se abeiram da banca onde estão dispostos vários peixes, como robalos e sardinhas. Quatro anos depois, a peixeira não esconde a satisfação por estar de regresso ao local cuja história se confunde com as suas próprias memórias: o mercado do Bolhão. Não fosse este o sítio onde faz negócio há mais de meio século - 56 anos para sermos mais precisos -, não fosse este o local onde construiu laços de uma vida. “Ainda não tinha 17 anos quando vim para aqui trabalhar, já fiz 72. Não é brincadeira nenhuma”, sublinha.

O discurso é diversas vezes interrompido para cumprimentar os clientes que se aproximam, também eles curiosos com a renovação deste espaço emblemático da cidade do Porto. “Ó Rosinha, como está?”, ouvimos a certa altura. A cliente é Rosa Vieira que a trata carinhosamente por “florzura” e depressa embarcamos na viagem que nos leva ao início desta ligação. “Quando ela me conheceu eu tinha 12 anos, já trabalhava em peixe noutro lugar e ela ia lá comprar. Depois, quando vim para o Bolhão, ela veio atrás de mim”, recorda Alice Ferreira. Há um certo orgulho nas palavras da peixeira que, na brincadeira, diz que é mais famosa do que o próprio Presidente da República. 

“Ó amor, eu não sou mais famosa do que o Marcelo?”, pergunta a outra cliente, que responde sem hesitar. “Claro que sim, nem há dúvida, você já faz parte do Bolhão.”

Alice Ferreira tem uma banca de peixe no mercado do Bolhão
Tinha apenas 17 anos quando começou a fazer negócio no famoso local

 

"Nós passamos mais tempo aqui do que em casa"

Dizer que a reabertura do mercado do Bolhão representa um regresso a casa para dezenas de comerciantes até pode ser um cliché, mas é porventura a expressão que mais ouvimos na quinta-feira e que ajuda a explicar a importância deste lugar na alma da cidade que nunca o deixou cair. 

“Isto é a minha casa. Eu daqui não saio por nada desta vida”, começa por dizer Sara Araújo, outra peixeira do Bolhão, que passou neste mercado 40 dos seus 50 anos de vida. “Foi aqui que criei as minhas memórias, aqui criei a minha filha, que estava numa caixa de esferovite, e ela agora também está aqui, tem 32 anos”, conta, acenando para a filha que está ao lado, a cortar uma posta de salmão em pedaços pequenos. A filha acrescenta: “Vinha ajudar aos sábados, a partir dos seis anos, e depois fui ficando, aos 18 vim para aqui. Nós passamos mais tempo aqui do que em casa.”

E voltar a uma casa que se conhece como a palma da mão é motivo para celebrar. Em cima da vitrina de vidro está o que resta do bolo que Sara Araújo trouxe para a ocasião. A vendedora explica-nos que o bolo foi também um gesto de gratidão, com destinatário. 

“O bolo trouxe para dar ao Rui Moreira. Foi o único presidente que disse que ia fazer obras, que ia pôr o mercado bonito. Foi uma forma de lhe agradecer. Partimos os dois o bolo, comemos, bebemos e comemorámos. Sem ele vir eu não partia o bolo”, vinca. 

Sem meias palavras e sem esconder a emoção, continua: “Sem ele [Rui Moreira], ainda hoje estava a vender à chuva como estive toda a vida.”

 

A filha de Sara Araújo cresceu a ver a mãe trabalhar no mercado 

 

A chuva até caiu, mas só lá fora, numa “inauguração abençoada” para muitos. E quanto ao presidente da câmara do Porto, Rui Moreira, foi ele que, horas antes, às 8:00, deu solenidade à data e, cumprindo a tradição, o sino voltou a ouvir-se no Bolhão.

“A cidade entrega a si própria aquilo que era o seu coração. Nós até agora só tínhamos visto a parte patrimonial e eu agora quero ver isto com pessoas. O Bolhão sem pessoas não faz sentido”, afirmou Rui Moreira aos jornalistas.

Num momento de viragem, abriram-se as portas para um mercado centenário que, sem perder a traça original, apresenta agora melhores condições de segurança, mais conforto e um toque de modernidade.

 

As portas do novo espaço foram abertas às 8 horas, pelas mãos de Rui Moreira
O mercado tem agora melhores condições de segurança e conforto

"Antes parecia a feira da Vandoma"

“Está melhor do que estava antes, antes parecia a feira da Vandoma. Estava a precisar de obras. Está bonito, as bancas estão bonitas”, diz a florista Rosa Maria, que lamenta só alguma “falta de cor”.

A comerciante prepara um ramo de rosas brancas enquanto nos conta que está aqui há 47 anos. Começou a vender flores com a avó e depois com a tia. “Vim para aqui com sete anos, sou nova, mas já sou velha na arte”, revela com a voz grossa, entre sorrisos. 

Mexe nos óculos e apressa-se a ressalvar que, apesar de ter começado a vender com a família, foi ela que criou a pulso o seu próprio negócio. “Não estou com herança nenhuma, herdei foi o gosto das flores e de fazer as coisas”, remata.

Os comerciantes históricos do Bolhão têm pouco a apontar ao mercado criado para estes quatro anos em que decorreram as obras – no caso de Rosa Maria o ar condicionado é que estragava tudo. Ainda assim, todos recusam comparar os dois lugares. Aqui, no Bolhão, há um sentimento de pertença que corre desde o peixe de Sara Araújo ou de Alice Ferreira às flores de Rosa Maria e aos legumes da ‘Tininha’ ou aos enchidos de Maria Olinda (já lá vamos).  
 
“Isto para mim é o meu mundo, foi aqui que criei os meus filhos”, revela Rosa Maria. 
 

Rosa Maria começou a vender flores com a família aos sete anos

 

Um mundo que também é de quem sempre comprou aqui. Como Manuela Silva, de 64 anos. Trabalhou num pronto-a-vestir junto ao mercado durante mais de 20 anos e por aqui também fez parte da sua vida. “Estou muito contente, isto precisava realmente destas obras e foi uma coisa muito boa terem mantido a parte antiga.”

Muito perto das flores de Rosa Maria estão os legumes de Celestina Moreira ou, como a própria faz questão de anunciar, “Tininha”. “Aqui são os legumes da Tininha. Isto já foi da minha avó, entretanto foi da minha tia e eu estou cá há 20 anos”, lembra, frisando que só tem produtos de boa qualidade e que tenta que seja tudo português. 

Regressar a este mercado foi uma emoção porque “voltar à nossa casa é sempre uma emoção”. E como se isso não bastasse, às primeiras horas da manhã o negócio ia de vento em popa. “Vamos é esperar que nos próximos dias e meses seja assim porque isto não pode ser só um dia”, desabafa.

 

Há duas décadas que Celestina Moreira vende os seus legumes no Bolhão


Quem também não esconde a emoção é Maria Olinda Remísio, dona de uma salsicharia com 49 anos de história no Bolhão. Junto à exposição de enchidos – desde alheiras de Mirandela a chouriço de porco preto e morcelas de lavrador, tudo “produtos regionais, sem conservantes, sem produtos químicos, nada de aditivos, nem nada disso” – está um recorte de um jornal francês, de Lille, que lhe atribuiu os “melhores enchidos do Norte de Portugal”.  O artigo saiu em 2011 e foi escrito por um jornalista francês que era seu cliente habitual. “Ele parava aqui às vezes e comprava, era jornalista e eu não sabia”, explica. Mas a comerciante só teve conhecimento do artigo muito tempo mais tarde, através de outro casal francês. 

 

A salsicharia de Maria Olinda Remísio tem 49 anos de história
Um jornal francês atribuiu aos seus produtos a categoria de "melhores enchidos do Norte de Portugal"

"Viva o Bolhão"

O movimento no mercado não para. Ao meio-dia, o sol já espreitava entre as nuvens carregadas, e o Bolhão estava agora mais cheio do que de manhãzinha. “Viva o Bolhão, vivam este comerciantes lindos”, e as palavras ecoam com entusiamo pelas escadas que ligam os pisos.

E nas ruas que se desenham entre as bancas, erguiam-se os muitos olhares dos turistas. Dois jovens alemães passeiam com um sumo fresco de fruta, acabado de comprar. Não muito longe, um casal de Toronto pede um queijo – ‘the spicy one, the spicy one’, apontam com o dedo. Estão pela primeira vez no Porto, mas já tinham visitado a Madeira e os Açores. “O Bolhão é muito bonito e, na Europa, gostamos sempre de visitar este tipo de mercados”, explicam.

Foi também a pensar no turismo que o Bolhão juntou às suas figuras históricas um leque de novos comerciantes e de produtos, cuja diversidade se estende muito para lá dos frescos, como massas, conservas, chás. A modernidade, no entanto, pode apanhar alguns clientes mais desprevenidos. Um café expresso e um pastel de nata por mais de três euros? “Foi um bocadinho caro, mas olhe não faz mal, soube-me bem”, reconhece Rosa Fonseca, uma cliente de sempre do Bolhão, que esperava há muito por este dia. “Estava com saudades, agora vou à procura de um vasinho que estou com ideias de comprar.”

 

Rosa Fonseca esperava há muito pela reabertura do espaço

Se há lugares que espelham a alma de uma cidade, o Bolhão é exemplo disso: feito de memórias que atravessam gerações, é um retrato vivo do Porto, que lutou por ele e que o volta a receber, de braços abertos, com os afetos de sempre.